Há algo que, muito além
de tua força,
me fascina.
Caminho sobre teus peitos de pedra.
És da cor de polvo e lagartixa.
Envolvo-me em tua língua de mistério.
Tal é a tua forma de estar
próximo do sol.
Estranhas marés matinais te acodem,
onde tudo escurece e se bifurca,
Astérion meu, único.
Quem és?
Touro ou homem?
O ausente derramado
entre infinitos lacres.
Eras o pé, o próprio ar
da primeira manhã
em que os homens lavraram
teu corpo de ausências.
Estou tão longe de tua pele.
Mas que recanto há em ti
onde eu possa dormir
e ser tua pálpebra
e a forma mais funda do silêncio?
És homem ou besta?
És um homem,
um rouxinol,
ou talvez um pirralho
entre lençóis de açúcar.
Astérion meu, único, de mil olhos de agulhas.
Tuas mãos são múltiplos do sol.
Ontem cacei uma borboleta
e era catorze vezes harpa e movimento.
um e um não são dois,
são o universo e o nada.
as portas de todo fim
e do infinito.
Eu me adentro em ti.
Através de teu corpo
ainda permanecem os redutos do sol.
És oculto e quente.
Eu me enredo no corredor
de tua língua de vidro.
Ascendo até as tuas mãos.
És um espelho
de outro que antes foste.
E eu tenho medo de me perder em ti,
no fio
que são todas as portas
e a escuridão.
Astérion meu, tão alto e pagão.
Eu me adentro em teu corpo empedrado, altivo
– não tenho escapatória –
Mal suporto teu clima de asfixia.
Porém és uma almofada dulcíssima,
Astérion meu, Astérion.