01/02/2026

FÉ (Flora Figueiredo) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Sob a abóboda, uma tonalidade âmbar, 

que entra quieta pelos vitrais. 
Um leve aroma de incenso, 
que os dias de hoje já nem usam mais. 
De joelhos, os fiéis contritos; 
em pé, os devotos aflitos; 
sentados, os mais conformados. 
Um grupo discreto murmura confiante 
uma novena: 
a esperança é grande, 
a sorte é pequena, 
só Deus que dá jeito. 
Ave Maria, cabeça baixa, mão no peito, 
talvez um dia. 
A viúva recente, a moça carente, 
o desempregado; 
a mãe alarmada, a sogra injuriada, 
o velho doente; 
uma adolescente que quer namorado. 
No início da esquerda, a imagem parece 
sensibilizada. 
Também, tanta prece. 
Olhos comovidos, gestos suplicante, 
aos pés uma rosa e a serpente pisada. 
Lá na frente, um cristo sofrido pede penitência, 
que o pecado é insistente, 
o corpo é atrevido 
e a gente escorrega por inconsequência. 
Depois do conforto, 
o frasco de água - benta na porta da saída. 

Se houver recaída, só fé que sustenta.