26/01/2026

A MULHER ÍMPAR ( Paola Valverde Alier ) tradução de Floriano Martins

 Porque sou uma mulher ímpar

calço o número
das fechaduras proibidas
desato meu cabelo em plena chuva
e odeio açúcar no café

Eu me maquilo a sós para dançar comigo
detenho as horas e os caminhos
canto o silêncio das concubinas
sou seu prazer

reconheço a nudez nas palavras
gozo com elas
me prostro diante delas
com a ansiedade das cadeiras vazias
nas esquinas

Sou ímpar quando amanheço
ou choro
a ordem seria distinta
se eu não soubesse ignorar as regras

Por isto revivo a memória dos afundados
sou esse barco
não exijo salvação
muito menos naufrágios

Prefiro a água quente
para culminar com frio
e então sentir tudo
na curta eternidade dos peixes
que andam de um lado a outro
como se a primeira
viajassem pela última vez