19/11/2017

PÚBIS CARENTE (Geraldo Ângelo Rasputim)


Púbis carente
      Saudades
           Momentos contentes
gozo,
      êxtases
           suspiros.

Gemidos

      Gritos.

Pecado

      Volúpia
Boca molhada
      Pêlos molhados
Suor
      pecados
           Líquido salgado.

Saudades

      Púbis carente.
UM SORRISO (Ferreira Gullar)
Quando 
com minhas mãos de labareda 
te acendo e em rosa 
embaixo 
te espetalas 

quando 
com o meu aceso archote e cego 
penetro a noite de tua flor que exala 
urina 
e mel 
que busco eu com toda essa assassina 
fúria de macho? 
que busco eu 
em fogo 
aqui embaixo? 
senão colher com a repentina 
mão do delírio 
uma outra flor: a do sorriso 
que no alto o teu rosto ilumina?

GOZO (Léa Waider )


Viro, reviro,
Revido.
Torço
Abraço
Atiro
Me afasto.
Grito
Afago
Aninho.
Me deito
Te agarro
Nos mordemos
Nos amamos.
Num impulso
te expulso.
Me seguras,
Penetras,
Me apertas
Te enlouqueço
Gozamos.
Eita, doidera boa!

APÓS O BANHO (Fernando Py)


Após o banho, nua 
ainda, o corpo úmido 
ao meu encontro, visão, 
relembro, cálido êxtase, 
os seios entrevistos 
no decote frouxo, agora, nua, 
toalha molhando-se, ressurgem 
após o banho, 
fremindo, suave embalo, avidez 
de língua e mãos, nua, vens, 
perfume, sulcos na pele, 
ansiada espera, curvas, a entrega 
ao meu olhar, bocas, rosa 
túmida, pétala, sucção, espuma, 
resplandeces para mim, nua, 
após o banho.

17/11/2017

ELOGIO DO PECADO ( Bruna Lombardi )


Ela é uma mulher que goza
celestial sublime
isso a torna perigosa
e você não pode nada contra o crime
dela ser uma mulher que goza

você pode persegui-la, ameaçá-la
tachá-la, matá-la se quiser
retalhar seu corpo, deixá-lo exposto
pra servir de exemplo.
É inútil. Ela agora pode resistir
ao mais feroz dos tempos
à ira, ao pior julgamento
repara, ela renasce e brota
nova rosa.

Atravessou a história
foi queimada viva, acusada
desceu ao fundo dos infernos
e já não teme nada
retorna inteira, maior, mais larga
absolutamente poderosa.

SONETO DO AMOR IMPURO (Goulart Gomes)


Já te comi com os olhos e com as mãos
antropofagia étnica, incesto de irmãos
sei que não raspas teus púbicos pelos
corta-os baixinhos, aparas os cabelos.

Conheço cada ondulação da tua bunda
onde teu ventre se alarga e onde se afunda
qual dos teus seios tem maior volume
e como a tua ira de gozo se assume.

Ao banho, onde primeiro tocas o sabonete
a quantas fricções respiras em falsete
deixando a água ser um outro, teu.

E se em tua corte fui só mais um bobo
trago comigo um real consolo:
quem mais te possuiu fui eu.

A VIRGEM (António Aragão)


um avião em teus seios desocupados
um guindaste em tua boca alerta

um passo de arco-íris corre
teu pulso – dá-me teu bilhete
oh como voo te gosto de viajar!
um motor faz entre tuas coxas
hosana! é sangue o côncavo do teu lugar.

PUXEI A MANGA DA CAMISA (Martha Medeiros)

puxei a manga da camisa um pouco pra cima
perto do cotovelo, e abri o botão calmamente
como se fizesse isso todo dia na tua frente
não te olhei como amiga nem professora
e não liguei para a pouca idade que tinhas
eu era mais madura e você mais coerente
tinha certeza de tudo mas não se mexia
passei a mão no teu cabelo
te beijei na testa, no queixo
beijei tua nuca e tua boca
e fui a primeira mulher nua da tua vida

OS TEUS SEIOS (José Félix)


Os teus seios na palma da mão
são duas laranjas novembrinas
como aromáticas concubinas
a mentir desejos e amor não.

Sorvo o sumo doce e laranjeiro,
prostituido, sim, mas com paixão
os frutos rijos do pomareiro.

Os teus seios na palma da mão.
A ARTE NOBILITANTE (João dos Sonhos)
É preciso fazer do amor
um uso imediato e corrente
a arte nobilitante
de atravessar os dias com a luz
dos corpos enleados,
devorados na lenta florescência
de invisíveis lâmpadas,
ofegantes na lida (na pequisa)
de bocas fulgurantes,
do sabor das ancas contornadas
com dedos de zimbro
e de hortelã,
enfebrecidos sempre
e fascinados
na voragem do púbis levitado
pela língua do fauno
que o levanta.

CONCERTO DOS ÓRGÃOS (Carlos Lúcio Gontijo)

CONCERTO DOS ÓRGÃOS  (Carlos Lúcio Gontijo)
Orgasmo, janela do corpo
Espasmo da carne
Êxtase da alma 
Libido na palma da mão
Cálido tato que nos conduz
Pele aberta em flor
Órgão executando luz
Coração sem pecado original
Alvejado em duas fontes
Que se molham de amor.

ERÓTICO PURITANO ( Niandra LaDez )


As pontas dos meus seios apontam para o céu
inchados e duros
pequenos e brancos
reluzem e gritam
enquanto as estrelas queimam e umedecem
meus santos orifícios
com seus toques inesperados.
sou cega, muda, espasmódica.
pernas abertas por um mundo melhor.
AQUELA  NOITE (Roberta Cazal)
Naquela noite eu disse: eu te amo.

E acordei suada
Tua saliva pelo corpo
Mente nublada de sono.

E levantei curada
Das marcas que deixaste em mim
Mas não sei bem se despertei feliz.

Me encostei amuada
No teu peito e repeti: Eu te amo, eu te amo!
Naquela noite eu sonhei em preto e branco.

FRONTEIRA ( Flávio Villa-Lobos )


Por sobre a dobra viva
do teu colo
caminha e desliza
meu furor cadenciado,
frenesi ofegante de sussurros
fragmentados,
jactando-se em magma de um prazer
escandinavo
frente à nobreza daqueles países
baixos.

Linha divisória entre e a realidade
o imaginário,
curvo-me à onipresença
dos teus seios fartos,
enquanto procuro o fôlego
disperso, enredado,
preso em teus lábios
silenciosos.

A visão do paraíso
escancara meu sorriso
devasso, efêmero
- duração eterna de segundos
preciosos.

POEMAS PARA A AMIGA (FRAGMENTO 8) (Affonso Romano de Sant'Anna)


Contemplo agora 
o leito que vazio 
se contempla. 
Contemplo agora 
o leito que vazio 
em mim se estende 
e se me aproximo 
existe qualquer coisa 
trescalando aroma em mim. 

Onde o teu corpo, amante-amiga, 
onde o carinho 
que compungido em recebia 
e aquela forma que tranquila 
ainda ontem descobrias? 

Agora eu te diria 
o quanto te agradeço o corpo teu 
se o me dás ou se o me tomas, 
e o recolhendo em mim, 
em mim me vais colhendo, 
como eu que tomo em ti 
o que de ti me vais doando. 

Eu muito te agradeço este teu corpo 
quando nos leitos o estendias e o me davas, 
às vezes, temerosa, 
e, ofegante, às vezes, 
e te agradeço ainda aquele instante (o percebeste) 
em que extasiado ao contemplá-lo 
em mim me conturbei 
– (o percebeste) me aguardaste 
e nos olhos te guardei. 

Eu muito te agradeço, amante-amiga, 
este teu corpo que com fúria eu possuía, 
corpo que eu mais amava 
quanto mais o via, 
pequeno e manso enigma 
que eu decifrei como podia. 

Agora eu te diria 
o que não soubeste 
e nunca o saberias: 
o que naquele instante eu te ofertava 
nunca a mim eu já doara 
e nunca o doaria. 

Nele eu fui pousar 
quando cansado e dúbio, 
dele eu fui tomar 
quando ofegante e rubro, 
dele e nele eu revivia 
e foi por ele que eu senti 
a solidão, e o amor 
que em mim havia. 

Teu corpo quando amava 
me excedia, 
e me excedendo 
com o amor foi me envolvendo, 
e nesse amor absorvente 
de tal forma absorvendo, 
que agora que o não tenho 
não sei como permaneço nesta ausência 
em que tuas formas se envolveram, 
tanto o amor 
e a forma do teu corpo 
no meu corpo se inscreveram.

CIO (Noel Ferreira)


Frenético
ofegante
me contorço
na ânsia duma explosão
orgásmica.

Dói-me tudo
e o calor abrasa.
Lambo o suor
que me banha
e escorre
de cada poro aberto.
Puxo os cabelos
enraivecido.
Reteso a musculatura
em erecção.
Rebolo pelo chão
dentes cerrados.
Arrasto-me no lodo
mas não desisto.
Conseguirei.
Conseguirei
ainda que me rasgue todo! 

BALADA DO MANGUE (Vinícius de Moraes)


Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Pobre de vós, pensas, murchas
Orquídeas do despudor
Não sois Loelia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilingüidas 
Dálias cortadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé.
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu.
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabra, glúteas cafetinas
Embebidas em jasmim
Jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de cafetinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos herois!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!
A COR DA PAIXÃO (Regina de Fontenelle)
Em desejo possuída
        se joga,
             se rasga,
   se estraga
          contra os móveis,
  sobre as plantas,
         entremuros,
 se vê fera,
       se faz cadela,
            se morde serpente,
         ferida em seu desvario
no mais escondido recanto do seu bem-querer,
    no seu coração perple o e ávido
       que ela desfibra devagar.

SEGUNDA (Manuel da Fonseca)


Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?
 Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu.

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!


 

DEPOIS DA ORGIA (Augusto dos Anjos)

O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!

Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.

Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,

Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!

ARARAS VERSÁTEIS ( Hilda Hilst )


Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii.
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.

PEQUENA CANTIGA À MULHER ( Maria Teresa Horta )


Onde uma tem
O cetim
A outra tem a rudeza.
Onde uma tem
A cantiga
A outra tem a firmeza.
Tomba o cabelo
Nos ombros.
O suor pela
Barriga.
Onde uma tem
A riqueza
A outra tem
A fadiga.
Tapa a nudez
Com as mãos.
Procura o pão
Na gaveta.
Onde uma tem
O vestígio
Tem a outra
A pele seca.
Enquanto desliza
O fato
Pega a outra na
Enxada.
Enquanto dorme
Na cama
A outra arranja-lhe
A casa.
COLHE OS COLHÕES A BOCA(E. M. de Melo e Castro)
colhe os colhões a boca
o barco a flor o mastro
a língua louca louca
o astro glande monstro

que a água que mostro
laiva o sabor do ouro
álcool que vem do mosto
leite que sabe a louro

pelo de pele colhida 
jeito informe que pica
alga onda comprida
que treme e foge e fica

colhe no ar e foge
a árvore da vida.