25/11/2025

UM PEQUENO VULCÃO ( António Ramos Rosa )

 Aproximo a boca de um pequeno vulcão

que palpita e fulgura como uma magnólia.
Talvez seja uma folha que crepita na sombra.
Ou apenas um lábio que desliza sobre a terra.
Sorvo na sua chama um nó de pequenas veias.
Não sei senão beijar, beijar os negros brilhos.
Sou um cavalo aceso numa gruta incandescente.
Vai ascendendo a saliva dos minúsculos arbustos.
Vou penetrando os ossos até estalar a carne.
Deliram sombras, vacilam luzes, dança o vento.
Aliaram-se as veias e os astros.
Uma aldeia esconde-se entre os lábios.
Um vestido gira nas águas de um jardim.
 in No Calcanhar do Vento, 1987.