01/12/2025

ESTADO ( Carla Diacov )

 E.

e ter de estar nua

aos pés da estante

para poder te dizer

sou canibalesca

e gosto muito de chupar os ossinhos dos ouvidos humanos

gosto de comer pelada

e não lavo as mãos antes de ler

este é o dia de hoje

veja bem

é o meu Estado

estou sujeita

 

 

S.

sim

é pelada

o Estado onde posso

fazer as unhas

abrir bem as pernas

e lixar as unhas dos pés

posto que neste Estado

posso

cantar como cantava uma perereca que conheci

dar de túnel

imitação de túnel

como um túnel que conheci:

que aturdido obelisco de infantaria inculta!

 

 

T.

totem:

 

um cavalo está parado diante das minhas mãos

e não posso:

estou pelada

 

uma criança me vê pelada

e não posso:

estou imaculada

sou invisível

 

escorrego e me espatifo toda no chão de cimento cru

estou lá

pelada e me sinto terrível

uma megera

o chão é cru! o chão é cru! e eu não me caramujo nem um tanto.

 

 

A.

aforismo e autuação

este é o meu Estado

sou a pelada

e um lagarto passa por mim

(adotei o lagarto de um antigo encantador de serpentes que conheci)

(o encantador de serpentes que conheci também encantava fumaças e lombrigas)

passam por mim minhas memórias a despeito de um livro irritante

o lagarto ainda passa

das memórias

uma de especial

MIGRAR A LÁBIA PARA O LADO ONDE BANDEIRA ALGUMA INSISTA

o lagarto ainda passa

e ai

como gosto do tempo que o lagarto usa

trocando as bases de seu próprio tempo de pele

nas proximidades do meu tempo nos limites do meu Estado

 

 

D.

dizem

digo

já é de tradição

quase autoritária

sonhar que

chegando pelado à escola

o indivíduo deite-se numa gigantesca língua púrpura

seja

ainda que por três ou quatro litros de segundos

um tanto hermético em sua maneira de rolar pela dita

deixe

que seu couro todo sinta os pólipos e os périplos

esbarrando no adjetivo mais inadequado

esfregue sua genitália

nas áreas mais coibidas da filosofia no paladar

levante-se e deite-se e levante-se e sente-se e role

pressinta a narrativa ordinária e a prepotente

ou que pelo menos

numa espécie rara de dança tribal

acorde todo salivado nos olhos e nas canelas.

 

tradição!

 

 

O.

ouço

voltando ao meu Estado

pelada

os urubus circundando, gritando, pedindo

imagino

voltando e saindo do meu Estado

uma camisa vestindo a mim

uma calça e uma calcinha e um chapéu e um sonho

vestindo a mim

pelada

botinas de homem e um cinto de couro de crocodilo

pelada

tudo vestindo a mim

ao meu couro

em pleno Estado meu

eu, pelada

tudo numa ordem zanzada

hora inexata de ser

um tanto menos de ser

(como ser justa com os cabelos no Estado de onde me vou saindo?)

uma cabeça de gente na janela da frente

uma de bicho

no vão da porta

(não estávamos no telhado?)

(eu, meu Estado, aquele livro, a tradição, os ossinhos e o lagarto?)

(a criança e o cavalo?)

(não estávamos lá?)

tudo numa ordem penitente, amargada

eu pelada

sumariamente chorosa

ai, chorar pelada! cantar pelada.

pelada, tomar chuva ou tapa na orelha!

já voltando e já saindo

do meu Estado

pelada

tendo devorado

a tudo o que é vivo ou relativo

e voltar a mascar a nudez como a um ursinho de goma

uma palestra, filhotes melados

procissão, dedos lambrecados

rachos arabescos e vingança

tudo dentro e fora da jurisprudência do meu Estado

 

mas veja bem o Estado:

eu pelada

pareço porca esquematizada

ponto a ponto

 

imito a tua silhueta ao me despojar dos panos?

sou o fantasma nos limites do meu Estado

estou no meu Estado

sou a memória da égua da noite.