15/12/2016

AMAR TEUS OLHOS(
Carlos Melo Santos)

Podia com teus olhos 
escrever a palavra mar. 
Podia com teus olhos 
escrever a palavra amar 
não fossem amor já teus olhos. 

Podia em teus olhos navegar 

conjugar os verbos dar e receber. 

Podia com teus olhos 
escrever o verbo semear 
e ser tua pele 
a terra de nascer poema. 


Podia com teus olhos escrever 

a palavra além ou aqui 

ou a palavra luar, 
recolher-me em teus olhos de lua 
só teus olhos amar. 


Podia em teus olhos perder-me 

não fossem, amor, teus olhos, 

o tempo de achar-me.

PROCURO - TE ( Eugénio de Andrade )

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

OS AMANTES COM CASA ( Joaquim Pessoa ) in Inéditos

Andavam pela casa amando-se 
no chão e contra as paredes. 
Respiravam exaustos como se tivessem 
nascido da terra 
de dentro das sementeiras. 
Beijavam-se magoados 
até se magoarem mais. 
Um no outro eram prisioneiros um do outro 
e livres libertavam-se 
para a vida e para o amor. 
Vivendo a própria morte 
voltavam a andar pela casa amando-se 
no chão e contra as paredes. 
Então era a música, como se 
cada corpo atravessasse o outro corpo 
e recebesse dele nova presença, agora 
serena e mais pobre mas avidamente rica 
por essa pobreza. 
A nudez corria-lhes pelas mãos 
e chegava aonde tudo é branco e firme. 
Aquele fogo de carne 
era a carne do amor, 
era o fogo do amor, 
o fogo de arder amando-se e por toda a casa, 
contra as paredes, no chão. 
Se mais não pressentissem bastaria 
aquela linguagem de falar tocando-se 
como dormem as aves. 
E os olhos gastos 
por amor de olhar, 
por olhar o amor. 
E no chão 
contra as paredes se amaram e 
pela casa andavam como 
se dentro das sementeiras respirassem. 
Prisioneiros libertados, um 
no outro eram livres 
e para a vida e para o amor se beijaram 
magoando-se mais, até ficarem magoados. 
E uma presença rica, 
agora nova e mais serena, 
avidamente recebeu a música que atravessou de 
um corpo a outro corpo 
chegando às mãos 
onde toda a nudez é branca e firme. 
Com uma carne de fogo, 
incarnando o amor, 
incarnando o fogo, 
contra o chão das paredes se amaram 
pressentindo que 
andando pela casa bastaria tocarem-se 
para ficarem dormindo 
como acordam as aves.

14/12/2016

BELA ( Pablo Neruda )


Bela, 
como na pedra fresca 
da fonte, a água 
abre um vasto relâmpago de espuma, 
assim é o sorriso do teu rosto, 
bela. 

Bela, 
de finas mãos e delicados pés 
como um cavalinho de prata, 
caminhando, flor do mundo, 
assim te vejo, 
bela. 

Bela, 
com um ninho de cobre enrolado 
na cabeça, um ninho 
da cor do mel sombrio 
onde o meu coração arde e repousa, 
bela. 

Bela, 
não te cabem os olhos na cara, 
não te cabem os olhos na terra. 
Há países, há rios 
nos teus olhos, 
a minha pátria está nos teus olhos, 
eu caminho por eles, 
eles dão luz ao mundo 
por onde quer que eu vá, 
bela. 

Bela, 
os teus seios são como dois pães feitos 
de terra cereal e lua de ouro, 
bela. 

Bela, 
a tua cintura 
moldou-a o meu braço como um rio quando 
passou mil anos por teu doce corpo, 
bela. 

Bela, 
não há nada como as tuas coxas, 
talvez a terra guarde 
em algum lugar oculto 
a curva e o aroma do teu corpo, 
talvez em algum lugar, 
bela. 

Bela, minha bela, 
a tua voz, a tua pele, as tuas unhas, 
bela, minha bela, 
o teu ser, a tua luz, a tua sombra, 
bela, 
tudo isso é meu, bela, 
tudo isso é meu, minha, 
quando caminhas ou repousas, 
quando cantas ou dormes, 
quando sofres ou sonhas, 
sempre, 
quando estás perto ou longe, 
sempre, 
és minha, minha bela, 
sempre. 

CORPO  DE  MULHER 
(Pablo  Neruda )
Corpo de mulher, brancas colinas, coxas 
                                                          brancas, 
pareces-te com o mundo na tua atitude de 
                                                          entrega. 
O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti 
e faz saltar o filho do mais fundo da terra. 

Fui só como um túnel. De mim fugiam os 
                                                          pássaros, 
e em mim a noite forçava a sua invasão 
                                                          poderosa. 
Para sobreviver forjei-te como uma arma, 
como uma flecha no meu arco, como uma pedra 
                                                 na minha funda. 

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te. 
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme. 
Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência! 
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e 
                                                          triste! 

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça. 
Minha sede, minha ânsia sem limite, meu 
                                                          caminho indeciso! 
Escuros regos onde a sede eterna continua, 
e a fadiga continua, e a dor infinita.







BRAILLE ( Nuno Júdice )


Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
ILHA  (Mia Couto)
Tenho a sede das ilhas
e esquece-me ser terra
meu amor, aconchega-me
meu amor, mareja-me
Depois, não
me ensines a estrada.
A intenção da água é o mar
a intenção de mim és tu.


SAUDADE (Mia Couto )

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
sói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés
Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas
Seja eu de novo a tua sombra, teu desejo,
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta
Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono.
MULHER  NEGRA
(Poema de Léopold Sédar Senghor)
(Tradução de Guilherme de Souza Castro )

Mulher nua, mulher negra,
Vestida de tua cor que é vida,
de tua forma que é beleza!
Cresci à tua sombra;
a doçura de tuas mãos acariciou os meus olhos.
E eis que, no auge do verão,
em pleno Sul, eu te descubro,
Terra prometida,
do cimo de alto desfiladeiro calcinado,
E tua beleza me atinge em pleno coração,
como o golpe certeiro de uma águia.

Fêmea nua, fêmea escura,

Fruto sazonado de carne vigorosa,
êxtase escuro de vinho negro,
boca que faz lírica a minha boca
savana de horizontes puros,
savana que freme com as carícias ardentes do vento Leste.
Tam-tam escultural,
tenso tambor que murmura sob os dedos do vencedor.
Tua voz grave de contralto é o canto espiritual da amada.

Fêmea nua, fêmea negra,

Lençol de óleo que nenhum sopro enruga,
óleo calmo nos flancos do atleta,

nos flancos dos príncipes do Mali.
Gazela de adornos celestes,
as pérolas são estrelas sobre a noite da tua pele.
Delícia do espírito,
as cintilações de ouro sobre tua pele
que ondula à sombra de tua cabeleira.
Dissipa-se minha angústia,
ante o sol dos teus olhos.

Mulher nua, fêmea negra,

Eu te canto a beleza passageira
para fixá-la eternamente,
antes que o zelo do destino
te reduza a cinzas para alimentar as raízes da vida.



COMO UMA FLOR NA CHUVA ( Charles Bukowski )


Cortei a unha do dedo médio

da mão direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
"não deixe que isso o desanime",
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
"quer uma maçã?", perguntei.
"claro", ela disse, "tem uma aí?"
mas eu lhe dei outra coisa.
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.




TOQUE-ME   Alice  Ruiz )
Toque baião, toque frevo,
toque rock, toque rumba,
mas não toque nesse assunto
toque tudo sempre assim
só não toque nesse assunto
e nunca toque no fim
toque paixão, toque samba,
toque funk, toque mambo
toque só porque eu mando
toque o mundo, toque fundo
eu quero que você se toque
em cada parte de mim.
.




DEFINIÇÃO ( Affonso Romano de Sant'Anna )

1
Um corpo não é um fruto,
embora em tudo se assemelhem:
densa forma,
oculto gosto,
cinco letras
e um pressuposto
poder de vida.

Um corpo é mais que um fruto
que se plante,
que se colha
ou se degluta:

um corpo
é um corpo,
e um corpo
é luta.

Um corpo não é um potro,
embora assim se manifeste:
pelos mansos,
membros ágeis,
sal na boca
e um desejo
verde pelos campos.

Um corpo é mais que um potro
que pelos prados
e currais se dome:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é fome.

Nem chama
que se anule,
nem espada
em duplo gume
ou máquina
de estrume.

Um corpo
é mais que tudo:
mais que a chave,
mais que a forma,
mais que o leme,
mais que o açude.

Um corpo
é mais que tudo:
é a própria imagem
que eu não pude.

2
O corpo é onde
é carne:

O corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

O corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

O corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

O corpo é onde
é cal:

O corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.

13/12/2016

ESSA VOZ ( Milton Nascimento & Fernando Brant )

Não se apaga, não se cala essa voz 
não se esquece, permanece essa voz 
voando livre no espaço essa voz 
eterno canto de esperança essa voz 
ela é humana e é divina essa voz 
nossa amiga não parou de cantar 
ela é a voz 
de todos nós. 

Não se apaga, não se cala a mulher 
o seu sorriso, o seu sonho, a fé 
sua coragem, sua enorme paixão 
a vida inteira lapidando a canção 
canção de vida e amor vai ficar 
com as pessoas que não param de ouvir 
a sua voz, a voz 
que é a voz
de todos nós.
(Foto:  Elis  Regina)

SEDUÇÃO ( Milton Nascimento e Fernando Brant )


Um cheiro de tentação 
um corpo roliço e bom 
um jeito de sedução, mulher 
dengosa, matreira, gostosa, vai 

Zombando do amor dos homens 
que cercam, farejam, devoram 
com os olhos e boca de lobo mau 

Malícia no seu andar 
prepara armadilhas mil 
fingindo ser caça é mulher 
bonita, cheirosa a debochar 

Dos homens que querem, todos, 
seu beijo, seu tempo, seu corpo 
mas ela não ama com qualquer um 

Eu nasci para ter 
um amor forte, sereno, bonito, gostoso 
um homem bom.

12/12/2016

SOB O CHUVEIRO AMAR ( Carlos Drummond de Andrade )

Sob o chuveiro amar, sabão e beijos,
ou na banheira amar, de água vestidos,
amor escorregante, foge, prende-se,
torna a fugir, água nos olhos, bocas,
dança, navegação, mergulho, chuva,
essa espuma nos ventres, a brancura
triangular do sexo — é água, esperma,
é amor se esvaindo, ou nos tornamos fonte?
Carlos Drummond de Andrade, em "O Amor Natural". Rio de Janeiro: Record, 1992.

RETRATO ARDENTE ( Eugénio de Andrade) in "Obscuro Domínio"

Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.