01/02/2026

RETROSPECTIVA ( Flora Figueiredo ) in "Chão de Vento". São Paulo: Geração Editorial, 2006.

 Porque a vida é feita de proibições, 

eu não compus todas as canções, 
não percebi a brisa suspirar, 
eu esqueci cantigas de ninar, 
dei chances demais à voz dos credos, 
não rompi de vez todos os medos, 
roubei do tempo um tanto de carinho, 
não vi a flor amar o passarinho, 
perdi o trem na curva da vertente 
e não deixei o mel melar completamente. 

Porque a vida é feita de proibições, 
larguei o fio, soltaram-se os balões, 
deixei que o pião revirasse sozinho, 
mandei que o zangão se zangasse baixinho, 
desprezei a bruma que baixou o véu, 
permiti à palavra dormir no papel, 
evitei o desvio que atravessa a estrada, 

Não quis o desafio da ronda embriagada, 
não li o poema do poeta maldito 
e não tive o dilema do beijo infinito. 

Porque ainda há tempo para o encantamento, 
quebre-se o vidro do sermão absoluto, 
rompa-se a teia, reveja-se o estatuto, 

que a primavera quer amar o chão de vento.