26/12/2025

MEMÓRIA ( Alexandre Bonafim )

 O quarto resguarda

a tímida luz de outrora

Entre lençóis
vicejam os gestos
esquecidos
onde ainda hoje
moramos desde sempre

As mãos possuíam
essa clarividência
de tecer os sopros
os ardis da pele
de construir
um barco perdido
onde a respiração
queima a si mesma
ardendo o íntimo
mais secreto
do que éramos

Rosto contra rosto
flanco contra flanco
em única trama

nascíamos do que
jamais fôramos
do que nunca seríamos
inventávamos
um animal selvagem
capaz de nos ferir
de nos lanhar

Ardíamos o esquecimento
como quem acalanta
uma criança de argila