25/03/2026

TARDIO ( Mia Couto )

  Quando quis ser fruto

fui fome,
não mais do que areia
de um chão sem cio.

Quando sonhei ser pano
fui agulha.
E morri no sono do gesto
de enrolar o fio.

Quando aprendi a ser poente
já não havia céu.

Quando quis anoitecer
tudo era luz.

E assim me condeno
em livre vício:

No mais derradeiro
eu só vislumbro um início.