18/09/2026

EU E MAIS NADA ( Mika Andrade )

sua presença é sempre devorada pela noite
você apenas surge imponente
com o nascer do sol
eu fico as madrugadas vacilantes
entre frio, solidão e lágrimas cortantes
enrodilhada em mim mesma

sua falta cava um buraco no espaço
eu me enfio dentro dele
e no escuro desse abismo
passo a conviver mais comigo

sua ausência crescente
vai se tornando imensidão
e mudando em mim
o conceito de solidão

quando o sol nasce
nem mais percebo
as cortinas
elas ficam fechadas
e comigo
estão apenas eu, eu mesma
e mais nada


HOJE & SEMPRE ( Mika Andrade )

seu olhar de encontro ao meu
nunca será como fogo alaranjado

talvez a necessidade do seu toque
antecipe o corte

algumas vezes eu tive a sensação terrível
de estar me violentando
para suprir os seus desejos

aquelas flores
que agora estão murchas
ainda espalham o aroma da morte

hoje e sempre

GUARÂNIA DA LUA NOVA ( Luiz Vieira )

Ouvi dizer que o tempo apaga
Lembranças amargas
Que a vida nos traz
Há muito que estou esperando
O tempo passando
E não encontro paz.
Será que o tempo não tem tempo
De olhar meus olhos tristes de chorar
E as cicatrizes do desgosto
Que trago em meu rosto
De tanto esperar


Saudade,
Bichinha danada
Que em mim fez morada
E não quer se mudar,
Tem gosto de jiló verdinho
Plantado na lua nova do penar
O tempo vai passando
E eu vejo o desejo
Da reconciliação
Meu medo é não saber se ela
Traz no peito a lua nova
Do perdão

MEMÓRIA FOTOGRÁFICA ( Mika Andrade )

A partir de agora
Seus olhos caramelos
Me perseguiram até o fim
Assim como você persegue
Quem caminha ou anda de bike
Teu latido repercutirá
em infinitos ecos
Em uma memória que se fará
Inesgotável pra te tornar
Inesquecível


X ( Florbela Espanca ) in Charneca Em Flor, 1931

Eu queria mais altas as estrelas,
Mais largo o espaço, o sol mais criador,
Mais refulgente a lua, o mar maior,
Mais cavadas as ondas e mais belas;

Mais amplas, mais rasgadas as janelas
Das almas, mais rosais a abrir em flor,
Mais montanhas, mais asas de condor,
Mais sangue sobre a cruz das caravelas!

E abrir os braços e viver a vida,
– Quanto mais funda e lúgubre a descida
Mais alta é a ladeira que não cansa!

E, acabada a tarefa em paz, contente,
Um dia adormecer, serenamente,
Como dorme no berço uma criança!

Por Marina Rabelo, in Stela e Outros Poemas de Amor. Offset Editora, Natal, 2021

 cheguei à conclusão de que não há vinho

que me faça esquecer você,
pois todas as uvas têm o seu nome.

sinto-as redondas e aflitas
na ponta da minha língua.

NÃO LIMPE OS PÉS ANTES DE ENTRAR ( Marina Rabelo ) in Stela e Outros Poemas de Amor. Offset Editora, Natal, 2021

 Entre com a lama, a grama, a poeira

e a areia do mar.

Entre com o barulho das ruas, do samba
e dos versos do poeta de mesa de bar.

Entre com o cheiro do asfalto, do ônibus lotado
e do pastel de carne com suco de maracujá.

A porta está aberta,
pode entrar: eu quero minha alma suja
e feliz.

IV ( Maria Judite De Carvalho ) in A Flor Que Havia Na Água Parada - poemas, Europa América, 1998

Eu dantes tinha olhos verdes
Só agora reparei
Verdes, viam tudo verde
por que eram verdes, não sei.
Sorriam àquela flor
Que havia na água parada
Verde flor, na verde água
da vida transfigurada.
Hoje olham e reconhecem
que há muito mais cores para ver.
Cor de flor, que logo esquecem
Cor de charco a apodrecer.

17/09/2026

CANSADA DE SER MULHER ( Madalena Palma )

Estou cansada de ser mulher
Esgotada de ser aquela que os homens procuram
Para viver momentos de prazer
Estou cansada de ser carne e gozo
Fatigada de ser um ser vazio e sem alma
De ser fonte de desejo e de não beijar
Estou farta de mandar embora da minha vida
Quem nunca deixei verdadeiramente entrar
Estou sem sangue frio nas veias
Para implacavelmente continuar a ser mulher

EM MIM ( Madalena Palma )

No meu corpo vivem
Todas as formas das tuas mãos
Quando em movimentos lentos
Retomo cada gesto que me encheu
E cada lugar nunca antes habitado
Por ter sido a ti que entreguei uma pele sem véu

ANGÚSTIA ( Virgínia Do Carmo )

Ensaiamos os dias em trapézios
instáveis. Na superfície movediça
de construções humanas em suspensão.
Segurando na fragilidade do equilíbrio
o prumo da justiça.

Sempre que caímos, por mais que tentemos
evitar a vertigem da ordem, todos os factos
se perdem na dispersão dos elementos.

PESO ( Virgínia Do Carmo )

Tão cheias as mãos de pedras
e de lama, de ruas sem saída,
de linhas que não são nem casas,
nem caminhos, nem janela,
nem telhado, nem paredes.

Tão cheias as mãos de destinos
confusos que não se perdoam, que
se magoam nos declives imperfeitos
dos corações sem margens. Tão cheias
as mãos de pedras e de lama. De asas
sem corpo onde fechar a dor.

E o peso. O peso dessa angústia
sem braços.
O peso.

PALAVRAS GRAVES ( Virgínia Do Carmo )

Tão difícil colocar a voz no chão e andar.
Descer às sílabas simples das coisas, à plana
brancura dos significados claros. Crescem as
razões do peito que não quer ser casa, crescem
loucas, inventadas à pressa na pressa
da fala: tecto danificado, paredes frágeis,
buracos no soalho. Palavras, nada
mais. Palavras graves e provas inúteis.
Um dicionário de obstáculos a cobrir-se
de pó na parte mais funda da vida.

TORTURA ( Virgínia Do Carmo )

São de vidro as pétalas que me rebentam
na boca. Não há grito ou palavra que não
se rasgue quando o mundo me chega aos lábios.
Até o silêncio sangra quando o pensamento
me atravessa a língua para chegar ao coração.

Um dia o meu íntimo será feito apenas
de poemas esgaçados.

LUTO ( Virgínia Do Carmo )

Que farei agora com as dores tépidas
que me consomem os ossos do entendimento?

Que farei com tantos gritos atirados
ao esquecimento agora que a garganta é
um crivo deformado e a voz uma depressão
incómoda na sequência dos significados?

As esperas inacabadas, os equívocos das mãos
abertas para nada, que farei eu com elas?

Porque não escrevi todos os poemas quando
o mundo era ainda um lugar belo e perfeito,
quando o meu coração era ainda inteiro
e virgem, quando tinha ainda os olhos limpos
de tanto mal?

Que farei agora com as cinzas do meu peito?
Onde vou eu sepultar as alegrias mortas?

NÃO HÁ LUGARES SEGUROS ( Virgínia Do Carmo )

 Não estamos a salvo, ainda.

Nem dos desfazeres do mundo,
nem dos atrasos da paciência.
Não há lugares seguros onde guardar
equívocos. Nem âncoras que bastem
ao arrasto da solidão.

Não estamos ainda em terra. Não há
farol nem costa. E somos frágeis demais
para tanto mar. Para tanto abismo.
Para tanto.

Não estamos a salvo, ainda.
Nem das coisas inevitáveis.
Nem das coisas sérias e óbvias.

Não há lugares seguros neste mundo.

QUASE NADA ( Virgínia Do Carmo ) in A Menina Que Aprendeu A Matar Centopeias E Outros Poemas; Poética, 2023

É tanta a rouquidão das aves
nesta áspera noite. Tão sinuoso
o céu, tão amargo o roçar
das asas no choro do vento.
Queimei toda a água
dos meus olhos à força
de te chamar. Perdi a voz
e quase todas as penas.
Voo cega e sem norte.
Tenho frio e desconheço
se me procuras ou se me esperas.
Voo triste. Exausta.
Quase morta. Tão fria.
A crescer para ser
pedra. Quase queda.
Quase nada.

Por Célia Moura

Deixa-me brincar contigo
sussurrar-te palavras ao ouvido
mordiscar-te levemente as orelhas
emaranhando meus dedos em teus cabelos de menino
enroscando-me em teu colo
como uma criança feliz.
Apeteces-me tanto!
Deixa-me levar-te
aos meus locais de exílio,
tu que sempre julgaste conhecer-me de lés a lés
e jamais ultrapassaste meu óbvio sorriso.
Apeteces-me tanto neste momento
que chegas a doer-me!
Por não estares em mim,
pois se estivesses
nada mais serias que o efémero momento
onde deslizo ânsias,
onde desesperadamente existo,
instantes!
Apenas fluis em mim como um rio.
Meu sangue nas artérias, irrequieto
esta perda de mim
dentro de mim,
angústia sufocada de tantos gritos
rasgando meu peito
ultrajando nossos corpos
no âmago cristalino da saudade
e este peregrinar absurdo entre as gentes.

10/09/2026

MURMÚRIOS DO MAR ( José Tolentino Mendonça ), in A Noite Abre Meus Olhos; Assírio & Alvim, 4ª ed., 2021

Paga-me um café e conto-te a minha vida
O inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem
Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudade desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois
Pago-te um café se me contares
o teu amor

09/09/2026

Por Margarida Antunes

 Fala-me do tempo como se não fosse em ti

que todos os dias nascem.
Como se as estações se sucedessem
e não fosse sempre Verão na tua boca.
Como se não crescessem frutos nos teus dedos
e eu não sentisse neles o doce dos dias.
Falam-me do tempo como se nos teus braços
as horas não fossem mais pequenas
e os dias se tecessem mais devagar.
Como se o amor não obedecesse ao vento da vida
E pudesses ficar — para sempre —
a encher o mundo de presentes,
eternos como a natureza.