eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos
que veja a beleza desfocada
quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia
que abrace a menina, penetre a mulher
quero a palavra perfurante
na garganta
a palavra que treme e vibra e contrai
a palavra da água da morte do medo do fim
eu quero a palavra engasgada
sem fôlego, sem batimentos, sem culpa
quero a palavra mapa, procura e dedos
a palavra sem ida e sem volta
que se contradiga
a palavra descrente da verdade do agora
eu quero uma palavra que é tudo
e que não sabe de nada
quero a palavra que reinvente a vida
materialidade fina e transcendente
do meu gozo, num único verbete
uma fogueira, um altar, a porta
do céu ou do inferno
eu quero a palavra muda
a palavra que desnude a poesia
eu quero o milagre do verso
porque meu sexo não sabe ser escrito
