05/05/2017

BALÉ  DA  UTOPIA
(Chico Amaral  &  Milton Nascimento)
Quem acende a manhã assim
E me traz o sol
Quem no meu coração bateu sem saber
Quem me chega e vem morar
Eu não sei se meus passos vão
Encontrar a paz
Eu diria que tanto faz pra nós dois
Pois o amor nos conhece mais
Ah te juro que tanto faz pra nós dois
Pois o amor nos conhece mais
Dança meu amor
Chama a luz do sol
Só você me traz a paixão
Dança então pra mim
Ah o mundo vai
Ser um porto vai
E por que não irmos também
Sem saber se a alegria vem
Eu diria que tanto faz pra nós dois
Pois o amor nos conhece mais
Quem somos nós pra decidir a direção dos temporais
Quem somos nós então, pra decidir então, a direção dos temporais
No coração, o amor nos conhece mais
No coração, o amor nos conhece mais
Eu diria que tanto faz pra nós dois
Pois o amor nos conhece mais.

TEU CORPO SOLTO (Lui Bacallon)

Teu corpo solto
Abandonado ao êxtase de estar
Tuas curvas
Tortuosas
Delirantes
São varridas pelo tecido
Que te envolve a pele
Que desliza em cantiga
Acalanto
Tua carne desnuda
Túrgida
Alva
Trêmula
Palpitar de fruta fresca
Teus olhos; iluminam o quarto
Tua boca tece o silêncio
Teus ouvidos segredam notas
Teus seios macios
Salientes
Calientes
Doces
Que minhas mãos envolvem
A descobrirem
Os róseos medalhões
Que tocam o céu
O céu de minha boca
Faminta
Sedenta
Tuas pernas
Colunas
Arco de flores
Roliças
Se abrem
Feito portais de mistérios
Intemporais
Leutos
Descerram
Imbecilizado vislumbro
Tua corbelha de flores
Flor de lótus
Pérola oculta
Tua Rosa que desabrocha
Tua flor que aflora
Beijo teus vermelhos lábios
Longamente
Vasculho essa mística boca
Entre doces pétalas
Dela
Extraio o néctar
Polinizo assim minha garganta
Mas o desejo
De cobri-la
De conquistá-la
Feito guerreiro
Só e derradeiro.
Numa fusão de corpos
de suor
de carne
de calor
Meu velo de couro
Devagar
Invade tua rubra taça
Tange
dilacera
deflora tua flor que aflora
Possui tuas entranhas
latente pulsa
Impulsa
Entre sussurros desconexos
E imagens a fins
Derramo o leite dos Deuses
E transbordo
Teu cálice de Amor.

 

PARALELAS (Antônio Carlos Belchior)


Dentro do carro
Sobre o trevo
A cem por hora, ó meu amor
Só tens agora os carinhos do motor.

E no escritório em que eu trabalho
e fico rico, quanto mais eu multiplico
Diminui o meu amor.

Em cada luz de mercúrio
vejo a luz do teu olhar
Passas praças, viadutos
Nem te lembras de voltar, de voltar, de voltar.

No Corcovado, quem abre os braços sou eu
Copacabana, esta semana, o mar sou eu
Como é perversa a juventude do meu coração
Que só entende o que é cruel, o que é paixão.

E as paralelas dos pneus n'água das ruas
São duas estradas nuas
Em que foges do que é teu.

No apartamento, oitavo andar
Abro a vidraça e grito, grito quando o carro passa
Teu infinito sou eu, sou eu, sou eu, sou eu.




LEVE ( Carlinhos Vergueiro & Chico Buarque de Holanda )


Não me leve a mal
Me leve à toa pela última vez
A um quiosque, ao planetário
Ao cais do porto, ao paço.

O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo.

Não se atire do terraço, não arranque minha cabeça
Da sua cortiça
Não beba muita cachaça, não se esqueça depressa de mim, sim?
Pense que eu cheguei de leve
Machuquei você de leve
E me retirei com pés de lã
Sei que o seu caminho amanhã
Será um caminho bom
Mas não me leve.

Não me leve a mal
Me leve apenas para andar por aí
Na lagoa, no cemitério
Na areia, no mormaço.

CORAÇÃO SELVAGEM ( Antônio Carlos Belchior )


Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção
Esconda um beijo pra mim
Sob as dobras do blusão
Eu quero um gole de cerveja
No seu copo, no seu colo e nesse bar.

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja
Não quero o que a cabeça pensa 
Eu quero o que a alma deseja
Arco-íris, anjo rebelde
Eu quero o corpo, tenho pressa de viver.

Mas quando você me amar
Me abrace e me beije bem devagar
Que é para eu ter tempo
Tempo de me apaixonar
Tempo para ouvir o rádio no carro
Tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo.

Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente
Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente
Sim, já é outra viagem 
E o meu coração selvagem tem essa pressa de viver.

Meu bem, mas quando a vida nos violentar
Pediremos ao bom Deus que nos ajude
Falaremos para a vida
Vida, pisa devagar, meu coração, cuidado, é frágil
Meu coração é como vidro, como um beijo de novela.

Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão
O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver
E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza
E arriscar tudo de novo com paixão
Andar caminho errado pela simples alegria de ser.

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo, vem morrer comigo
Meu bem, meu bem, meu bem.

Talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho
Algum punhal de amor traído completará o meu destino.

Meu bem, meu bem, meu bem
Que outros cantores chamam baby.



02/05/2017

BOCA A BOCA
(Milton Nascimento & Fernando Brant)
É na carne é no osso
A dor vai penetrando
Quem sentirá tanto como eu, minha agonia?


Delírio de velha

Visão ou lembrança
Ah, como eu fui jovem
E amei tanto a vida.

Estou sozinha na cama fria
Meu corpo arde na lenta espera
Estou sozinha diante da morte.


É o medo, é o frio
Nas juntas, nos nervos
Quem me dará força
Para ver o fim de tudo.

Eu tenho fé no mundo e nos homens
Eu tenho fé nesta louca aventura
Eu quero sim esse ar que me falta
Eu quero sim respirar boca a boca, amar.

E é boca a boca
Que a nova se espalha
Quem conheceu sabe
Era uma santa mulher
Ah, sirva sua dor de exemplo e sol
Ah, sirva como luz na noite escura.

É o medo, é o frio,
Nas juntas, nos nervos
Quem lhe dará força
Para ver o fim de tudo

Acreditou no mundo e nos homens
Eu tive fé nesta louca aventura
Ele quis sim esse ar rarefeito
Ela quis sim respirar boca a boca, amar.

E é boca a boca
Que a nova se espalha
Quem conheceu sabe
Era uma santa mulher
Ah, sirva sua dor, de exemplo e sol
ah, sirva como luz na noite escura.




01/05/2017

BELEZA  E  CANÇÃO
(Milton Nascimento & Fernando Brant) 
Nada de novo no meu mundo
Eu vivo o segundo
Meu tempo é o meu lugar
Nada me tira do meu rumo
Eu sigo o meu prumo
O meu jeito de ser
Nada espero que não tenha
O que vier que venha
Sem me atropelar
Tudo que quero é o mar aberto
É ter você bem perto
Olhar no seu olhar
Tudo é novo no meu mundo
Se seu sono profundo
Entrar no meu sonhar
Sua beleza me domar
Sua beleza me amar
Toda beleza é um espinho
Se ela está sozinha
Sem ninguém desfrutar
Toda beleza é tristeza
Se não tem a certeza
De alguém pra contemplar
Toda beleza é uma chama
Que acende e inflama
Paixão de encontrar
Toda beleza é uma alegria
Que incendeia o dia
Faz a vida cantar
Tudo é belo no meu mundo
E cabe no meu canto
No meu tempo e lugar
Tudo é claro no caminho
Se não estou sozinho
E alguém vai me guardar
Nada de novo no meu mundo
E o sol a cada dia
Na noite a escuridão
Tudo de novo no meu mundo
Comigo eu carrego
Beleza e canção.


UM GIRASSOL DA COR DO SEU CABELO ( Lô Borges & Márcio Borges )


Vento solar e estrelas do mar 
a terra azul da cor de seu vestido 
vento solar e estrelas do mar 
você ainda quer morar comigo. 

Se eu cantar não chore não 
é só poesia 
eu só preciso ter você por mais um dia 
ainda gosto de dançar, bom dia, 
como vai você? 

Sol, girassol, verde vento solar 
você ainda quer morar comigo 
vento solar e estrelas do mar 
um girassol da cor de seu cabelo. 

Se eu morrer não chore não 
é só a lua 
é seu vestido cor de maravilha nua, 
ainda moro nesta mesma rua, 
como vai você? 
você vem, ou será que é tarde demais? 

O meu pensamento tem a cor de seu vestido 
ou um girassol que tem a cor de seu cabelo.
A  BARCA  DOS  AMANTES
(Milton Nascimento & Sérgio Godinho)
Ah! Quanto eu queria navegar 
Pra sempre a barca dos amantes 
Onde o que eu sei deixei de ser 
Onde o que eu vou não ia dantes

Ah! Quanto eu queria conseguir 
Trazer a barca à madrugada 
E desfraldar o pano branco 
Na que for terra, a mais amada. 

E que em toda parte o seu corpo 
Seja o meu porta-estandarte 
Plantado no seu mais fundo 
Posso agitar-me no vento 
E mostrar a cor ao mundo. 

Ah! Quanto eu queria navegar 
Pra sempre a barca dos amantes 
Onde o que vi me fez vogar 
De rumos meus a cais errantes. 

Ah! Quanto eu queria me espraiar 
Fazer a trança a calmaria 
Avistar terra e não saber
Se ainda o é quando for dia.


NOTURNOS VIII (de cristais partidos) ( Gilka Machado )


É noite. Paira no ar uma etérea magia;
nem uma asa transpõe o espaço ermo e calado;
e, no tear da amplidão, a lua, do alto, fia
véus luminosos para o universal noivado.

Suponho ser a treva uma alcova sombria,
onde tudo repousa unido, acasalado.
A lua tece, borda, e para a terra envia,
finos, fluidos filós, que a envolvem lado a lado.

Uma brisa sutil, úmida, fria, lassa,
erra de quando em quando. É uma noite de bodas
esta noite há por tudo um sensual arrepio.

Sinto pelos no vento é a volúpia que passa,
flexuosa, a se roçar por sobre as coisas todas,

como uma gata errando em seu eterno cio.

EM VIOLINO FADO (José Saramago)


Ponho as mãos no teu corpo musical
Onde esperam os sons adormecidos.
Em silêncio começo, que pressente
A brusca irrupção do tom real.
E quando a alma ascendendo canta
Ao percorrer a escala dos sentidos,
Não mente a alma nem o corpo mente.
Não é por culpa nossa se a garganta
Enrouquece e se cala de repente
Em cruas dissonâncias, em rangidos
Exasperantes de acorde errado.

Se no silêncio em que a canção esmorece
Outro tom se insinua, recordado,
Não tarda que se extinga, emudece:
Não se consente em violino fado.

AGUAPÉ (Edmundo Souto & Paulinho Tapajós)


Lá do outro lado do arvoredo
Vive o meu amor escondido
Um passarinho contou
Voa sabiá vá encontrar
Meu bem querer vá lá dizer
Meu bem te vi longe daqui
Sou curió cantando só
Uirapuru do Pajeú
Sem um xodó num cafundó
Volta prá aqui meu colibri
Lembra do fubá do gravatá
Do cangerê do Pererê
Do jaboti do Guarani
Do bororó do mocotó
Do meu bambu do babaçu
Do Marajó do Tororó
Jamais te vi meu colibri
Lembra do cajá do butiá
Do aguapé pé de café
Da juriti do açaí
Do abricó de Mossoró
Do inhambú mandacaru
Do pão de ló nó de jiló
Volta pra aqui meu bem te vi
Tenho um ninho guardado
Para o meu namorado
Deixei lá em segredo
Porque ainda era cedo
Aguardando o pedido
Tenho um ninho escondido
Ele vive guardado
Pra você me guardar.

CASO DE AMOR
(Wagner Tiso & Milton Nascimento )
Se eu partir amanhã 
Vá levando todo sentimento 
Que pra ti guardei, juntei, somei 
Nos momentos em que conhecemos 
O mais 
Desregrado, entusiasmado 
Caso de amor 
Que se pode viver. 

Ninguém é dono, nem devedor 
Sigo na noite, pra onde for 
Até sempre, pra não falar adeus 
Cuida bem de ti 
Não se arrependa depois. 

Despertei, aprendi 
Que a dor inda desaparece 
Numa esquina ou noutra emoção 
E estarei 
De luar no peito 
E fogo no interior 
Desregrado, entusiasmado 
Cabe um mundo inteiro 
No meu coração.