23/07/2017

A BELA DO BAIRRO (Fernando Assis Pacheco) in "A Musa Irregular."

Ela era muito bonita e benza-a-deus 
muito puta que era sempre à espera 
dos pagantes à janela do rés-do-chão 
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores 
tenho o quê? Quinze anos 
tenho o quê uns olhos com que a vejo 
que se debruçava mostrando os peitos 
que a amei como se ama unicamente 
uma vez um colo branco e até as joias 
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas 
eu bato o passeio à hora certa e amo-a 
de cabelo solto e tudo não parece 
senão o céu afinal um pechisbeque 
ainda agora as minhas narinas fremem 
turva-se o coração desmantelado 
amando-a amei-a tanto e sem vergonha 
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro 
nos queixos a admiração que eu fazia 
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo 
como então puxo as abas da farpela 
lentamente caminho para ela 
a chuva cai miúda 
e benza-a-deus que bonita e que puta 
e que desvelos a gente 
gastava em frente do amor.
TEORIA DO AMOR (Manuel  Alegre)
Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.
Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.
Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.
E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.


METAMORFOSE  III
(Fernando  Tanajura  Menezes)
Ah, esses gritos loucos no meio da noite
que cortam firmes como fios de navalhas
São chicotadas que retalham com o açoite
De anjos puros, nós viramos bons canalhas.

Mudam tudo e, sem querer, nos transformamos;
sempre com medo das mudanças que se impõem
e em deformados monstros nos tornamos.

 

O  PERFUME (Carlos  Marighella)
Para cada mulher existe sempre um perfume
que agrada ao seu gosto
ou ao desejo que a inspira,
e que lhe é revelado pelo dom do instinto.

Cada mulher traz em si,
entranhado em seu corpo,
um perfume.
A cada espécie de amor
um perfume é mister,
seja amor puro,
infiel,
sacrossanto,
carnal.

Há uma busca eterna à mulher.
E quem sabe essa busca
se resume
na procura de um quê,
algo estranho, insondável,
quem sabe um perfume.
VENTO  NORDESTE
(Abel Silva  &  Sueli Costa) 
Crianças nos claros da tarde
Cachorros na boca da noite
Os galos nos dentes do dia
Cada desejo é um açoite.

Eu nunca volto nem vou, apenas sou
Eu nunca volto nem vou, apenas sou.

Aberta aquela janela
Este peito estrangulado
O que não digo me queima
Não satisfaz o falado.

Não te odeio nem te amo, apenas chamo
Não te odeio nem te amo, apenas chamo.

Viaja o vento nordeste
Cavalo do meu segredo
Se estás comigo distraio
Se vais, eu morro de medo.

Eu não me lembro nem esqueço, adormeço
Eu não me lembro nem esqueço, adormeço.

A CURVA DOS TEUS OLHOS ( Paul Eluard )


A curva dos teus olhos dá a volta ao meu peito 
É uma dança de roda e de doçura. 
Berço nocturno e auréola do tempo, 
Se já não sei tudo o que vivi 
É que os teus olhos não me viram sempre. 

Folhas do dia e musgos do orvalho, 
Hastes de brisas, sorrisos de perfume, 
Asas de luz cobrindo o mundo inteiro, 
Barcos de céu e barcos do mar, 
Caçadores dos sons e nascentes das cores. 

Perfume esparso de um manancial de auroras 
Abandonado sobre a palha dos astros, 
Como o dia depende da inocência 
O mundo inteiro depende dos teus olhos 
E todo o meu sangue corre no teu olhar.
(Tradução de António Ramos Rosa)

18/07/2017

NOS TEUS OLHOS ALGUÉM ANDA NO MAR (Manuel Alegre)

Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.
E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.
Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.
Das tuas coxas pode ver-se a lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.

MELODIA SENTIMENTAL (Dora Vasconcelos & Heitor Vila-Lobos)


Acorda, vem ver a lua
Que dorme na noite escura
Que fulge tão bela e branca
Derramando doçura
Clara chama silente
Ardendo meu sonhar.

As asas da noite que surgem
E correm no espaço profundo
Oh, doce amada, desperta
Vem dar teu calor ao luar.

Quisera saber-te minha
Na hora serena e calma
A sombra confia ao vento
O limite da espera
Quando dentro da noite
Reclama o teu amor.

Acorda, vem olhar a lua
Que brilha na noite escura
Querida, és linda e meiga
Sentir teu amor e sonhar.

GOSTAVA DE MORAR NA TUA PELE ( Manuel Alegre ) in Sete Sonetos E Um Quarto, Dom Quixote, 2005.


Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.
Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.
Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.
Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que doi como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.

A LUCIDEZ DO AMANTE QUE ADORMECE (António Ramos Rosa)


A lucidez do amante que adormece
sobre o seio da amada é a respiração da palavra
que movendo-se se deita sobre o seu ténue leito
que é uma nuvem que avança e no ar se dissipa.
Mas o seio da palavra é o seu horizonte
que está para além de uma montanha branca
de silêncio e vagarosa luz
e quando se abre é plumagem de uma ave
que não tem corpo e é o que não há
num cintilar de nulo sortilégio
em que a lucidez encontra o seio e o horizonte
que vibram com a côncava harmonia
de não serem mais que a ténue integridade
de uma matéria que se tornou ritmo e puro espaço.

LUXÚRIA MAIOR (Nara Rúbia Ribeiro)
Faço amor com o tempo
E me engravido do futuro.
Pouco importa
O dia seja escuro
E as verdades, invisíveis.

É no gozo do agora,
No alagar
No contrair involuntário
Do ventre, 
Que faço nascer
Segundo a segundo,
Um novo amanhecer dentro em mim.



NA TUA PELE (Manuel  Alegre)
Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.
Das tuas coxas pode ver-se a lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.



15/07/2017

SONHO  MOLHADO (Gilberto Gil)
Faz muito tempo que eu não tomo chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é me deixar molhar
Bem molhadinho, molhadinho de chuva
Faz muito tempo que eu não sei o que é pegar um toró.

De tá na chuva quando a chuva cair
De não correr pra me abrigar, me cobrir
De ser assim uma limpeza total
De tá na rua e ser um banho
Na rua
Um banho.

De ser igual quando a gente vai dormir
Que a gente sente alguém acariciar
Depois que passa o furacão de prazer
Ficar molhado e ser um sonho 
Molhado
Um sonho.

Eu vou dormir (enxutinho)
E acordo molhadinho de chuva.
VOCÊ (Gilberto Gil)
Dos amores que eu tive
Só você conseguiu se tornar
Aquela coisa querida, sonhada, esperada
Que não queria chegar.

Dos amores que eu tive
Só você conseguiu preencher
Certos vazios que eu tinha
De umas simples coisinhas
Que um grande amor deve ter.

Em você encontrei a verdade
De um amor sem vaidade
De um amor sem paixão
Encontrei em você neste mundo
Algo belo e profundo
Para o meu coração.

Não duvide, meu bem
Deste amor que lhe dou
Acredite, meu bem
Pois o tempo parou
Pra me dar a certeza
Da paz da beleza
De amar a você
Dos amores que eu tive na vida
Só você, querida
Tem razão de ser.

SEU  OLHAR (Gilberto Gil)
Há no seu olhar 
Algo que me ilude
Como o cintilar 
Da bola de gude
Parece conter 
As nuvens do céu
As ondas brancas do mar
Astro em miniatura
Micro-estrutura estelar.


Há no seu olhar 
Algo surpreendente
Como o viajar 
Da estrela cadente
Sempre faz tremer
Sempre faz pensar
Nos abismos da ilusão
Quando, como e onde
Vai parar meu coração?



Há no seu olhar 
Algo de saudade
De um tempo ou lugar 
Na eternidade
Eu quisera ter 
Tantos anos-luz
Quantos fosse precisar
Pra cruzar o túnel
Do tempo do seu olhar.

FRUTO DO SUOR (Enrique Bergen & Tony Osanah) Canção gravada pelo grupo Raíces de América


A terra nova era um paraíso,
o milho alto e os rios puros.
Dormia o ouro a cobiça ausente,
era o índio senhor do continente.
Foram chegando os conquistadores,
os africanos e os aventureiros.
O índio altivo se mesclou ao escravo:
nascia um novo tipo americano.
O interesse fabricou carimbos.
O ódio à toa levantou paredes.
A baioneta desenhou fronteiras.
A estupidez nos separou em bandeiras.

Tenho um filho nessa terra,
foi um amor sem passaportes.
Se o gestar foi brasileiro
não me chames de estrangeiro.
Cada pedra, cada rua tem um toque de imigrantes.
Levantaram com seus sonhos 
um país que não tem donos.

O suor fecunda o solo e a semente não pergunta:
Brasileiro ou imigrante? Só o fruto é importante.
Não me sinta forasteiro.
Não me invente geografias.
Sou tua raça, sou teu povo,
sou teu irmão no dia-a-dia.

09/07/2017

NOITES   QUENTES
(Fernando  Tanajura  Menezes)
Caio entre lençois brancos e limpos
e tu cais sobre o meu peito
se desvelando em carinhos
de qualquer modo,
de qualquer jeito.

Navego em cetins, lençois,
fronhas macias
pelo caminho que já conheço
do meu cais que é o teu.

Caio desdobrado em berço doce
Explêndido no teu tocar
e o meu tocar no teu.

Depois de esfregar
corpo com corpo
suo a colcha amarela
e molho mais nossa aquarela.

Sem que a madrugada assim perceba
dou pra lua uma piscadela,
penduro a colcha na janela
muito antes do arrebol
pra brilhar antes do sol.

FINGINDO  O  AMOR
(Fernando  Tanajura  Menezes)
Vamos começar tudo de novo:
Eu digo que te amo
Tu dizes que me amas
E assim com desenganos
Fingimos que não expomos
As nossas diferenças.

Imaginamos até
Que a felicidade existe
Em forma não distante
Que tudo é cor-de-rosa,
Azul ou de outra sorte
Até que chegue a morte.

Assim nos enganamos
Com jogos sedutores
Com toques sem pudores
A bem-dizer os dias
Num viver constante
De um ilusório amor.
 



AMAR A 4 MÃOS
(Fernando  Tanajura  Menezes & Ivone da Conceição  Rodrigues  Carvalho)
Amar, amar e novamente amar
Amar de toda forma e todo jeito
Amar sem restrição de se entregar
Amar sem medo ou mesmo preconceito.

Amar com uma total e grande entrega
Ao amor que alimenta e dá guarida
Ao corpo ardente e quente que se esfrega
Sem se importar com a hora da partida.

Sem amar, é um vazio insustentável
Assim eu quero amar toda minha vida
Não tendo amor tudo é descartável
Por isso vibro e canto e vou à lida.

O amor faz-me gemer — derramo pranto —
Morro de sede e vivo a pão e água
Faz-me chorar de riso e me encanto
Esqueço a fome, a dor e até a mágoa.

Persigo assim a minha sorte amando
Um amor que me permite respirar
Que me dá paz e logo vou tramando
Porvir bonito como a imensidão do mar.

E amo sempre, sem barra e sem fronteira
Sem rumo certo, sem cor e sem lugar
Sem me cansar, repito à minha maneira:
Amar, amar e novamente amar.


3ª CANTIGA DE ACORDAR MULHER
(Geir  Campos)
Das vozes que te embalavam
a esperança de menina
moça
guardaste mais, de tanto repisadas,
as perfumadas lições
da nobre arte de agarrar um homem.
De como te fazeres desejada,
amada porventura,
tudo aprendeste: os gestos, os meneios,
a graça de sorrir e de calar.
Hoje tens o teu homem
disposto a desdobrar-se em pão e vinho
para apagar tua fome.
por isso, que lhe hás de dar:
o trigo de tua pele, as uvas de tua boca?
Se sem a ponte do amor, tua lavoura é tão pouca.
Acorda: onde estão as vozes que te ensinaram a amar?



ALBA (Geir  Campos)
Não faz mal que amanheça devagar,
as flores não tem pressa nem os frutos:
sabem que a vagareza dos minutos
adoça mais o outono por chegar.
Portanto não faz mal que devagar
o dia vença a noite em seus redutos
do leste — o que nos cabe é ter enxutos
os olhos e a intenção de madrugar.





SONETO DA SEDUÇÃO
(Francisco  Settineri)
Teu corpo é um lindo mar, e eu sou a vela,
E tomo-te os cabelos, irrequieto,
Eu ardo em teu calor, e é por completo,
Não curvo a minha fronte na procela!

A flor que tens nas mãos, bem amarela,
É incêndio no meu cerne mais secreto,
Se eu bordo a tarda paz em tom discreto
A luz daquela estrela era mais bela.

Habita em teu olhar, não mais desmentes
O quanto, em teu recato, estás desnuda,
E tornas teus encantos mais presentes.

Mas eu, diante de ti, dispenso ajuda:
Os panos que te cobrem caem contentes
E a noite, em seu mormaço, é mais que muda.


04/07/2017

BAILARINA (Maria  Gadú)
Baila minha vida de repente
Se o mundo mente, sou teu palco
Ajoelha a velha dor
Na bela curva do que não foi.

Tanta coisa que o corpo fala
Faz do desejo, lançar-se ao mar
Beijos tão doces, bailam no tempo
Sou deles presa, refém detento.

Amanheceu e estás do outro lado
No canto contrário, do pranto que sou
Bailarina do desamor.

Perca teu passos
No avesso
No inverso
Da minha dor
No avesso
No inverso
Da minha dor.

O show tá ensaiado
És boa leoa
Devora a toa, só pra dançar
Vou me cegar, sentar na plateia
Se os olhos pararam não vou me culpar.




A IMPERATRIZ E A PRINCESA (Isabella Taviani & Myllena)

Ela trancou seu coração na torre de um castelo empoeirado e só
Julgava nunca mais abri-lo, pra outro cavalheiro imperador
A nuvem que levou seus sonhos era labareda de um dragão
Que agora guarda a torre, vigia o seu sono
E não deixa um novo amor chegar
Para a imperatriz não libertar.

Tão solitária assistia a tudo lá do alto da sua prisão
De algum lugar fluía um aroma que acalmava sua solidão
Naquele império dizia a lenda que a imperatriz enlouqueceu
Quando seu rei se foi, montado num corcel
Nunca mais ela sorriu
Nunca mais ela se abriu.

Quantos homens duelaram por seus dotes,
Por seus encantos e caíram frente ao dragão
Que guardava o seu coração.

Desde pequena a princesa Amarílis
Conhecia a lenda de um dragão
Que assombrava a bela dona com a força dessa maldição
Enquanto cultivava rosas ela olhava a torre lá do céu
E desejava fundo fazer a imperatriz sorrir.

Não desistir do amor e ser feliz
Poder abrir as asas e voar
Arriscar de novo as fichas do viver
Com o perfume dessas flores mataria
O dragão e a dama cantaria essa canção.

Princesa, é teu meu coração
Há tempos não sei o que é amar
Pequena, tão grande a sua luz
E a princesa Amarílis, sem cavalo e sem escudo
Libertou a imperatriz da maldição.

Oh, dama, recebo a sua dor
Nas flores guardei o meu calor
Gigante, minúscula aflição
Nos meus olhos, seu espelho
Nessa carne a ferida cicatrizo e alegro a sua vida.

E pelos campos as cores se multiplicavam como um milagre
Findou-se a era das tristezas e não há nada que as separe
E o dragão, inerte, já não assombrava nem uma criança
Diante da maldade a força da esperança fez do reino um lugar melhor
E a alegria nunca foi maior.

Contam naquela cidade hoje uma nova lenda
O amor da imperatriz pela princesa
Oh, dama, recebo a sua dor
Nas flores guardei o meu calor
Gigante, minúscula aflição.

Trovadores cantam em rimas
Para que o mundo lembre
Que elas foram tão felizes para sempre.

03/07/2017

Por Ana Cristina Cesar, in A Teus Pés, Ática, São Paulo, 2a. ed., 1998

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.
O VASO AZUL (Sully Prudhomme)
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.
Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.
A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.
Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;
Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
 Já se quebrou; não toquem não. 
(Tradução:  Guilherme  de  Almeida)