25/11/2025

SÃO OS LÁBIOS, AS SUAS LETRAS ( António Ramos Rosa )

 São os lábios, as suas letras

e esta mão que desliza,
esta janela e esta mesa
O que eu desejo, o que eu escrevo
não é a claridade nem o meu olhar.
Um imperceptível movimento,
um antegosto

Não. O meu desejo
só o saberei no sabor
das palavras com que o persigo
e o vou perdendo

Qual o seu hálito?
De pedra e água.
É aqui mesmo que o saboreio
onde o ignoro.

Bafo de animal — rio.
Mão calma.
Instantânea força sábia.
Tentá-la!

Mão que tempera o sono.
Dorso que sobe da água.
Duas ou três palavras
para captá-lo nu e vivo.

Um lápis. Um papel deslumbrante,
tudo consinto, ó lisa força que
amacias os músculos e o olhar,
ó palavra flexível e palpitar da sombra
para a vivaz vertigem!

Não há razão para desesperar.
Não posso ser senão o que sou
no momento em que adiro e ardo