15/12/2025

À TUA ESPERA ( Célia Moura, in "Terra De Lavra" )

Sê silêncio!

É urgente sentir de novo a deliciosa volúpia
desses teus lábios entreabertos
de menina
essa imagem inocente que me rasga as madrugadas
em sonhos ousadamente pérfidos
teu calor no meu pescoço
tua saliva dentro de mim
esse mosto de paixão
no ranger do soalho
tuas mãos inquietas
entre páginas e páginas rasgadas
flores estilhaçadas
sempre teu ventre aberto
acolhendo-me como um vagabundo!
Sê silêncio
meu amor de sempre,
minha mulher menina!
Vai, corre veloz como um rio em tempestade
até ao mar,
cigana dos olhos negros de breu
sempre vieste com as chuvas
amada
livre como um furacão
terna como uma noite de Verão.
Sê silêncio!
Tal como nos têm ensinado. Ancestrais.
Vai meu amor
neste tempo de ir
voa!
Para onde quer que o rio ou o vento te leve
estarei à tua espera.