17/12/2025

VAMOS ( Ellen Bass ) in Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014. Trad.: Nelson Santander

Vamos tirar nossas roupas e nos divertir.

Podemos rolar
como cães sem coleira na Lighthouse Beach. Vamos explorar
os corpos uma da outra
como uma liquidação de quatro de julho, revolvendo a orgia
de tweed e sarja, seda e lantejoulas rodopiando em turbilhões.
Buda diz para não discutir a não ser que seja necessário.
Vamos abrir as ostras,
banha-las com Martini seco,
a mesa repleta de conchas peroladas. Podemos encher
a banheira e fingir que estamos contemplando
o pôr do sol sobre a Tomales Bay. Seus seios
são lanternas cintilando sobre as águas.
Seu quadris são ainda as colinas douradas da Califórnia.
Esta manhã, abri um e-mail do Texas
que dizia que eu vou para o inferno e que você não me ama de verdade,
mas se eu me arrepender, embora escarlates sejam os meus pecados,
eles se tornarão brancos como a neve.
Meu bem, é bom saber que temos opções,
mas por enquanto vamos buscar os chihuahuas trigêmeos
e carrega-los em bolsas de couro envernizado.
Tire seu violão de baixo da cama
e cante “Rose of My Heart” outra vez.
Vou caçar na garagem os meus zills e o top bordado com moedas
e fazer a dança do ventre no corredor estreito.
Não vamos pensar em nossas crianças, a quilômetros de distância,
fazendo coisas que preferimos não saber.
Já não esculpimos estátuas suficientes?
Lembra-se da campina que arrendei pra você?
Você a queria ensolarada e cercada de árvores.
Paguei cem dólares àquela velha
para que você pudesse se deitar sob a marquise azul do céu.
Quanto mais tempo ficamos juntas, menos eu posso lhe dizer.
Mas este não foi um longo dia?
Lamenta a presidenta da Angústia Infinita
ter concorrido ao cargo. Ela imaginou
que seria como aqueles anjos musculosos
que te colocam nas banheiras de lama quente em Calistoga.
Mas macacos estão sendo empanturrados com manteiga de amendoim
para que a ciência possa provar que a gordura engorda,
e os trabalhadores que cultivam rosas no Equador
são envenenados para que possamos afirmar tal verdade com flores.
Amanhã escreveremos cartas. Vamos nos esforçar mais.
Vamos baixar o termostato e a bicicleta para trabalhar
e você agitará sacolas plásticas em uma pia de água com sabão
onde elas flutuam como as medusas com as quais são confundidas.
Mas hoje à noite, vamos trazer Bessie de volta para um bis.
Você não quer um pouco de açúcar
em sua bela tigela?
Vamos fazer um pouco de chuva, vamos inventar a pele,
dê-me suas gostosas, gloriosas e generosas coxas.
O fantasma de minha mãe está no porão lavando roupa,
oferecendo às peças úmidas aquela sacudida extra.
Ela não ficaria feliz
em nos ouvir resfolegar e relinchar?
Ela não ficaria feliz em saber que
a morte esta noite está pastando em outro lugar?
Vou polvilhar suas pálpebras com canela
e trançar essas velhas penas em seu cabelo.
A manhã nos surpreenderá dormindo no telhado,
nossos rostos inexpressivos como um novo dia, só o rouxinol
na palmeira esfarrapada do vizinho
assobiando uma melodia que soa um pouco como um raga persa,
aquela cítara vibrante, levantando o sol.