17/01/2026

PREFIRO O VENTRE DA ESCURIDÃO ( Jorge Mautner )

Perfuro o ventre da escuridão

onde as coisas se escondem

porque estão cheias de sim e de não e de confusão

e quando pergunto sobre qualquer assunto nunca

         respondem

São como coisas presas ao labirinto

com algemas nos pulsos e tudo

são cinco pras cinco e eu já me sinto

dentro do seu não e de um caixão de veludo

 

Toca teu samba, toca

e tortura meu ser com prazer de ser

a tortura como aquela coisa que nos choca

onde a alegria me enganava se dizendo a alegria de não ter

 

Não ter o quê?

Ora, tá na cara

não ter é não ter você                

seja com grilo ou seja odara

 

Luas de prata conseguem

fazer com que lentamente

as sensações das emoções naveguem

e invadam como as fadas minha mente

 

Doem-me todas as cicatrizes

e sinto as rugas das verrugas

Sei que és como atores e atrizes

e que sempre atacas quem te quer por em fugas

 

Tocas então mil serenatas

e antigas cantigas e rondós

depois mijas no chão como os cães vira-latas

e ficas falando de ti quando estamos a sós

 

É por isso que sinto todos estes e aquelas

dores incolores e na garganta estes nós

Nem as cores de óleos, hologramas ou aquarelas

poderiam expressar tão bem estes meus ós, ós, ós!