04/11/2017

VISIO ( Machado de Assis )


Eras pálida. E os cabelos,
Aéreos, soltos novelos,
Sobre as espáduas caíam.
Os olhos meio-cerrados
De volúpia e de ternura
Entre lágrimas luziam.
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiram.

Depois, naquele delírio,
Suave, doce martírio
De pouquíssimos instantes
Os teus lábios sequiosos,
Frios trêmulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes.
Depois, depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquele sonho desperto,
Olhei... silêncio de morte
Respirava a natureza —
Era a terra, era o deserto,
Fora-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.

Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira;
Tu e o teu olhar ardente,
Lábios trêmulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e veemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a fantasia doente.

E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquele sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indiferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a imagem do passado.

Foi, sim, mas visão apenas;
Daquelas visões amenas
Que à mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes:
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raízes.


Inda assim, embora sonho,
Mas sonho doce e risonho,
Desse-me Deus que fingida
Tivesse aquela ventura
Noite por noite, hora a hora, 
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora,
Chorara de agradecida!

MENINA E MOÇA ( Machado de Assis ) ( A Ernesto Cibrão)


Está naquela idade inquieta e duvidosa,
Que não é dia claro e é já o alvorecer;
Entreaberto botão, entrefechada rosa,
Um pouco de menina e um pouco de mulher.

Às vezes recatada, outras estouvadinha,
Casa no mesmo gesto a loucura e o pudor;
Tem cousas de criança e modos de mocinha,
Estuda o catecismo e lê versos de amor.

Outras vezes valsando, o seio lhe palpita,
De cansaço talvez, talvez de comoção.
Quando a boca vermelha os lábios abre e agita,
Não sei se pede um beijo ou faz uma oração.

Outras vezes beijando a boneca enfeitada,
Olha furtivamente o primo que sorri;
E se corre parece, à brisa enamorada,
Abrir as asas de um anjo e tranças de uma huri.

Quando a sala atravessa, é raro que não lance
Os olhos para o espelho; e raro que ao deitar
Não leia, um quarto de hora, as folhas de um romance
Em que a dama conjugue o eterno verbo amar.

Tem na alcova em que dorme, e descansa de dia,
A cama da boneca ao pé do toucador;
Quando sonha, repete, em santa companhia,
Os livros do colégio e o nome de um doutor.

Alegra-se em ouvindo os compassos da orquestra;
E quando entra num baile, é já dama do tom;
Compensa-lhe a modista os enfados da mestra;
Tem respeito a Geslin, mas adora a Dazon.

Dos cuidados da vida o mais tristonho e acerbo
Para ela é o estudo, excetuando-se talvez
A lição de sintaxe em que combina o verbo
To love, mas sorrindo ao professor de inglês.

Quantas vezes, porém, fitando o olhar no espaço,
Parece acompanhar uma etérea visão;
Quantas cruzando ao seio o delicado braço
Comprime as pulsações do inquieto coração!

Ah! se nesse momento, alucinado, fores
Cair-lhe aos pés, confiar-lhe uma esperança vã,
Hás de vê-la zombar de teus tristes amores,
Rir da tua aventura e contá-la à mamã.

É que esta criatura, adorável, divina,
Nem se pode explicar, nem se pode entender:
Procura-se a mulher e encontra-se a menina,
Quer-se ver a menina e encontra-se a mulher!
DAS VIAGENS (Ademir Antonio Bacca)
Viajo
no teu corpo
caminhos
nunca imaginados
delírios
de náufrago à deriva
em noite de temporal.
viajo em ti
sonhos de uma ternura
nunca sentida.

03/11/2017

DO TEU CHEIRO (Ademir Antonio Bacca)


O gosto da tua pele
sal impregnado em meus lábios
que me mata de sede
à beira da fonte dos teus prazeres.

O teu gosto na minha boca
mel que sacia meus desejos
na hora derradeira
do medo de te perder
em meio aos lençois.

O teu cheiro impregnado
no meu corpo
perfume raro que nem a chuva
leva de mim.

INSENSATEZ (Ademir Antonio Bacca)


eu navego
em ti
o desejo insano
que persegue
anos a fio.


nas águas perigosas
do teu cio
eu me deixaria afogar
de vez.

AVES (Fernando Namora)

Ter-te suspensa 
do meu lume 
na fogosa boca 
o ardume 
a explodir 
tu 
ardida e intacta 
sonho e nuvem 
voz exacta 
um soltar 
de aves 
em pânico 
na relva do olhar.


NOITE ( Fernando Namora ) in Mar de Sargaços


Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher 
vago e belo e voluptuoso, 
num bailado erótico, com o cenário dos astros, mudos 
                                                                                 e quedos. 
Estrelas que as suas mãos afagam e a boca repele, 
deixai que os caminhos da noite, 
cegos e rectos como o destino, 
suspensos como uma nuvem, 
sejam os caminhos dos poetas 
que lhes decoraram o nome. 
Ó noite, coalhada nas formas de um corpo de mulher! 
Esconde a vida no seio de uma estrela 
e fá-la pairar, assim mágica e irreal, 
para que a olhemos como uma lua sonâmbula.

31/10/2017

RETRATO DE MULHER (Carlos J. Tavares Gomes)


Seu velado sorriso fertiliza 
a paisagem estéril ao fundo 
e seus olhos insinuantes 
agitam meu oceano libídico. 

A ausência de rosas, dálias, 
papoulas, margaridas... 
de flores 
não afasta de você 
a primavera, 
mesmo após várias luas. 

O retrato perde-se na moldura, 
mas a mulher é o abismo de aromas, 
corredor presente de voos possíveis 
onde debilmente macho 
tateio meu futuro infantil. 

Em suas fontes, matas, 
montes e curvas de além-mar, 
dedilho, navegante, a música de 
toda minha existência. 
FILHAS DE VÊNUS (C. R. Nazareth)
A orgulhosa Vênus, deusa do prazer sem igual,
empresta a suas filhas sensuais a chama imortal.
Seja no gelado deserto ou no calor tropical,
a todas confere desejo e prazer sem igual.

A todas confere da paixão o calor
e a todas excita, conduzindo ao profundo ardor.
Assim, não importa o lugar do mundo aonde se vá,
a doce explosão da volúpia lá estará.

Cálido arrebatamento através dos corpos balançando,
na ânsia do jorrar, o auge do prazer alcançando.
Em meio aos gemidos, seja morena ou loira, é uma arte,
uma filha de Vênus é imperatriz em toda parte. 

OLHAR CONSUMISTA (Cristiane Neder)


Nestes nus
que tento seduzir
meus olhos ficam vazios
de tanto te invadir.
Os teus olhos
que saem da plateia
chegam a me contaminar
estragando
minhas ideias velhas,
que eu tinha no lugar
e pensava que eram valiosas
como um quadro de Picasso.
Todo amor
tem seu traço aberto
na hora ága de se apagar.
Minha vida consumista
faz do amor
um objeto vulgar,
cheio de coisas novas
numa vitrine sem par,
e meus olhos
cheios de desejo
querem te consumir
a qualquer preço.

ÁGUAS DE FORESTIER ( Cristiane Neder )


O vinho que toca seus lábios
desperta o pecado
em um pobre pagão
que sonha com o paraíso,
onde todas as águas
se transformam em vinho,
dos rios, lagos, marés e cachoeiras,
salgadas, doces, porém todas vermelhas.
Lavando seus pés,
molhando os seus seios,
escorrendo sobre todo seu corpo
o doce veneno,
que nos embriaga a sede de outras paixões.
Pequenos Bacos
brincando de serem anões,
e todo pecado será desculpado
por todo motivo impulsionado por prazer.
Toda musa será deusa,
todo ateu será José,
e o pecado é não beber
da fonte das águas de Forestier.

QUERIA EXPERIMENTAR NO SEU CORPO TODOS OS LUGARES DO MUNDO JUNTOS ( Cristiane Neder ) para Lorraine Williams


Queria experimentar
todas as alturas do mundo
ao seu lado,
e perder o medo
de andar pelo céu
e conversar com os anjos.
Queria voar
e cair
sem paráquedas
para te abraçar
bem apertado,
e sentir o vento denso
das cordilheiras do Himalaia
e o silêncio e o calor
do deserto do Saara,
pois no seu corpo
há todos os lugares belos
do mundo juntos
tatuados,
há todas as maravilhas
imaginadas e sonhadas
do planeta terra
na sua mais exata perfeição,
pois por onde você passa
sua pele recebe a energia
de cada lugar especial,
e registra na tua pele
um pouco de cada cultura.

OS COGUMELOS DO PARAÍSO ( Cristiane Neder )

Minha loucura 
não tem complexo 
nem de Édipo, nem de Electra, 
nem de qualquer puro amor 
que saia das artérias.
Vivo no paraíso dos cogumelos 
dias tristes, dias alegres, 
mas tudo é ilusão passageira, 
só não passa nesta vida 
a casca estrangeira.
O doce e o amargo 
do sabor da tua língua 
ficou no Caribe 
lá nos portos cheios de gozo 
e de prostituição. 
Os cogumelos do paraíso 
são adubados com a maresia 
e os marujos já não são mais fêmeas, 
pois as fêmeas são eternos machos 
depois da ceia que consome seus rabos.
Nós não temos nada, 
se temos a vida 
ela ainda nos deve a morte, 
portanto tudo é ilusão 
dias de trabalho, outros de ócio 
dias de amor, outros de ódio, 
e os cogumelos são adubados 
para fabricar desejos, 
e onde não há alucinação 
não germina gente, 
nem se fabrica coração.
RITUAL (Carlos Alberto Pessoa Rosa)
Seus olhos
ovulam um verde mediterrâneo
espermatozoides
agitam-se em gôndolas
sua língua
passeia em minha boca
meu pênis
endurece e penetra sua vagina

gozemos
há um ritual de procriação
mergulhado
nesses olhos verdes
 quem sabe
dele nascerá algum poeminha?

VAGINA (Calex Fagundes)

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ENTREGA (Camila Sintra)

ENTREGA (Camila  Sintra)
Um beijo desce pelo corpo
passeia pelas pernas
beijando cada dedinho do pé
sobe pelas curvas das ancas
deslizando no meio das nádegas
serpenteando pelas costas acima
até atingir a nuca
afastar teus cabelos
tornear tuas orelhas
buscando teus lábios abertos.

Encontro de línguas em fogo
e mãos que descem aos seios
teus mamilos em minha boca
teu arfar em meu coração
minha alma em teus braços.

No meio de tuas pernas
o cheiro perfumado do prazer
atrai meu encaixe que busca
tua entrada que acolhe
sem pensar em mais nada.

O MÍNIMO DE NÓS DOIS ( Camila Sintra )


No pequeno espaço
entre teu olhar e o meu
brilha a estrela do desejo
que nos guia um para o outro.

Na ausente distância
entre teus lábios e os meus
brincam e fundem-se os hormônios
da nossa química mais secreta.

No mínimo silêncio
onde somente nossos corpos falam
deslizam mãos em carícias
de tatos cegos que tudo dizem.

No fugaz e eterno momento
da consumação de nosso amor
gritam gargantas no gozo do prazer
da quase dor desse explodir.

SEIOS (Camila Sintra)


Sei que não é para mim
teu leite tão doce
e que a boca que o tem
não te deseja como eu.

Sei que não posso beber tudo
que devo sugar pouco
algumas gotas de teu mel
mas que me alucinam.

Sei que logo vai secar
em breve teus seios voltam
teu filho desmama
e não mais mamarei eu.

Sei que sempre sugarei
teus peitos generosos
teus mamilos penetrantes
tuas carnes que desejo.

Sei que quero te beber
beber-te toda e para sempre
na forma de leite, saliva,
em tua boca, seios e vagina!

ARREPIOS ( Camila Sintra )


o beijo nos lábios
arrepia o pescoço

a mão nas tetas
arrepia os mamilos

a língua no grelo
arrepia a espinha

o dedo no cu
arrepia o ventre

o pau na boceta
arrepia até a alma

e teu olhar no meu
arrepia-me como mais nada.

GOZO ( Carlos Alberto Pessoa Rosa )


silencioso.

solto
disperso
aberto

delicioso.

desprendido
desatado
desobrigado

viver.

sem rumo
sem nada
sem ter

em regozijo
        num gozo intenso.

O SEXO É SAGRADO ( Cláudia Marczak )

O sexo é sagrado, 
como salgadas são as gotas de suor 
que brotam dos meus poros 
e encharcam nossas peles. 
A noite é meu templo 
onde me torno uma deusa enlouquecida 
sentindo teus pelos sobre a minha pele. 
Neste instante já não sou nada, 
somente corpo, 
boca, 
pele, 
pelos, 
línguas, 
bocas. 
E a vida brota da semente, 
dos poucos segundos de êxtase. 
Tuas mãos como um brinquedo 
passeiam pelo meu corpo. 
Não revelam segredos 
desvendam apenas o pudor do mundo, 
descobrem a febre dos animais. 
Então nos tornamos um 
ao mesmo tempo em que 
a escuridão explode em festa. 
A noite amanhece sem versos, 
com a música do seu hálito ofegante. 
O sol brota de dentro de mim. 
Breves segundos. 
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento. 
Eu fui feliz.