26/01/2026

DEPOIS DO AMOR ( Mía Gallegos ) tradução de Floriano Martins

Depois do amor,

depois do amor posto sobre o amor,
como altivos vulcões que se queimaram,
como fluxo de lava,
como astros que sucumbiram,
resto em mim,
no centro de minha pele e em meu vestido,
e aprecio a luz
de um amanhecer que rompe calmo,
aberto, perfeito,
como a curva de um anjo quando passa,
quando atravessa.
Eu te esqueci, digo
e minto, minto a mim mesma,
já não creio nas palavras ou nas roupas.

E brota então
uma ácida ternura
que saboreio com a língua cansada,
ferida,
com uma língua que ausculta,
que devora a sós
o esquecimento, a acidez, a lembrança
de uma noite lunar,
de abraça-me muito e não te vás nunca,
de raras geometrias,
onde teu corpo era brioso e longo
como um estreito caminho que não consegui cruzar.

O amor passou, digo a mim mesma
e agora não minto.
Saboreio minha ácida ternura
e descreio das palavras,
e assim permaneço: cética e calada,
para o caso de algum dia os verbos
nascerem em mim como frutas,
para o caso de subitamente nascerem
como astros as palavras,
e a metade de meu rosto se vire em busca de ar,
ou volte o rosto a ser intacto e fale,
e eu fale.
Agora nada mais eu sou
com minha ácida ternura e minha garganta
e todas as minhas lembranças.

Porém o amor se foi.
Foi como a noite se vai.
Eu te recordo.
E isto me parece que para esta vida
já é bastante.