23/01/2026

Por Wanda Monteiro; in A Liturgia do Tempo e Outros Silêncios, 2019, Editora Patuá.

 há quem diga do corpo – de sua concretude

mas o que há é liquidez
mais de mil partículas – mil núcleos – mil esferas
fluindo nesse rio andante
na disputa e na defensa
pelas mesmas artérias – mesmos veios
numa permanente luta de vida e morte

há uma força que lhes une e desune
lhes funde e aparta

o rio esse denso corpo que mergulha em si
pesado demais para chover
precipitar-se no ar

o corpo esse rio de sal e sangue
lento de correr que mal sossega – mal respira
ilhado de vento e vazio

há quem diga do corpo
de sua agudeza em mirar
mas o que há é miragem
centrífuga ilusão de ser
a refluir no verbo

o corpo é esse rio
cuja nascente e foz
disputam a força
o espaço
o tempo e as profundidades
no centro de um coração