E.
e ter de estar nua
aos pés da estante
para poder te dizer
sou canibalesca
e gosto muito de chupar os ossinhos dos ouvidos humanos
gosto de comer pelada
e não lavo as mãos antes de ler
este é o dia de hoje
veja bem
é o meu Estado
estou sujeita
S.
sim
é pelada
o Estado onde posso
fazer as unhas
abrir bem as pernas
e lixar as unhas dos pés
posto que neste Estado
posso
cantar como cantava uma perereca que conheci
dar de túnel
imitação de túnel
como um túnel que conheci:
que aturdido obelisco de infantaria inculta!
T.
totem:
um cavalo está parado diante das minhas mãos
e não posso:
estou pelada
uma criança me vê pelada
e não posso:
estou imaculada
sou invisível
escorrego e me espatifo toda no chão de cimento cru
estou lá
pelada e me sinto terrível
uma megera
o chão é cru! o chão é cru! e eu não me caramujo nem um tanto.
A.
aforismo e autuação
este é o meu Estado
sou a pelada
e um lagarto passa por mim
(adotei o lagarto de um antigo encantador de serpentes que conheci)
(o encantador de serpentes que conheci também encantava fumaças e lombrigas)
passam por mim minhas memórias a despeito de um livro irritante
o lagarto ainda passa
das memórias
uma de especial
MIGRAR A LÁBIA PARA O LADO ONDE BANDEIRA ALGUMA INSISTA
o lagarto ainda passa
e ai
como gosto do tempo que o lagarto usa
trocando as bases de seu próprio tempo de pele
nas proximidades do meu tempo nos limites do meu Estado
D.
dizem
digo
já é de tradição
quase autoritária
sonhar que
chegando pelado à escola
o indivíduo deite-se numa gigantesca língua púrpura
seja
ainda que por três ou quatro litros de segundos
um tanto hermético em sua maneira de rolar pela dita
deixe
que seu couro todo sinta os pólipos e os périplos
esbarrando no adjetivo mais inadequado
esfregue sua genitália
nas áreas mais coibidas da filosofia no paladar
levante-se e deite-se e levante-se e sente-se e role
pressinta a narrativa ordinária e a prepotente
ou que pelo menos
numa espécie rara de dança tribal
acorde todo salivado nos olhos e nas canelas.
tradição!
O.
ouço
voltando ao meu Estado
pelada
os urubus circundando, gritando, pedindo
imagino
voltando e saindo do meu Estado
uma camisa vestindo a mim
uma calça e uma calcinha e um chapéu e um sonho
vestindo a mim
pelada
botinas de homem e um cinto de couro de crocodilo
pelada
tudo vestindo a mim
ao meu couro
em pleno Estado meu
eu, pelada
tudo numa ordem zanzada
hora inexata de ser
um tanto menos de ser
(como ser justa com os cabelos no Estado de onde me vou saindo?)
uma cabeça de gente na janela da frente
uma de bicho
no vão da porta
(não estávamos no telhado?)
(eu, meu Estado, aquele livro, a tradição, os ossinhos e o lagarto?)
(a criança e o cavalo?)
(não estávamos lá?)
tudo numa ordem penitente, amargada
eu pelada
sumariamente chorosa
ai, chorar pelada! cantar pelada.
pelada, tomar chuva ou tapa na orelha!
já voltando e já saindo
do meu Estado
pelada
tendo devorado
a tudo o que é vivo ou relativo
e voltar a mascar a nudez como a um ursinho de goma
uma palestra, filhotes melados
procissão, dedos lambrecados
rachos arabescos e vingança
tudo dentro e fora da jurisprudência do meu Estado
mas veja bem o Estado:
eu pelada
pareço porca esquematizada
ponto a ponto
imito a tua silhueta ao me despojar dos panos?
sou o fantasma nos limites do meu Estado
estou no meu Estado