A memória das minhas ancestrais
faz minhas raízes balançarem
na cadência do navio negreiro, sinto o enjoo
que nelas embrulharam o estômago
mas desde lá, Iemanjá preparava o caminho
Quando eu andar, que a fluidez
da água que um dia afogou-acolheu os meus
me direcione para ocupar espaços
que antes os que se acham donos de tudo
ousaram um dia me destituir
Que na engenharia que tudo constrói
eu deságue a oferta dos meus sacrifícios
como forma de inspirar, iluminar como farol
que conduz a embarcação, para que não se perca
na enxurrada do medo de naufragar
E se um dia a água que me conduz faltar,
que meu pranto regue o chão
e que d’Ele brote a força
para as que virão depois de nós.
