16/05/2017

MEU HOMEM (Lílian Maial)


Meu homem são muitos
São brancos, são negros,
São louros, morenos,
Bem altos, baixinhos,
São atletas, franzinos,
Diplomatas, bandidos,
Arrogantes, tímidos.
São reis, czares, imperadores,
Ou vivem numa câmara de horrores.
Meus homens a mim pertencem
E obedecem cegamente
Cegos que estão de paixão!
São rudes, exalam o cheiro do campo,
Da rocha mais dura,
Da flor mais pura,
Da mão calejada da vida segura.
Também são gentis,
De versos banais,
De cores pastéis,
De óculos intelectuais.
Mas podem ser assassinos
Dos sonhos de vida a dois
Comendo feijão com arroz
Nos pratos feitos do amor.
Talvez preferisse os magos,
Os esotéricos, os ciganos,
Fugindo ao amanhecer dos planos,
Sem rumo, nem barco, nem futuro,
Vivendo um momento obscuro,
Buscando nos astros seu guia.
Não é todo dia que se encontra comigo
Mas sente em mim um perfeito abrigo
Onde recostar a cabeça e dormir.
Não, meu homem é fera primitiva
Que monta e cavalga a mordidas
Que esfrega a barba na barriga
E provoca espasmos na garganta.
Me puxa os cabelos, me levanta
Me senta em seu colo suado
Me prova, me acende, me bate
Me arranca urros em combate
Me vence e me deixa vencer.
Grande engano! Meu homem é cavaleiro
De espora e armadura de prata
Cavalo branco, despontando na mata
Me apanha no galope e some
Me consome, com pão e vinho
Me alisa, me faz carinho
Faz de meu corpo um caminho
E de meu gozo a chegada.
Meus homens são todos e um só
De quem vim da costela e pra onde vou pó
Dividindo meu leito,
Multiplicando meu canto
Aos quatro cantos do mundo
Pra depois, num segundo
Explodir em lágrimas de adeus
Ou em jatos de amor
E seja lá como for
É só meu.
 

SIMPLESMENTE   SER
(Valéria  Braz)
O meu segredo é não ter segredo
Sou como fez a vida
Vivo conforme meu estilo
Luto por tudo que acredito
Amo em silêncio se preciso.

Não quero da vida
Nada além da emoção.
Quero sorrir aberto
Deixar o cabelo ao vento
Meu corpo saudável
A mente tranquila.

Não sou amante do supérfluo
Sou aberta a vida.
Quero aprender
Me entregar de coração
Amar com toda a força.

Mas se não der
Seguirei sorrindo
Abrirei caminhos
Farei corações sorrirem
E por certo serei mulher
Solitária nos dias
Perene nas memórias
Livre no desfecho do destino!

SUFOCO DE UM CONSENTIR (Valéria Braz)

Voar mais alto
Que o espaço da imaginação
Guiar meu coração
Nas asas da realização
No contínuo viver da emoção.

Cair de braços dados
Com a paz de saber
Que tudo ou nada
Só é encontrado
No sufoco de um consentir.

Não querer mais saber
Resistir.
Resistindo na alma
Para o corpo decidir.

O silêncio de bocas cansadas
Ressoam ecos passados
De um entardecer descontinuado.

Os olhos falam a linguagem
Que vai pela janela do coração
Onde se esconde a tímida
Alma covarde.

E no amanhecer da compreensão
Não se pede palavras de atenção
Somente gestos da verdade
Que se esconde em atitudes fugídias.
 
A ALMA DO AMOR
(Valéria  Braz)
Teus olhos banhados de prazer
No murmúrio suave da sua voz
Embalada no delírio de estar aqui.

Teu corpo macio de formas suaves
Combina com a agitação do teu orgasmo.

E no êxtase do prazer dois corpos se unem
Numa sintonia de insondável satisfação.

E depois o cansaço do corpo excitado
Te faz escorregar ao lado
Tua voz ofegante se faz muda
Teus braços tremidos enlaçam o motivo do prazer
Teus olhos calados se fecham
E sua alma se traduz no sonho conjugado.

Quando despertas teus lábios sorriem
Com os raios do sol dourado
Batendo nos cabelos ainda úmidos
Teu corpo se aconchega
Buscando o conforto de traduzir-se
Na presença do prazer realizado.

Seu suor ainda escorrendo
Convida por telepatia ao banho
E a água que molha dois corpos num só
Transformando-os em fantasia pede mais
E o carinho que nos une ainda nus
Despidos de pudor
Nos guia como Adão e Eva.

E juntos caminhamos no paraíso da fantasia
De dois corpos unidos em um só
De um momento que viverá por anos
De descobrir o ofegante e maravilhoso êxtase
De se encontrar
Mesmo que apenas por uma pequena eternidade.

POEMA EXPLÍCITO (Claudia Diniz)


Não tem medidas,
Não tem pudores,
Não tem passado nem dissabores,
perdemos o rumo,
encontramos o cheiro, o perfume
o mundo cresce,
tua língua cresce,
minhas pernas, ah minhas pernas
nossas bocas em nosso tantra,
em nosso templo,
nosso tempo,
só nosso,
rápido,
corrido, respirando,
chupado e verão.
intenso e sabor,
sexo.
que não vê,
não pensa, não tem parâmetros
apenas existe, intenso demais para
deixar de ser e estar.
 meu corpo pede
seu corpo me recebe
sem preconceito,
sem promessas,
em silêncio,
devagarinho
em nosso templo,
nosso tempo,
só nosso,
o mundo de ponta cabeça
e a cabeça sem razão
transpira dias e dias
nosso momento nu,
desnudo e atrapalhado,
desejado e impiedoso!
Quero sempre mais e mais e de novo e
sempre você, meu homem,
se verdade fosse dos sonhos o dia,
a lua e o dia,
o dia seguinte ainda nosso.








DA  ALMA  FEMININA
(Afonso  Estebanez  Stael)
Deixa a alma espalhar-se pelo vento
deixa o tempo perder-te onde quiser
deixa a brisa seguir teu pensamento
e a menina encontrar-se na mulher.

Aos látegos do mar o sonho acalma
aos espinhos do só o bem-me-quer
se tu ficas no campo e pões a alma
naquela rosa em que te vês mulher.

Perder-me em ti o teu amor ensina
e tanto vou perder-me onde puder
o quanto houver tua alma feminina
de ser deusa com alma de mulher.
AMOR AO VINHO DE ROSAS
(Afonso  Estebanez  Stael)
Esta noite
tu me permitirás ajardinar teu corpo
nos mais esconsos roseirais de amor
em bosques sublimados no conforto
de aviar espinhos sem ferir-te a flor.

Esta noite
procriarei em teus profundos ninhos
de aves marinhas de plantão no céu.
Ah, rosa ausente dos crueis espinhos!
Vinho de rosas com sabor de mel.

Esta noite
tomar-te-ei o amor que me suaviza
a alma sem nenhum ressentimento.
Verei teu corpo com o olhar da brisa
e o tocarei só com as mãos do vento.

Mas esta noite
quero-te o gozo múltiplo e esvaído
como a última lágrima e sem dor.
Só a dor de um calvário consumido
no inexorável instante desse amor!




AMOR  SAPIENS
(Afonso  Estebanez  Stael)
Cena I
Sinto por ti
o instinto selvagem dos rios
que percorrem a orla dos campos
e se perdem nas densas florestas
como reflexos do sexo no corpo.

Por mais que tu insistas
em desvendar o curso de minhas águas
jamais saberás onde cantam as nascentes
nem onde arrulham os seixos das fontes
nem onde as vertentes
conversam com o vento.

Nunca saberás do meu concerto de flautas
nos bambuzais nem dos bailes nas ramagens
onde os pássaros inventam
a linguagem do amor.

Nem de onde vem nem para onde vai
a brisa que te afaga sem que te percebas
cativa de uma paixão pressentida.
Mas te resta a memória perdida
entre as cinzas da flor.




OS PÊSSEGOS ( Judas Isgorogota )


Mando-te, amor, uns pêssegos, dourados,
aureolados de cetíneos fios;
tenros como os teus seios, perfumados,
frágeis, sedosos, tépidos, macios.

Lembra teu colo, de veludo-rosa,
a polpa suave, sedutora, amena,
de indizível doçura, capitosa,
como o teu lábio de mulher morena.

Qual se de néctar fabricada fosse,
tem o sabor divino da ambrosia;
doce como os teus olhos, juraria
que só o sorriso teu é assim tão doce.

Toma-os nos braços teus, com tais cuidados
e de maneira tal todos unindo,
que, maduros que estão, de sazonados
não se vão machucando e diluindo.

Mas, abraçando-os, com efetivo encanto,
faze que os seios túrgidos, rosados,
juntos, agora, aos pêssegos dourados,
não se misturem nem se igualem tanto.

Não sorrias, amor, de meus receios.
Evitarás, assim, que estas amenas
visões, tão lindas — pêssegos e seios —
não me pareçam pêssegos, apenas.




SEIOS (Judas Isgorogota ) (para Astrogildo César)


São duas ilhas os teus seios — duas
Ilhas americanas emergidas
De um mar de formas, como rijas puas
No aço da melhor têmpera fundidas.

Tropicalescamente constituídas,
Duas montanhas íngremes e nuas
Ambas as ilhas, pelas formas suas,
São de origens vulcânicas havidas.

Ilhas envoltas, às manhãs, da neve
Das rendas finas da camisa leve,
Que, assim, uma vez, como eu, as viu,

Jamais dirá que, ao plenilúnio brando,
Sejam desertos cálidos chorando
A saudade do olhar que as descobriu!


MUSA DA MÚSICA (Dante Ozzetti & Luiz Tatit )
Conta
Que desponta
Que está pronta
Que é capaz.

Canta
Não adianta
Mal levanta
Canta mais.

Tenta
Experimenta
Movimenta
Não tem paz.

Sente
De repente
Que é urgente
Corre atrás.

Mostra
Pra quem gosta
Que aposta
Na canção.

Zela
Por aquela
Que protela
A extinção.

Troca
A que sufoca
E não lhe toca
O coração.

Grita
Que é bonita
A que excita
E dá tesão.

Musa da música
Mãe das Américas
Filha da África-fé.

Na poética pós
Na genética pré.






13/05/2017

AS DUAS FLORES ( Castro Alves )


São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.

Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu.
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.

Unidas, bom como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar.
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.

Unidas. Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rodas da vida,
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!



ELAS (TOADA PARA MULHER) 
(Carlos Lyra )
Desde a infância que repousa 
Sobre o berço cor-de-rosa 
Que de frágil se desmancha 
Que elas dormem entre imagens
de boneca e de mulher.

Onde a corpo se recorta 
Quando a boca se avermelha 
E a flor se descabela 
Elas ardem no desejo
de objeto ou de mulher.

E no amor de renda branca
Que o café de manhã cedo
Traz no dedo uma aliança
Elas são a tolerância
Que se alcança pelo preço
de uma casa de mulher.

E elas velam sobre a morte
Que de preto se desfila
Que desfia em terço e pranto
Procissões de mães e filhas
Feito sombras de mulher.

09/05/2017

A LENDA DO RIO VERMELHO
( Carlos  Lyra )
Quanta melancolia
Num rosto de menina
Que sonha à margem do espelho
Que existe um rio vermelho
Que mancha de humano e de triste
Ao passar.
E o sonho esquece no mito
Que o rio era o mais bonito
De todos os rios que escorrem
Pro mar.

Foi de repente quando o rio apareceu
E no seu leito toda a terra escureceu
E violetas foram as flores que ele deu
E a menina no seu leito anoiteceu.

Quanta ilusão perdida
Sombras de um rio triste
Que existe à beira da vida
Manchado de violetas
Que murcham no leito da lenda
Ao passar.
E a lenda esquece na vida
Que o rio era o mais amigo
De todos os rios que voltam
Do mar.

Foi de repente que o milagre aconteceu
E a voz do rio na nascente adormeceu
E num sorriso toda a terra floresceu
E a menina do seu sonho amanheceu.
A  PRIMEIRA  FATIA
(Carlos  Lyra  &  Paulo  César  Pinheiro)
A quem darei a primeira fatia
Quem comerá o primeiro pedaço
Como será que na hora eu ficarei
Se chorando de dor
Ou se eu gritarei
Louca de amor.

Poderá ser a primeira alegria
Como também, o primeiro fracasso
Porque eu não sei de quem eu serei mulher
Diz, meu Deus, o que é
Que eu faço.

De quem será a primeira carícia
Quem colherá minha rosa mais pura
Quem vai deitar o seu corpo sobre o meu
E manchar meus lençois
Quem será meu senhor
Ou meu algoz.

Poderá ser a primeira delícia
Como também, a primeira amargura
Eu já nem sei de que modo devo agir
Virgem Santa, mas que
Loucura!






QUANDO  CHEGARES (Carlos Lyra) 
Quando chegares aqui
Podes entrar sem bater
Ligue a vitrola baixinho
Espera o anoitecer.

Logo que ouvires meus passos
Corre pra me receber
Sorri, me beija e me abraça
Não me perguntes por quê.

Quando estiver em teus braços
Pensa somente em nós dois
Fecha de leve os teus olhos
E abre os teus lábios depois.

E quando já for bem cedinho
Não quero ouvir tua voz
Sai sem adeus, de mansinho
Esquece o que houve entre nós.


08/05/2017

A BELA TETA (Clément  Marot)
Teta mais branca do que um ovo,
Teta de cetim branco e novo,
Teta que faz inveja à rosa
E mais do que tudo é formosa,
Teta dura, nem teta, sim
Pequena bola de marfim,
Bem no meio da qual aflora,
Rubra, uma cereja ou amora,
Que, aposto com vossa mercê,
Ninguém apalpa, ninguém vê.
Teta de bico cor de sangue,
Teta que nada tem de langue
E, indo ou voltando, não balança,
Quer em corrida, quer em dança.
Teta esquerda, pequenininha,
Sempre distante da vizinha,
Teta que dás fiel imagem
Do restante da personagem,
Quem te vê, que tentação
De te conter dentro da mão
E comprimir-te e apalpar-te;
Mas é melhor deixar-se de artes
E não o fazer, pois prevejo
Que lhe viria outro desejo!
Teu bom tamanho não engana,
Teta madura que dás ganas,
Teta que um só anelo expressa:
"Casai comigo bem depressa!"
Teta que incha e quer ir além
Do corpete que ora a detêm.
Oh! felizardo quem te encher
De leite para te fazer,
De ti que és teta de donzela,
Teta de mulher plena e bela.



SEM AÇÚCAR ( Chico Buarque de Holanda )


Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente 
Não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido 
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos.

Dia ímpar tem chocolate
Dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate
Dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor
na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor
Eu de noite sou seu cavalo.

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
A sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira.

SENSUAL ( Antônio Carlos Belchior )


Quando eu cantar
quero ficar
molhado de suor
e por favor não vá pensar
que é só a luz do refletor.

será minha alma que sua
sou um sol negro de dor
outro corpo a pele nua
carne músculo e suor
como um cão que uiva pra lua
contra seu dono e feitor
bicho um animal ferido
no dia do caçador
humaníssimo gemido
raro e comum como o amor.

Quando eu cantar
quero deixar você
molhado de amor
e por favor não vá pensar
que é só a noite ou o calor.

Quero ver você ser
inteiramente tocada
pelo licor da saliva
a língua o beijo a palavra
minha voz quer ser o dedo
na tua chaga sagrada
uma voz feita de espinho
espora em teus membros cansados
sensual como o espírito
ou como o verbo encarnado.

O ATO (Asta Vonzodas)


Nossos corpos se abraçam,
as mãos se entrelaçam.
Nos olhos o desejo,
nas bocas que se unem
a ânsia dos beijos.
A respiração se entrecorta.
Minhas mãos acariciam seu corpo,
que responde ao meu
em busca da posse.

Meus seios, nas suas mãos,
duas taças que transbordam
o vinho do prazer.
Suas mãos, as minhas
caminham entre nossas pernas,
buscando passagens secretas.

A fenda que umedece, se abre,
recebe o falo ereto
que penetra, mete, arremete,
se inunda de louco prazer.

Minha voz num sussurro,
tenta eliminar seu cansaço.
Sua fronte no meu colo pousa,
serena, em descaso.
Minhas mãos,
Qual plumas,
passeiam ávidas pelo teu corpo.

Minha boca te acaricia
e no mais profundo
do teu ser. Vem amparar teu gozo.

Sempre e mais, nos debatemos
nesse desejo louco,
que cresce, entumece, alaga e
despe nossas almas
e nos faz feliz, por ora.
Com tão pouco!

PONTO DE VISTA ( Leila Míccolis )

Eu não tenho vergonha
de dizer palavrões,
de sentir secreções
(vaginais ou anais).
As mentiras usuais
que nos fodem sutilmente
essas sim são imorais,
essas sim são indecentes.

07/05/2017

Gilka Machado; Meu Glorioso Pecado (1928)

Beijas-me tanto, de uma tal maneira,
boca do meu amor, linda assassina,
que não sei definir, por mais que o queira,
teu beijo que entontece e que alucina!

Busco senti-lo, de alma e corpo, inteira,
e todo o senso aos lábios meus se inclina:
morre-me a boca, presa da tonteira
do teu carinho feito de morfina.

Beijas-me e de mim mesma vou fugindo,
e de ti mesmo sofro a imensa falta;
no vasto voo de um delíquio infindo.

Beijas-me e todo o corpo meu gorjeia,
e toda me suponho uma árvore alta,
cantando aos céus, de passarinhos cheia.

TUAS MÃOS SÃO QUENTES, MUITO QUENTES (Gilka Machado)


Meu corpo todo, no silêncio lento
em que me acaricias, 
meu corpo todo, às tuas mãos macias, 
é um bárbaro instrumento 
que se volatiza em melodias 
e, então, suponho, 
à orquestral harmonia de meu ser, 
que teu grandioso sonho 
diga, em mim, o que dizes, sem dizer.
Tuas mãos acordam ruídos 
na minha carne, nota a nota, frase a frase; 
colada a ti, dentro em teu sangue quase, 
sinto a expressão desses indefinidos 
silêncios da alma tua, 
a poesia que tens nos lábios presa, 
teu inédito poema de tristeza, 
vibrar, 
cantar, 
na minha pele nua.