04/01/2017

BUDA   NAGÔ  Gilberto Gil )
Dorival é ímpar
Dorival é par
Dorival é terra
Dorival é mar
Dorival tá no pé
Dorival tá na mão
Dorival tá no céu
Dorival tá no chão
Dorival é belo
Dorival é bom
Dorival é tudo
Que estiver no tom
Dorival vai cantar
Dorival em CD
Dorival vai sambar
Dorival na TV
Dorival é um Buda nagô
Filho da casa re-al da inspiração
Como príncipe, principiou
A nova idade de ouro da canção
Mas um dia Xangô
Deu-lhe a iluminação
Lá na beira do mar (foi?)
Na praia de Armação (foi não)
Lá no Jardim de Alá (foi?)
Lá no alto sertão (foi não)
Lá na mesa de um bar (foi?)
Dentro do coração
Dorival é Eva
Dorival Adão
Dorival é lima
Dorival é limão
Dorival é mãe
Dorival é pai
Dorival é o peão
Balança, mas não cai
Dorival é um monge chinês
Nascido na Roma negra, Salvador
Se é que ele fez fortuna, ele a fez
Apostando tudo na carta do amor
Ases, damas e reis
Ele teve e passou (iaiá)
Teve o mundo aos seus pés (ioiô)
Ele viu, nem ligou (iaiá)
Seguidores fiéis (ioiô)
E ele se adiantou (iaiá)
Só levou seus pincéis (ioiô)
A viola e uma flor
Dorival é índio
Desse que anda nu
Que bebe garapa
Que come beiju
Dorival no Japão
Dorival samurai
Dorival é a nação
Balança mais não cai.

COMO UMA FLOR NA CHUVA ( Charles Bukowski )


Cortei a unha do dedo médio
da mão direita
realmente curta
e comecei a correr o dedo ao longo de sua buceta
enquanto ela se sentava muito ereta na cama
espalhando uma loção por seus braços
face
e seios
depois do banho.
então acendeu um cigarro:
"não deixe que isso o desanime",
e seguiu fumando e esfregando a
loção.
continuei tocando sua buceta.
"quer uma maçã?", perguntei.
"claro", ela disse, "tem uma aí?"
mas eu lhe dei outra coisa.
ela começou a se contorcer
e depois rolou para um lado,
ela estava ficando molhada e aberta
como uma flor na chuva.
então ela se voltou sobre a barriga
e seu cu maravilhoso
olhou para mim
e eu passei minha mão por baixo e
cheguei outra vez na buceta.
ela se espichou e agarrou meu
pau, virando-se e se contorcendo toda,
penetrei-a
meu rosto mergulhando na massa
de cabelos ruivos que se alastrava feito enchente
de sua cabeça
e meu pau intumescido adentrou
o milagre.
mais tarde tiramos sarro da loção
e do cigarro e da maçã.
depois eu saí para comprar um pouco de frango
e camarão e batatas fritas e pão doce
e purê de batatas e molho e
salada de repolho, e nós comemos. ela me disse
quão bem ela se sentia e eu lhe disse
o quão bem eu me sentia e nós comemos
o frango e o camarão e as batatas fritas e o pão doce
e o purê de batatas e o molho e
também a salada de repolho.

UM POEMA DE AMOR ( Charles Bukowski )

Todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.

(Tradução: Jorge Wanderley)


03/01/2017

ABANDONO ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )


O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
O que será ser moça
E ter vergonha de viver.

Ter corpo pra dançar
E não ter onde me esconder
Tentar cobrir meus olhos
Pra minh'alma ninguém ver
Eu toda a minha vida
Soube só lhe pertencer.

O que será ser sua sem você
Como será ser nua em noite de luar
Ser aluada, louca
Até você voltar
Pra quê.

O que será ser só
Quando outro dia amanhecer
Será recomeçar
Será ser livre sem querer
Quem vai secar meu pranto
Eu gosto tanto de você.


DE TODAS AS MANEIRAS (Chico Buarque de Holanda)


De todas as maneiras que há de amar
Nós já nos amamos
Com todas as palavras feitas pra sangrar
Já nos cortamos
Agora já passa da hora, tá lindo lá fora
Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão

De todas as maneiras que há de amar
Já nos machucamos
Com todas as palavras feitas pra humilhar
Nos afagamos
Agora já passa da hora, tá lindo lá fora
Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado
E desanda a bater desvairado
Quando entra o verão.
ABRIL ( Adriana Calcanhotto)
Sinto o abraço do tempo apertar 
E redesenhar minhas escolhas
Logo eu que queria mudar tudo 
Me vejo cumprindo ciclos, gostar mais de hoje 
E gostar disso 
Me vejo com seus olhos, tempo 
Espero pelas novas folhas 
Imagino jeitos novos para as mesmas coisas 
Logo eu que queria ficar 
Pra ver encorparem os caules 
Lá vou eu, eu queria ficar 
Pra me ver mais tarde,
Sabendo o que sabem os velhos
Pra ver o tempo e seu lento ácido dissolver o que é concreto 
E vejo o tempo em seu claroescuro 
Vejo o tempo em seu movimento 
Me marcar a pele fundo, me impelindo, me fazendo 
Logo eu que fazia girar o mundo, 
Logo eu, quem diria, esperar pelos frutos 
Conheço o tempo em seus disfarces, em seus círculos de horas
Se arrastando feito meses se o meu amor demora 
E vejo bem tudo recomeçar todas as vezes 
E vejo o tempo apodrecer e brotar 
E seguir sendo sempre ele 
Me o tempo todo começar de novo 
E ser e ter tudo pela frente.




CANTADA (DEPOIS DE TER VOCÊ)
(Adriana  Calcanhotto)
  Depois de ter você,
pra quê querer saber que horas são?
Se é noite ou faz calor,
se estamos no verão,
se o sol virá ou não,
ou pra quê é que serve uma canção como essa?

Depois de ter você, poetas para quê?
Os deuses, as dúvidas,
pra quê amendoeiras pelas ruas?
Para quê servem as ruas?
Depois de ter você
Depois de ter você.

CIRANDA DA BAILARINA ( Edu Lobo & Chico Buarque de Holanda )

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina.

E tem piriri
Tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem.

E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem.

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina.

Todo mundo tem
Um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem.

Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda as seis da matina.

Teve escarlatina
Ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem.

Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem quem não tem?

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina.

Todo mundo tem
Um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem.

Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha ela não tem.

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina.

Reparando bem
Todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem.

Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família quem não tem?

O INSTANTE ANTES DO BEIJO (Mia Couto)

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.

A MULHER QUE QUERO ( Pio Vargas )


Eu quero uma mulher de aço
que seja leve como a pena,
cujo sorriso seja um laço
a me prender como um poema.
Eu quero uma mulher madura
a me guiar durante o dia,
quando for noite ser vadia
a me domar sem armadura
e a me tomar como num sonho,
uma mulher que seja a lua
dentro do sol em que me ponho.
Eu quero uma mulher de ferro
com um aplauso pra quando acerto
e um perdão pra quando erro,
como alguém que seja o brilho
dentro do escuro em que me encerro.
Uma mulher que seja plena
uma amante de verdade
que seja motivo de lembrança
e um intervalo na saudade
que, diurna, me cuida,
mas que, noturna me invade.
Eu quero uma mulher-mãe
que seja vinho, cerveja,
refrigerante, champanhe,
que me entenda se viajo
e se fico me acompanhe.
Eu quero uma mulher toda
que me edifique como homem
e algo depois me exploda.

A ARTE DE SER FELIZ ( Cecília Meireles )

Houve um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.
Houve um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.
Houve um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, a às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz. 
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz. 
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

02/01/2017

BEIJO A BEIJO ( Rosa Lobato Faria )

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.

As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.

Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.

E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.
 

SE TE PERTENÇO ( Hilda Hilst )


Se te pertenço, separo-me de mim. 
Perco meu passo nos caminhos de terra 
E de Dionísio sigo a carne, a ebriedade. 
Se te pertenço perco a luz e o nome 
E a nitidez do olhar de todos os começos: 
O que me parecia um desenho no eterno 
Se te pertenço é um acorde ilusório no silêncio. 

E por isso, por perder o mundo 

Separo-me de mim. Pelo absurdo.

COLADA À TUA BOCA ( Hilda Hilst ) in 'Do Desejo'

Colada à tua boca a minha desordem.
O meu vasto querer.
O incompossível se fazendo ordem.
Colada à tua boca, mas descomedida
Árdua
Construtor de ilusões examino-te sôfrega
Como se fosses morrer colado à minha boca.
Como se fosse nascer
E tu fosses o dia magnânimo
Eu te sorvo extremada à luz do amanhecer.

TENTA-ME DE NOVO ( Hilda Hilst)

E por que haverias de querer minha alma
Na tua cama?
Disse palavras líquidas, deleitosas, ásperas
Obscenas, porque era assim que gostávamos.
Mas não menti gozo prazer lascívia
Nem omiti que a alma está além, buscando
Aquele Outro. E te repito: por que haverias
De querer minha alma na tua cama?
Jubila-te da memória de coitos e acertos.
Ou tenta-me de novo. Obriga-me.

SABER AMAR ( Herbert Vianna )

A crueldade de que se é capaz
Deixar pra trás os corações partidos
Contra as armas do ciúme tão mortais
A submissão às vezes é um abrigo.

Saber amar
Saber deixar alguém te amar.

Há quem não veja a onda onde ela está
E nada contra o rio
Todas as formas de se controlar alguém
Só trazem um amor vazio.

O amor te escapa entre os dedos
E o tempo escorre pelas mãos
O sol já vai se por no mar.

01/01/2017

ANOITECEU
(Francis Hime & Vinícius de Moraes) 
A luz morreu
O céu perdeu a cor
Anoiteceu
No nosso grande amor
A luz morreu
O céu perdeu a cor
Anoiteceu
No nosso grande amor.

 Ah, leva a solidão de mim
Tira esse amor dos olhos meus
Tira a tristeza ruim do adeus
Que ficou em mim
Que não sai de mim
Pelo amor de Deus
Vem suavizar a dor
Dessa paixão que anoiteceu
Vem e apaga do corpo meu
Cada beijo seu
Porque foi assim
Que ela me enlouqueceu
Fatal
Cruel, cruel demais
Mas não faz mal
Quem ama não tem paz.


CHOVE LÁ FORA (Tito Madi )


A noite está tão fria
chove lá fora
e essa saudade enjoada
não vai embora
queria compreender porque partiste
queria que soubesses como estou triste
e a chuva continua
mais forte ainda
só Deus pode entender como é infinda
a dor de não saber
saber lá fora onde estás, como estás
com quem estás agora.
 
CASO DE AMOR
( Wagner  Tiso  &  Milton  Nascimento )
Se eu partir amanhã
Vou levando todo sentimento
Que pra ti guardei, juntei, somei
Nos momentos em que conhecemos
O mais desregrado, entusiasmado.

Caso de amor que se pode viver
Ninguém é dono, nem devedor
Sigo na noite, pra onde for
Até sempre, pra não falar adeus
Cuida bem de ti
Não te arrependas depois
Despertei, aprendi.

Que a dor inda desaparece
Numa esquina ou noutra emoção
E estarei de luar no peito
E fogo no interior
Desregrado, entusiasmado
Cabe um mundo inteiro
No meu coração.