Viviam plantas, viviam troncos, viviam sapos
vivia a escada, vivia a mesa, a voz dos pratos
um untueiro em tamanho maior que tudo
fruteiras em permanente parto de gordos frutos
palpáveis, acessíveis, incansáveis limoeiros
makêkês, beringelas, pega-latos
verdes kimis, ali dormiam longos swá-swás
e ido-ido era a montanha cheia de espinhos
onde os morcegos iam cair no kapwelé.
O micondó era a força parada e recuada
escutava segredos, era soturno, era a fronteira
e tinha frutos que baloiçavam, baloiçavam
nunca paravam de baloiçar.
Não havia horas, ninguém tinha pressa
senão minha mãe
E eu amava na doce vénia dos canaviais
o restolhar de verdes folhas e ondas mansas.
As viuvinhas e pirikitos e keblankanás
- que eu rastejava para agarrar -
erguiam então um alarido de asas e chilreios.
E o mundo voava, o mundo era alto, o mundo era alado.
As borboletas que nada faziam, que só passeavam
tinham guache nas asas, tinham asas, eram lassas
e nada faziam, nada faziam, só passeavam.
Quando eu fugia com as borboletas
Quando eu voava com as viuvinhas
e me perdia nos canaviais
minha mãe, a voz, descia as escadas
aberta como uma rede.