Quando meu corpo e minha cabeça
começaram a arder e a provocar incêndios,
minha mãe, como bombeiro enlouquecido,
me perseguia por toda a casa.
Apontava contra mim, implacável
o poderoso jorro de seu medo
e tratava de me enterrar.
Assim cresci.
Meu pai era diferente.
Defendia diante de mim, por igual, e com igual veemência e convicção
as vantagens do gelo e do fogo.
Quando meus incêndios chegavam
a seu máximo ponto de fusão
se afastava, discreto.
Se fracassavam,
me sugeria novos lugares.
Me dava pistas sobre alguns incêndios que ele havia provocado.
Me falava das maravilhas da sombra
ou me trazia fósforos.
Se estava longe, mandava longas cartas,
celebrando a vida, a palavra,
nossa comum piromania.
E sempre acrescentava esse p.s.:
“Anabel, o dólar é estritamente para sorvetes ou fósforos”.
Quando meu pai temia por minha segurança
– e sem dúvida temia, pois conhecia não só meu amor pelo fogo
mas minha propensão às queimaduras –
o fazia sozinho, em sua casa.
Minha mãe, criada em San Benito, residente
do purgatório
bela
como um cesto de tangerinas
quando não era seu dia de turno,
com seu sorriso de cerejeiras e pássaro em seus dias livres,
ao morrer me amou por sobre todas as coisas:
não permitiu que eu herdasse sua mangueira.
Devolveu-a à sua família,
à casa de onde veio intacta.
Meu pai, ao morrer, há três anos, continuou morrendo.
Logrou tão dificilmente morrer, que inclusive
desde então
já saiu ileso de alguns atentados.
Amava tanto a vida. Era tão vigoroso
frente ao frio.
Era tão rico em incêndios.
