14/04/2026

Por Priscila Faria; in Nesse Corpo de Água Doce

 eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos

que veja a beleza desfocada

quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia

que abrace a menina, penetre a mulher

quero a palavra perfurante

na garganta

a palavra que treme e vibra e contrai

a palavra da água da morte do medo do fim

eu quero a palavra engasgada

sem fôlego, sem batimentos, sem culpa

quero a palavra mapa, procura e dedos

a palavra sem ida e sem volta

que se contradiga

a palavra descrente da verdade do agora

eu quero uma palavra que é tudo

e que não sabe de nada

quero a palavra que reinvente a vida

materialidade fina e transcendente

do meu gozo, num único verbete

uma fogueira, um altar, a porta

do céu ou do inferno

eu quero a palavra muda

a palavra que desnude a poesia

eu quero o milagre do verso

porque meu sexo não sabe ser escrito