Deus — talvez esteja aqui, neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,de ti, em mim ficou. Está nos teuslábios, na tua voz, nos teus olhos,e talvez ande por entre os teus cabelos,ou nesses fios abstractos que desfolho,com os dedos da memória, quando osevoco.Existe: é o que sei quandome lembro de ti. Uma relação pode duraro que se quiser; será, no entanto, essaimpressão divina que faz a sua permanência? Ouimpõe-se devagar, como as coisas a que otempo nos habitua, sem se dar por isso, coma pressão subtil da vida?Um deus não precisa do tempo paraexistir: nós, sim. E o tempo corre por entreestas ausências, mete-se no próprioinstante em que estamos juntos, fogepor entre as palavras que trocamos, eue tu, para que um e outro as levemosconnosco, e com elas o que somos,a ânsia efémera dos corpos, omais fundo desejo das almas.Aqui, um deus não vive sozinho,quando o amor nos junta. Desce dos confinsda eternidade, abandona o mais remoto dosinfinitos, e senta-se aos pés da cama, comoum cão, ouvindo a música da noite. Umdeus só existe enquanto o dia não chega; porisso adiamos a madrugada, para que nãonos abandone, como se um deusnão pudesse existir para lá do amor, ou
