26/01/2026

A NOITE ( Esther de Cáceres ) tradução de Floriano Martins

 I.

Um alto mar de sombras já invadiu todo o Ar,
e no grande sonho escuro
reluzem, solitários,
os vastos ébanos com que o Amor esculpe
cofres insones de pianos secretos.

Sob a noite
Busco antigas estátuas.
Exploro o denso bosque onde a Memória pousa
sua estranha mão de cautela e chama.
Minhas gazelas desconhecidas já estão dormindo
ou são as folhagens lentas?
É um cabelo perdido entre os trevos
na vasta morada das fragrâncias do Ar?

Sou eu, sou eu mesma
perdida entre as árvores,
sozinha entre árvores escuras!

Sou eu, sou eu mesma
em cristal apagado
e esmaltes adormecidos!

Deixo o bosque secreto, saio do jardim sem cisnes;
Eu atravesso as paredes invisíveis do Ar,
e eu já estou no campo
da grande noite solitária!
– Algumas das minhas mortes ainda choram por mim!

II.

As Solidões chegam e as contemplamos juntas:
Já não há mais que a Noite
Uma grande flor de sombra
quieta sob o orvalho!
A Noite e eu – seu pranto! –
Até que desperte
a flor escura. As lâmpadas já estão sendo trocadas!
Um ar de gazelas
está prestes a me acordar!
Os mares do Dia cantam!