14/04/2026

TAPUIA ( Raul Bopp apud Mário da Silva Brito ) in Poesia do Modernismo, 1968.

 

As florestas ergueram braços peludos para esconder-te

com ciúmes do sol.

E a tua carne triste se desabotoa nos seios,

recém-chegados do fundo das selvas.

Pararam no teu olhar as noites da Amazônia, mornas e imensas.

No teu corpo longo

ficou dormindo a sombra das cinco estrelas do Cruzeiro.

O mato acorda no teu sangue

sonhos de tribos desaparecidas

– filha de raças anônimas

que se misturaram em grandes adultérios!

E erras sem rumo assim, pelas beiras do rio,

que teus antepassados te deixaram de herança.

O vento desarruma os teus cabelos soltos

e modela um vestido na intimidade do teu corpo exato.

À noite o rio te chama

e então te entregas à água preguiçosamente,

como uma flor selvagem

ante a curiosidade das estrelas.