17/11/2017

AQUELA  NOITE (Roberta Cazal)
Naquela noite eu disse: eu te amo.

E acordei suada
Tua saliva pelo corpo
Mente nublada de sono.

E levantei curada
Das marcas que deixaste em mim
Mas não sei bem se despertei feliz.

Me encostei amuada
No teu peito e repeti: Eu te amo, eu te amo!
Naquela noite eu sonhei em preto e branco.

FRONTEIRA ( Flávio Villa-Lobos )


Por sobre a dobra viva
do teu colo
caminha e desliza
meu furor cadenciado,
frenesi ofegante de sussurros
fragmentados,
jactando-se em magma de um prazer
escandinavo
frente à nobreza daqueles países
baixos.

Linha divisória entre e a realidade
o imaginário,
curvo-me à onipresença
dos teus seios fartos,
enquanto procuro o fôlego
disperso, enredado,
preso em teus lábios
silenciosos.

A visão do paraíso
escancara meu sorriso
devasso, efêmero
- duração eterna de segundos
preciosos.

POEMAS PARA A AMIGA (FRAGMENTO 8) (Affonso Romano de Sant'Anna)


Contemplo agora 
o leito que vazio 
se contempla. 
Contemplo agora 
o leito que vazio 
em mim se estende 
e se me aproximo 
existe qualquer coisa 
trescalando aroma em mim. 

Onde o teu corpo, amante-amiga, 
onde o carinho 
que compungido em recebia 
e aquela forma que tranquila 
ainda ontem descobrias? 

Agora eu te diria 
o quanto te agradeço o corpo teu 
se o me dás ou se o me tomas, 
e o recolhendo em mim, 
em mim me vais colhendo, 
como eu que tomo em ti 
o que de ti me vais doando. 

Eu muito te agradeço este teu corpo 
quando nos leitos o estendias e o me davas, 
às vezes, temerosa, 
e, ofegante, às vezes, 
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste) 
em que extasiado ao contemplá-lo 
em mim me conturbei 
– (o percebeste) me aguardaste 
e nos olhos te guardei. 

Eu muito te agradeço, amante-amiga, 
este teu corpo que com fúria eu possuía, 
corpo que eu mais amava 
quanto mais o via, 
pequeno e manso enigma 
que eu decifrei como podia. 

Agora eu te diria 
o que não soubeste 
e nunca o saberias: 
o que naquele instante eu te ofertava 
nunca a mim eu já doara 
e nunca o doaria. 

Nele eu fui pousar 
quando cansado e dúbio, 
dele eu fui tomar 
quando ofegante e rubro, 
dele e nele eu revivia 
e foi por ele que eu senti 
a solidão, e o amor 
que em mim havia. 

Teu corpo quando amava 
me excedia, 
e me excedendo 
com o amor foi me envolvendo, 
e nesse amor absorvente 
de tal forma absorvendo, 
que agora que o não tenho 
não sei como permaneço nesta ausência 
em que tuas formas se envolveram, 
tanto o amor 
e a forma do teu corpo 
no meu corpo se inscreveram.

CIO (Noel Ferreira)


Frenético
ofegante
me contorço
na ânsia duma explosão
orgásmica.

Dói-me tudo
e o calor abrasa.
Lambo o suor
que me banha
e escorre
de cada poro aberto.
Puxo os cabelos
enraivecido.
Reteso a musculatura
em erecção.
Rebolo pelo chão
dentes cerrados.
Arrasto-me no lodo
mas não desisto.
Conseguirei.
Conseguirei
ainda que me rasgue todo! 

BALADA DO MANGUE (Vinícius de Moraes)


Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Loelia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas 
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé.
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu.
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabra, glúteas cafetinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de cafetinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos herois!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!
A COR DA PAIXÃO (Regina de Fontenelle)
Em desejo possuída
        se joga,
             se rasga,
   se estraga
          contra os móveis,
  sobre as plantas,
         entremuros,
 se vê fera,
       se faz cadela,
            se morde serpente,
         ferida em seu desvario
no mais escondido recanto do seu bem-querer,
    no seu coração perple o e ávido
       que ela desfibra devagar.

SEGUNDA (Manuel da Fonseca)


Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?
 Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu.

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!


 

DEPOIS DA ORGIA (Augusto dos Anjos)

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

ARARAS VERSÁTEIS ( Hilda Hilst )


Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii.
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

PEQUENA CANTIGA À MULHER ( Maria Teresa Horta )


Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza.
Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza.
Tomba o cabelo
Nos ombros.
O suor pela
Barriga.
Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga.
Tapa a nudez
Com as mãos.
Procura o pão
Na gaveta.
Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca.
Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada.
Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa.
COLHE OS COLHÕES A BOCA(E. M. de Melo e Castro)
colhe os colhões a boca
o barco a flor o mastro
a língua louca louca
o astro glande monstro

que a água que mostro
laiva o sabor do ouro
álcool que vem do mosto
leite que sabe a louro

pelo de pele colhida 
jeito informe que pica
alga onda comprida
que treme e foge e fica

colhe no ar e foge
a árvore da vida.

14/11/2017

ARREBATADA ( Maria Teresa Horta )


Eu não quero a ternura
quero o fogo
a chama da loucura desatada
quero a febre dos sentidos
e o desejo
o tumulto da paixão arrebatada
Eu não quero só o olhar
quero o corpo
abismo de navalha que nos mata

quero o cume da avidez
e do delírio
sequiosa faminta apaixonada
Eu não quero o deleite
do amor
quero tudo o que é voraz
Eu quero a lava.

09/11/2017


Com que palavras irei escrever agora o nome 
das horas que entram pela cama em que noutra vida 
te ensinei o caminho do meu corpo 
e da justeza dos gestos com que a alegria 
se desenhava em mim quando dizias 
agosto tu vais ver é a nossa pátria
nessa altura o verão vinha ainda muito longe 
e por isso era possível acreditar em frases dessas 
esperando que tudo acontecesse 
como nos perdoáveis lugares-comuns dos filmes 
que estreiam sempre no natal 
e furiosamente desejei que a paixão se enredasse 
entre os limos e sargaços das tuas pernas
mas agosto foi apenas um lugar de emboscadas 
em todos os precipícios da nossa cama 
e lentamente as águas definiram 
com rigor implacável 
o que sobrava de ti nas minhas mãos
e o silêncio baixou sobre as águas 
como antes da invenção do mundo
e agora não sei onde acaba o teu nome
e começa o nome de deus.
(Alice  Vieira)
LÍNGUA  VITAL (Bruna  Escaleira)
Do que é que o corpo fala que idioma nenhum participa?
que nem o gesto mais sutil apreende?
só o toque no toque, de fato, transmite
os mistérios profundos que nos movem as entranhas
seria o sexo a única forma de comunicação real?
capaz de transpor fronteiras entre seres
e uni-los na verdadeira língua materna
sabedoria de gaia, pacha mama, ciclo vital
idioma que todos nascemos sabendo
e por não saber da própria sabedoria
acabamos, com esforço, esquecendo
chega um dia em que tal lembrança nos falta
e buscamos nas línguas e linguagens todas
a essência perdida que nunca carregam
sexualidade
ou imensidão
no oceano da pele
nado em águas livres.

MEU ROSÁRIO (Conceição Evaristo) in “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

Meu rosário é feito de contas negras e mágicas.
Nas contas de meu rosário eu canto Mamãe Oxum e falo
padres-nossos e ave-marias.
Do meu rosário eu ouço os longínquos batuques
do meu povo
e encontro na memória mal adormecida
as rezas dos meses de maio de minha infância.
As coroações da Senhora, em que as meninas negras,
apesar do desejo de coroar a Rainha,
tinham de se contentar em ficar ao pé do altar
lançando flores.
As contas do meu rosário fizeram calos
em minhas mãos,
pois são contas do trabalho na terra, nas fábricas,
nas casas, nas escolas, nas ruas, no mundo.
As contas do meu rosário são contas vivas.
(Alguém disse um dia que a vida é uma oração,
eu diria, porém, que há vidas-blasfemas).
Nas contas de meu rosário eu teço intumescidos
sonhos de esperanças.
Nas contas de meu rosário eu vejo rostos escondidos
por visíveis e invisíveis grades
e embalo a dor da luta perdida nas contas
de meu rosário.
Nas contas de meu rosário eu canto, eu grito, eu calo.
Do meu rosário eu sinto o borbulhar da fome
no estômago, no coração e nas cabeças vazias.
Quando debulho as contas do meu rosário,
eu falo de mim mesma um outro nome.
E sonho nas contas de meu rosário lugares, pessoas,
vidas que pouco a pouco descubro reais.
Vou e volto por entre as contas de meu rosário,
que são pedras marcando-me o corpo caminho.
E neste andar de contas-pedras,
o meu rosário se transmuta em tinta,
me guia o dedo,
me insinua a poesia.
E depois de macerar conta por conto do meu rosário,
me acho aqui eu mesma
e descubro que ainda me chamo Maria.

DESILUSÃO ( Maria Suely de Oliveira )


A dor adorna e adormece o desejo
O corpo cala e se espreguiça
O afeto foge
O coração passeia na noite
Reinstala a memória
De afagos sedutores
O estridente som da cuíca anuncia:
Não se deve caçar homens na primavera
O sexo explode insaciável e fecundo
Amores devassos não tecem laços.
CIO (Celso Viáfora & Nancy Ford )
Se alguém me visse no sol
Se me pegasse de baby-doll
Me descobrissem toda chinfrim, no meu jardim
Ai de mim!
Será que eu perdi a voz
Ou será que o show já não era bom
Será que sem o meu batom eu perdi o tom
E os homens mandavam uma vaia
Se me regasse a saia
E se o tomara-que-caia, cair
E eu fora apenas uma mulher sob o fecho-ecler
E daí?
Meu canto é de resistir
A toda mentira, tira de mim
Deixa a palavra despir todo o meu cetim
Pra que eles me vejam a alma
Quero que esqueçam das palmas
Que lembrem da canção
E deixem toda a palavra na palma da mão
Que esqueçam as luzes do teto
E essa mulher-objeto que eu fiz
Que enxergue a um palmo do seu nariz
Pra pedir bis, do que eu não quis
Pois dentro de mim tem mais do que a mulher-fatal da TV
Um negligê, lábios de carmim
Mas que lânguidos olhos de fêmea no cio.

GOZO VI (Maria Teresa Horta)


São de bronze
os palácios do teu sangue
de cristal absorto
encimesmado

São de esperma
os rubis que tens no corpo
a crescerem-te no ventre
ao acaso

São de vento – são de vidro
são de vinho
os liquidos silencios dos teus olhos

as rutilas esmeraldas que
sózinhas
ferem de verde aquilo que tu escolhes

São cintilantes grutas
que germinam
na obscura teia dos teus lábios

o hálito das mãos
a língua – as veias

São de cupulas crisálidas
são de areia

São de brandas catedrais
que desnorteiam

(São de cupulas crisálidas
são de areia)

na minha vulva
o gosto dos teus espasmos.

GOZO IX ( Maria Teresa Horta )


Ondula mansamente a tua língua
de saliva tirando
toda a roupa.
já breves vem os dias
dentro de noites já
poucas.
Que resta do nosso
gozo
se parares de me beijar?
Oh meu amor
devagar...
até que eu fique louca!

Depois não vejas o mar
afogado em minha
boca!