05/02/2017

MAR DE MENINA (Lya Luft)
Havia um mar,
e ali brotava uma ilha
povoada de lobos e de pensamentos.
Havia um fundo escuro e belo
onde os náufragos dançavam com sereias.
Havia ansiedade e abraço.
Havia âncora e vaguidão.

Brinquei com peixes e anjos,
fui menina e fui rainha,
acompanhada e largada,
sempre a meia altura
do chão.

A vida um barco, remos ou ventos,
tudo real e tudo
ilusão.
*Lya Luft, em "Para Não Dizer Adeus", 2005.


HOMENS SÃO PASSOS (Lya Luft)
Homens são passos; mulheres são perfumes
que se aproximam, param e se esquivam
sem lançar raízes nessa treva.
Beijam-se às vezes, como num murmúrio,
e eu abro meus lábios tão precários,
para depois, num mundo só de beijos,
pousar a mão sobre meus olhos mortos,
como se baixasse nesses entrevados
o teu carinho, a medo.
*Lya Luft, em "Mulher No Palco", 1984.

ESCOLHA (Lya Luft)


Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:
eu quero o delírio.
*Lya Luft, em "Para Não Dizer Adeus", 2005.
DÁDIVA (Lya  Luft)
Derrama sobre mim tua esperança de homem,
tanto tempo contida:
planta em meu solo a árvore da renovação,
mais alta do que noite escura.

Larga a solidão, apaga a desesperança,
inventa um novo reino
onde as águas não são naufrágio,
nem o amor desengano.

Vem para esta enseada, onde há ventania
e risco, mas podes ancorar teu coração
depois da longa procura,
para que ele pouse e pulse e brilhe

como a estrela-do-mar em seu fundo
de oceano.
 *Lya Luft, em "Para Não Dizer Adeus", 2005.
CANÇÃO EM SEGREDO (Lya  Luft)
Dentro desta mulher
um anjo menino
brinca de ciranda na calçada
e tem fome de futuro.
Dentro desta mulher
uma criança se debruça na janela
vendo chegar o amor
e se julga imortal.

Dentro desta mulher
uma guerreira constroi sua vida
depois de parir filhos para o mundo.
Dentro desta mulher
outra mulher enterra o seu amor perdido
e mesmo assim espera.

Dentro desta mulher
o mistério das coisas
finge dormir.
*Lya Luft, em "Secreta Mirada", 1997.

04/02/2017

GRITO ERÓTICO ( Manuela Amaral )


Caluniaste o meu corpo
ao longo dos teus gestos
sem medida

Desde a palavra exacta
do meu sexo
e soletraste-me puta

      Puta
      Puta

Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
      Grito marinho
      a escorrer nas algas
      do meu ventre

      Puta
      Puta.

SONETO DE DEVOÇÃO ( Vinícius de Moraes )


Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.

Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.

Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.

Essa mulher é um mundo! — uma cadela
Talvez — mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!

A MULHER QUE PASSA ( Vinícius de Moraes )


Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontravas se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como cortiça
E tem raízes como a fumaça.

ENTREVISTA ( Adélia Prado; Brasil, 1935 )


Um homem do mundo me perguntou:
o que você pensa do sexo?
Uma das maravilhas da criação eu respondi.
Ele ficou atrapalhado, porque confunde as coisas
e esperava que eu dissesse maldição,
só porque antes lhe confiara:
o destino do homem é a santidade.
A mulher que me perguntou cheia de ódio:
você raspa lá? Perguntou sorrindo,
achando que assim melhor me assassinava.
Magníficos são o cálice e a vara que ele contém,
peludo ou não.
Santo, santo, santo é o amor que vem de Deus,
não porque uso luva ou navalha.
Que pode contra ele o excremento?
Mesmo a rosa, que pode a seu favor?
Se "cobre a multidão dos pecados e é benigno,
como a morte duro, como o inferno tenaz",
descansa em teu amor, que bem estás.

CÂNTICO IV - ( Cecília Meireles ) In Cânticos

Adormece o teu corpo com a música da vida.
Encanta-te.
Esquece-te.
Tem por volúpia a dispersão.
Não queiras ser tu.
Quere ser a alma infinita de tudo.
Troca o teu curto sonho humano
Pelo sonho imortal.
O único.
Vence a miséria de ter medo.
Troca-te pelo desconhecido.
Não vês, então, que ele é maior?
Não vês que ele não tem fim?
Não vês que ele és tu mesmo?
Tu que andas esquecido de ti?

03/02/2017

AMO TRÊS GESTOS TEUS ( Giosi Lippolis - tradução de José Paulo Paes)

Amo três gestos teus quando, senhor,
me incendeias do teu próprio fogo.
Te serves do meu corpo, minha boca
sorves na tua, me penetras.
És poderoso, vivo, estás feliz.
Mas depois disso cada minuto é meu.

AS MULHERES DA MINHA CIDADE (Manuel Rodrigues)

AS MULHERES DA MINHA CIDADE
(Manuel  Rodrigues)
Às mulheres da minha cidade
basta um raio de sol para florirem.
Mesmo no outono, como agora,
aparecem habitando de asas
as ruas por onde vão voando.
Como brilha o seu corpo!
A face, anúncio de alvorada,
é a luz de si mesmas e a minha;
os passos, o chão que pisam;
o cabelo, a aragem e logo o vento
que me leva também voando.
Ah! a lânguida colina do ventre
que baila baila caminhando baila
devagar a dança suave, as ondas do mar!
Olhos que são líquidos lagos por vogar,
rútila romã, a boca a todos dada
e a ninguém, que é só delas,
das mulheres da minha cidade
que salpicam de cores de pétala
as pupilas do desejo que prevalece.

Com as mulheres da minha cidade
a vida, sendo hoje, é sempre amanhã:
amadurecem nos seios o dom do tempo.
Que perpétuo o seu caminhar!
De tão longe lhe vem o ritmo e para
tão longe vai, cálido baloiço das ancas,
berço onde a respiração se detém,
esperando a noite de perfume a pasto
que não sei, ninguém sabe de quem será.

Sei que arderão algures
na Via Láctea. Mas sei também
que a sua boca me ateará o sangue,
que os dentes tão brancos me prenderão,
que as coxas se abrirão para que me contenham,
que pernas e pés me firmarão para que elas me possuam,
que unhas hão-de rasgar-me a pele para que de mim se levantem,
ah! que gemidos e gritos e choros te clamarão, ó noite, para que o sol expluda!

E em mim sejam, que eu o sou em tudo,
que tudo sinto, que tudo tenho, plenas de mundo,
certeza de vida - as mulheres da minha cidade!
AO  QUE  VAI  NASCER
(Fernando Brant & Milton Nascimento)
Memória de tanta espera
Teu corpo crescendo, salta do chão
E eu já vejo meu corpo descer
Um dia te encontro no meio
Da sala ou da rua
Não sei o que vou contar.

Respostas virão do tempo
Um rosto claro e sereno me diz
E eu caminho com pedras na mão
Na franja dos dias esqueço o que é velho
O que é manco
E é como te encontrar
Corro a te encontrar.

Um espelho feria meu olho e na beira da tarde
Uma moça me vê
Queria falar de uma terra com praias no norte
E vinhos no sul
A praia era suja e o vinho vermelho
Vermelho, secou
Acabo a festa, guardo a voz e o violão
Ou saio por aí
Raspando as cores que o mofo aparecer.

Responde por mim o corpo
De rugas que um dia a dor indicou
E eu caminho com pedras na mão
Na franja dos dias esqueço o que é velho
O que é manco
E é como te encontrar
Corro a te encontrar.




02/02/2017

QUIETUDE (Bruno Barros)


Refinas a noite com estimada clareza,
Desembaçando a mente em opaco estado,
Invadindo-a sutilmente em leves passos,
Destilando no universo pensamentos rasos.

Lírico de movimentos estáticos,
És muda companhia aos velhos surdos,
Sendo ausente em alma ignorante,
E tortura fria de um forte amante

Racional de transparentes palavras,
Possuis por completo tudo em todo vazio,
Gigante invisível de beleza sentida,
Em simultâneos ares tua presença vivida

Não ficas mais que meia badalada,
Corres livre circulando em solidão,
Sem deixar poeira dos rastros teus,
Partindo sem hora, sem dizer adeus.

Diga-me para onde vais.
Silêncio.



 

O QUE É - II ( Bruno Barros )


O que é o sexo
Senão aqueles rimados versos
Que me penetraram na tua ausência
Que desvirginaram todos os elogios já feitos a uma mulher
O que é o sexo
Senão insônia faminta por teu autêntico olhar
Que ânsia inocente criança a te esperar
O que é o sexo
Senão romântico ouvido que se alimenta do teu falar
Ou o sussurro na noite
Pelo querer de abraçar
Será o sexo
O afável perfume de longe lembrar?
O que é o sexo
 Senão o instinto das almas de se introduzirem em alguém.

O QUE É - I ( Bruno Barros )


O que é o amor
Senão aquelas gotas de suor que brotam de seu corpo
O que é o amor
Senão os ríspidos pelos meus
Prensados na leve pele sua
Ou mesmo os amorosos seios brancos
Em excitada vermelha língua
Que de um entra e sai incessante
Faz teu brado volúpia
Que é o amor
Senão a simplicidade de um poema ejaculado
Da complexidade do nosso encaixe.




01/02/2017

O HAVER ( Vinícius de Moraes )

Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido.

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir- a- ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada.

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.
TUAS MÃOS EM MEU CORPO
(Gibson J. de Santana)
Tuas mãos em meu corpo,
meu corpo em tuas deliciosas mãos,
carícias frenéticas de amor,
sedução, lascívia e tesão.
Seus dedos deslizando em minha pele,
arranca-me suspiros loucos,
meu coração pulsa mais forte a cada toque de suas mãos,
minha boca fica seca
sedenta dessa louca paixão.
Mas as suas mãos quando me tocam,
explode meu corpo numa carga de movimentos lascivos,
se continuas, peço para que pares,
se paras, suplico que continues à me tocar.
Essa loucura de sentir-te me tocar,
faz-me sair da realidade e não querer mais voltar,
pois me encontro, no momento dos toques de suas mão
em meu corpo,
em um mundo surreal de carinho, lascívia, sedução e tesão,
que meu corpo nem sequer cogita em cessar.
Ah! tuas mão em meu corpo e meu corpo em tuas mãos.
O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE
(Marisa Monte, Carlinhos Brown & Arnaldo Antunes)
Vai sem direção
Vai ser livre
A tristeza não
Não resiste
Solte os seus cabelos ao vento
Não olhe pra trás
Ouça o barulhinho que o tempo
No seu peito faz
Faça sua dor dançar
Atenção para escutar
Esse movimento que traz paz
Cada folha que cair,
Cada nuvem que passar
Ouve a terra respirar
Pelas portas e janelas das casas
Atenção para escutar
O que você quer saber de verdade.


CORAÇÃO  MARINHEIRO
(Elisangela  Reimol)
I
Marinheiro
Tive o desejo de em seu corpo morar
Habitar sua alma, desvendar seus segredos
Dividir os meus medos de te ver zarpar.
II
Marinheiro
Em sua presença senti-me despida
Desejei beber e ser bebida
Dividir o copo, o café, a vida.
III
Marinheiro
Essa embriaguez fez-me esquecer
Coração marinheiro castigado de despedidas
Chegadas e também partidas
Seu lugar é mesmo no mar
Devaneio meu querer em sua alma ancorar.
IV
Marinheiro
Também vou seguir viagem
Conhecer novas terras, cheiros, cores e quem sabe até amores
Quando a dor da ausência não suportamos mais
Meu amado marinheiro
Espere-me nesse mesmo cais.

SEIOS DE MOÇA ( Carolina Antunes da Silva )


Durinhos, durinhos
Ainda acesos de desejo
Saltando, sem timidez, através do pano
Tal como borboletas brotando do casulo
São perolados, virginais,
Lacrados, sacrossantos.
Altar do desejo que as mãos suplicam
Com dedos pecadores e inconvenientes
Pequeninos, ardentes
Saborosa flor "lambidecente"
Sem cerimônia, alcanço,
Prendendo, cuidadoso, entre dentes.

TOCANDO EM FRENTE ( Almir Sater & Renato Teixeira )


Ando devagar
Porque já tive pressa
E levo esse sorriso
Porque já chorei demais.

Hoje me sinto mais forte
Mais feliz, quem sabe
Só levo a certeza
De que muito pouco sei
Ou nada sei.

Conhecer as manhas
E as manhãs
O sabor das massas
E das maçãs.

É preciso amor
Pra poder pulsar
É preciso paz pra poder sorrir
É preciso a chuva para florir.

Penso que cumprir a vida
Seja simplesmente
Compreender a marcha
E ir tocando em frente.

Como um velho boiadeiro
Levando a boiada
Eu vou tocando os dias
Pela longa estrada, eu vou
Estrada eu sou.

Todo mundo ama um dia
Todo mundo chora
Um dia a gente chega
E no outro vai embora.

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz.