09/06/2026

APELO ( Carlos Drummond de Andrade )

Meu honrado marechal

dirigente da nação,

venho fazer-lhe um apelo:

não prenda Nara Leão.

 

Soube que a Guerra, por conta,

lhe quer dar uma lição.

Vai enquadrá-la — esta é forte —

no artigo tal… não sei não.

 

A menina disse coisas

de causar estremeção?

Pois a voz de uma garota

abala a Revolução?

 

Narinha quis separar

o civil do capitão?

Em nossa ordem social

lançar desagregação?

 

Será que ela tem na fala

mais do que charme, canhão?

Ou pensam que, pelo nome,

em vez de Nara, é leão?

 

Se o general Costa e Silva,

já nosso meio - chefão,

tem pinta de boa-praça,

por que tal irritação?

 

Ou foi alguém que, do contra,

quis criar amolação

a Seu Artur, inventando

este caso sem razão?

 

Que disse a mocinha, enfim,

de inspirado pelo Cão?

Que é pela paz e amor

e contra a destruição?

 

Deu seu palpite em política,

favorável à eleição

de um bom paisano — isso é crime,

acaso, de alta traição?

 

E, depois, se não há preso

político, na ocasião,

por que fazer da menina

uma única exceção?

 

Ah, marechal, compre um disco

de Nara, tão doce, tão

meigamente brasileira

e remeta ao escalão

 

que, no Palácio da Guerra,

estuda, de lei na mão,

o que diz uma cantora

dentro da (?) Constituição.

 

Ao ouvir o que ela canta

e penetra o coração,

o que é música de embalo

em meio a tanta aflição,

 

o gabinete zangado,

que fez um tarantantão

denunciando Narinha,

mudava de opinião.

 

De música precisamos,

para pegar no rojão,

para viver e sorrir,

que não está mole, não.

 

Nara é pássaro, sabia?

E nem adianta prisão

para a voz que, pelos ares,

espalha sua canção.

 

Meu ilustre marechal

dirigente da nação,

não deixe, nem de brinquedo,

que prendam Nara Leão.