31/01/2026

OS SEIOS DA MULHER ( Lucas Munhoz )

 Morde-lhe os bicos à donzela sem dor.

Bebê-los o leite caindo em minha alvura;
Deixa-me ondear os teus seios que és pura.
Ó fome ardorosa! Que a mim do calor!

O amor, que és tão bela como o sentimento!
A nós da bondade a beijá-la a vertigem;
Decerto a ti, só queres a mulher virgem,
Lamber as duas jovens nos seios do alento.

Que é da volúpia a amá-las a castidade;
Deixo-te a amante a beijá-las a pureza,
Lambe-lhe os bicos d'água como a beleza
Que amas a donzela, que és uma vaidade.

Alça-se os teus calores do amor a amá-lo;
Sabes, a mim hás de sentir-me o perfume
Ó bela mulher! Que me adoças o lume?
Sem veste quente, que és um doce regalo.

Que és da luxúria a beijá-las os desejos;
Mordê-las os seios úmidos do alarde.
Depois a beijá-las a alcova da tarde!
Bebê-las os bicos d'água aos meus arpejos.

O CIRCO MÍSTICO ( Edu Lobo & Chico Buarque )

 Não, não sei se é um truque banal

Se um invisível cordão
Sustenta a vida real
Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final
Chove tanta flor
Que sem refletir, um ardoroso espectador
Vira colibri
Qual, não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação
Membros de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas num imenso vagão
Negro refletor, flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si
Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal

MUDEZ ( Amanda Ionara Farias de Oliveira - Amanda Simpatia )

 Desnude seus pensamentos

O corpo que me pertence

Ou eu pertenço a um corpo

Baby?

 

Qual pecado fatal te mostra meus seios?

Qual banalidade teus olhos reparam?

Caso eu tenha cometido algum mal

Baby, ouça um jazz.

Ligue o blues

E vamos viajar

No imenso azul do céu.

 

As estrelas reparam em nós

Mas nós tampouco damos valor a ela.

Que valor as estrelas têm, baby?

O universo é tão fatídico assim…

Não pode isso,

Faça aquilo.

Qual é o fim, baby?

MARCO TEMPORAL NÃO! ( Mariana Cambirimba )

 (de)marcadas estão as marcas do tempo

nas rugas dos meus pais.

do solo quente e seco

também ficaram sinais.

 

pés rachados,

como a terra violada da ka’atinga:

por bois,

por balas,

por botas.

 

hoje a gente anda no asfalto

concreto acima de nossas cabeças,

mas quando voltamos para casa

meus pais abraçam árvores,

olham para o céu

e são amigos das palmeiras.

 

toda vez que leio um livro de história

ou vejo a beleza das gravuras rupestres no Poty

eu sinto:

dói tudo, nos tiraram tanto…

 

então, vamos gritar

andar em marcha

acolher sementes

e escutar raízes.

 

queremos demarcação,

MARCO TEMPORAL NÃO!

crianças brincando no rio e no oceano,

MARCO TEMPORAL NÃO!

passarinhos voando livres

MARCO TEMPORAL NÃO!

chuvas todo ano

MARCO TEMPORAL NÃO!

tocar nossos pés no chão

MARCO TEMPORAL NÃO!

 

vocês realmente não sabem o que fazem.

perderam completamente a compostura,

esqueceram o que é ancestral:

a Terra.

TRABALHO ANCESTRAL ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 A misericórdia que me alcançou

Não foi a mesma que me espoliou

Menos ainda, a que a igreja me ensinou.

Essa, me amedrontou

Me desterritorializou

Me violentou!

Mesmo assim eu Vinguei!

Porque sou semente.

A Wayra me polinizou,

Em terra arada pela força da tempestade,

aquecida pelos raios do grande Kûaracy,

E do útero da majestosa Tupãna Kunhã, brotei.

Entre raízes, cresci

Delas, muito alimento recebi e me fortaleci.

Essa confluência de forças me fizeram Território.

O mesmo que clama desde os confins da Terra, por justiça!

Se você deseja curiosamente sentir o sabor que tem

O fruto do Trabalho Coletivo Ancestral,

Plante

Regue

Colha

e tenha coragem para comer!

E tu verás,

O quão trabalhoso é deixá-lo assim…

Naturalmente suculento e desejável

Ao ponto de dar vida e morte,  até a quem não mereça!

CUIEIRA ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 Nossa mãe

Poder gerador da vida

Útero divino

Minha mãe

Majestosa Mãe Terra

Que nos ensina sobre aparências…

Muitas vezes enganosas

De fel ,vira mel

Curandeira sagrada….

O que não tem serventia, faz ter

Do enfeite traz a cura

Do miolo traz o sumo

E o sumo que é fel

Sem água

vira mel

Mel que cura.

Miolo misterioso

O fogo transforma

De branco amargoso

Em preto saboroso.

Manchas não pode ter

A cura não tem máculas

Três Luas é o tempo

Que precisa

O útero da filha

Para a mãe curar…

Louvado seja, Metindjwynh!

Mejkumrex minha  Mãe Terra!

A VISÃO ( Panhonka. Aline Ngrenhtabare Lopes Kayapó )

 Para onde iremos depois da nuvem cinza

Nós sabemos bem…

Para onde iremos depois de todo sangue derramado

Nós sabemos bem…

Para onde iremos com nossos corpos violados

Nossos pés, patas, peles, penas, couros e cascos em chamas

Nós sabemos bem

Para onde iremos sem as árvores rios e animais

Nós sabemos bem…

E tu?

Para onde irás quando te faltares o essencial que tu mesmo destruístes?

Tu não sabes?

Nós sabemos bem, e isso nos apavora!

ÁRVORE NUA ( Anne Morrow Lindbergh ) in O Unicórnio e Outros Poemas

 Despiram-me das folhas de minha juventude,

levadas pelo vento do tempo, deixando-me
como aos galhos no inverno. Permaneço,
ereta e solitária, a testemunhar outras vidas,
emoldurando outro brilho,
harpa a tocar uma paixão que não é minha.

Minha ramagem, um leque aberto
ao céu, novamente trará
os mistérios desfolhados que tanto amei,
com raízes e ramos igualmente nus,
os galhos que sorvem a chuva ou balançam ao sol
são os mesmos; a sombra e a essência são uma.
Agora que já perdi as folhas tão frágeis,
não há nada mais a cobrir, nada mais a ocultar.

Vida, sopra por mim agora, finalmente despida,
pois me tornei tão frágil e tão destemida!

OLHANDO O MAR, SONHO SEM TER DE QUÊ ( Fernando Pessoa )

 Olhando o mar, sonho sem ter de quê.

Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.

Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

De que me servem a verdade e a fé?

 

Ver claro! Quantos, que fatais erramos,

Em ruas ou em estradas ou sob ramos,

Temos esta certeza e sempre e em tudo

Sonhamos e sonhamos e sonhamos.

 

As árvores longínquas da floresta

Parecem, por longínquas, estar em festa.

Quanto acontece porque se não vê!

Mas do que há ou não há o mesmo resta.

 

Se tive amores? Já não sei se os tive.

Quem ontem fui já hoje em mim não vive.

Bebe, que tudo é líquido e embriaga,

E a vida morre enquanto o ser revive.

 

Colhes rosas? Que colhes, se hão-de ser

Motivos coloridos de morrer?

Mas colhe rosas. Porque não colhê-las

Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

MULHER CORRENTEZA ( Lidiane Adjú Kariú )

 Tu és água da fonte

É Segredo contido

É água de rios fundos.

 

Tu és água corrente

É a pedra do caminho

É a cantoria de teu encanto

É o encontro de tudo.

 

Tu és a correnteza da água

É o ventre fecundo

É a sacies do mundo.

 

Tu és a corredeira do rio

É o movimento da vida

É o desejo profundo.

 

Tu és água de remanso

É braço de descanso,

É o canto.

30/01/2026

PRESA NÃO SOU RIO ( Lidiane Adjú Kariú )

 Não me queiram água mansa,

Porque água mansa não sou.

Eu sou correnteza,

E na correnteza eu vou.

Quebrando pedra,

Quebrando represa,

Quebrando tudo que me mantem presa.

Presa não sou rio,

Presa não sou.

 

Não me queiram espírito brando

Porque domesticada não sou.

Eu sou feita de selva

E a selva me ensinou.

A cantar o canto

A quebrar quebranto

A quebrar o encanto

Que me mantem presa.

Presa não sou tua,

Presa não sou.

MESTRA DO AMOR ( Vânia de Oliveira Freitas (Prema Shakti))

 Gratidão a Ti Oh doce Mãe

Numa concentração intensa

Suas cores brilham e se revelam

Teus poderes se manifestam

Para nós perceptíveis ficam

Cada vez mais nos direcionamos para Ti

E a vida começa a sorrir

Unidos a Ti

Sem hesitar

Tua vontade cumprir

Agir!

PARÁ É TERRA INDÍGENA! (Danielle Souza (Iacy Anambé))

 Da cidade das mangueiras

Maíri Tupinambá levanta

Banhada de rios misteriosos

Do povo Parawara

 

Pará é terra indígena, meu mano!

Não sabias?

Pois chegue que vou lhe contar!

 

Aqui ilhas de memórias

Levantam Acaizais

Imponentes samaumeiras

Viram o tempo de milhares de povos que plantaram esse chão!

 

Cabelos de jenipapo, olhos de urucum,

pintados de diversidades,

cocares dos tuxaus são cedidos gentilmente pelo povo do céu

Tecido por mãos Matriarcais

 

Da mandioca, alimento da terra!

Many ensinou como tirar sem matar

Beber sem secar

Viver em harmonia com todos os seres.

 

Do céu Jacy ensinou suas filhas a plantar as raízes dos Kunamis no ritmo da batida do coração da natureza.

 

Do fundo, oyaras guardam as memórias dos clãs das águas e as gigantes sucuris devoradoras de mundos.

 

Tapi Ir’rape

Conta as histórias para os anciões que preservam memórias, cantos, línguas e constelações.

 

Somos muitos povos, muitas nações, somos, guerreiros, somos guardiões desta terra paraowara, tapajowara, marajoara, karajawoara...

 

Somos!

Anambé, Gavião, tembé, munduruku, Tupinambá, sacaca, Kayapó, amanaye, turiwara, assurini, borari, arara, xipaya...

 

O meu país Pará é terra indígena é terra de gente forte

Do norte, da Amazônia!

REVOLTOSAS ( Danielle Souza ( Iacy Anambé ))

 Entre terras e águas, o corpo emerge,

Mulher ancestral, que a memória protege.

Símbolo de poder, cravado no chão,

Onde rios esculpem sua canção.

 

Guarda segredos, medicinas da mata,

Fala a língua que o vento desata.

Do fundo dos rios, dos céus a chorar,

Seu corpo é história a se revelar.

 

Na arqueologia, fragmentos despontam,

Mãos hábeis, no barro, lembranças contam.

Cerâmicas vivas, matriarcal oração,

Do sagrado e do simples, a narração.

 

Pegadas no solo, digitais da história,

Renasce no tambor a força da memória.

Pinceladas vibram no espírito forte,

O corpo pulsa, ecoa no norte.

 

Revoltosas, não apenas beleza,

Mas chama que arde em luta e nobreza.

Social e cultural, é força que inspira,

Poder vivo que a história admira.

SÓ TE QUERIA ATÉ ONDE ME ACHAVA( Izabela Souza )

 Me recusei de você

Só te queria em parte
Me recusei de você

Não sabia me abrir

Não sabia te sentir
Perdi-me dos teus olhos
E não nos encontrei mais
Por medo de não ser óbvio
O óbvio que me sinto segura
Agora o meu sorriso é triste
Pedir-te e estou triste
Triste pela recusa, tão odiosa
Para mim e para ti
E você sorri e não é mais para mim
Está algo justo
Teus olhos eu não encontro mais
E o óbvio agora é vazio
E cadê a segurança?

BRUXA ( Izabela Souza )

 Mulher livre

Liberdade feminina

Solto a bruxa que sou

Sou poeta e tô cantando Cássia Eller,

Me adorando ao som de Pitty,

Exalando poder.

Somos deusas, Rita Lee.

O suor na pele é a prova da dança que danço.

Liberdade.

Bruxa,bruxa, a palavra dança na minha mente.

Apenas uma mulher liberta.

Sou grande demais para estar presa.

Música alimenta o meu ser.

O volume está alto.

Preenchendo cada vibração da minha alma.

Inspirada ao escrever.

Liberdade.

Euforia.

Te entendo, Natasha.

Bebo a água gelada. Escorrendo pelo canto da boca.

Água é alivio.

Meu cabelo é arte.

Quem não entende que se foda.

Que não me entende que se ame mais.

Amor.

Olhos vermelhos me faz chegar ao clímax.

Alguns momentos atrás tocava Geração Coca Cola, sou  aquela revolução passada.

E me lembro daquele poema que fiz outro dia.

Sou intensa, em todos os sentidos.

Intensidade, amém.

8/80.

Santa trindade, amo-lhes.

A sensação de se encontrar é transcendental.

No atual exato momento, tô me encontrando aqui, sozinha, escutando música boa, cantando música boa, dançando e escrevendo, me sinto preenchida.

Imagine-me.

Imagine-me bruxa.

Faroeste caboclo.

Não peço por nenhuma permanência, só a minha.

Não cobro ninguém.

Mas faço a minha parte.

Me afogo em tudo que vale, o final vale o início.