22/11/2017

A EMBOCADURA (Giuseppe Belli)
Que esfregações, gemidos, desbaratos!
Que arremessos a seco, numa enfiada!
Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:
Ficam bufando os dois como dois gatos.

Olhos vidrados, pior que de insensatos:
Pelo com pelo, boca a boca atada,
E enfia e empurra e bate sem parada;
Vai e vem, põe e tira num só ato.

Descalabro se um pouco mais durasse!
Chegada a brincadeira ao seu final,
Ficamos feito pedras, inconscientes.

É muito bom foder! Mas o ideal
Seria nos tornarmos realmente
Gertrudes toda cona e eu todo pau.

ENSAIO 5 (Goulart Gomes)


sonho
sobre a cama
um monte assoma
gigante
perfeito, reto
relva baixa
cerrada
gramíneas negro-ruivas
paralelas;
ao meio o mar
vermelho
pernas, peitos
hipérboles em profusão
inexatas
com o colchão

a reta
irá se perder
no infinito
ao último grito
afogado em leite e mal
duvido que haja
travesseiros mais bonitos.

BLAS FÊMEA (Goulart Gomes)


           à minha miragem

Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios

           que ira maior poderia haver
           que o varrer dos meus dentes
           no teu ventre?

           E me deixar 
           sumir em teus abismos
           Nem os braços abertos de um cristo
           tanto fariam.

Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens
(não são para mim, demasiado humano)

mortal demais,
           insano
indigno dos teus lençois.
CORPONAUTA (Goulart Gomes)
Como se tuas mãos não fossem duas
E o meu corpo apenas o universo
Nos teus olhos flutuam outras luas
E a tua pele permeia os meus versos.

Fosse a tua bunda o meu descanso
E o meu falo te servisse de guarida
O guerreiro, de voraz, iria manso
Se renderia, entregaria a própria vida.
.
Que se espera, então, de fêmea e macho
Senão o orgasmo profundo e infiel
De amar mais o outro que a si?

Se entre tuas coxas eu me encaixo
É o teu gozo, purgatório, inferno e céu
Imortalidade que podemos possuir.

ABSTRACT[A] (Goulart Gomes)


Você corria
e eu até
já me esquecia
da beleza de
um corpo de mulher
em movimento.

Sem haver tempo, espaço
ou qualquer
coisa dessas, vagas
você vagava
num interlúdio
num entreatto
e eu navegava.

Apenas havia
coxas, braços, seios
vários cabelos
e devaneios.

Pensei ter visto
areia, mar
e nuvens:
miragem
era só a passagem
do teu corpo
de um ponto a outro.

Você corria
e eu podia
recordar como é bonito
um corpo de mulher
em movimento
alheia a outros
alheia ao tempo.

QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE ( Hilda Hilst ) in Cantares do Sem Nome e de Partidas (1995)


Que este amor não me cegue nem me siga
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vem do fulgor das trevas.
E o meu senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

A CANTORA GRITANTE ( Hilda Hilst )

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FILÓ, A FADINHA LÉSBICA ( Hilda Hilst ) In Bufólicas. São Paulo: Globo, 2002


Ela era gorda e miúda.
Tinha pezinhos redondos.
A cona era peluda
Igual à mão de um mono.
Alegrinha e vivaz
Feito andorinha
Às tardes vestia-se
Como um rapaz
Para enganar mocinhas.
Chamavam-lhe “Filó, a lésbica fadinha”.
Em tudo que tocava
Deixava sua marca registrada:
Uma estrelinha cor de maravilha
Fúcsia, bordô
Ninguém sabia o nome daquela cô.
Metia o dedo
Em todas as xerecas: loiras, pretas
Dizia-se até
Que escarafunchava bonecas.
Bulia, beliscava
Como quem sabia
O que um dedo faz
Desce que nascia.
Mas à noite quando dormia.
Peidava, rugia e
Nascia-lhe um bastão grosso
De início igual a um caroço
Depois
Ia estufando, crescendo
E virava um troço
Lilás
Fúcsia
Bordô
Ninguém sabia a cô do troço
da Fadinha Filó.
Faziam fila na vila.
Falada “Vila do Troço”.
Famosa nas Oropa
Oiapoc ao Chuí
Todo mundo tomava
Um bastão no oiti.
Era um gozo gozoso
Trevoso, gostoso
Um arrepião nos meio!
Mocinhas, marmanjões
Ressecadas velhinhas
Todo mundo gemia e chorava
De pura alegria
Na Vila do Troço.
Até que um belo dia
Um cara troncudão
Com focinho de tira
De beiço bordô, fúcsia ou maravilha
(ninguém sabia o nome daquela cô)
Sequestrou Fadinha
E foi morar na ilha.
Nem barco, nem ponte
o troncudão nadando feito rinoceronte
Carregava Fadinha.
De pernas abertas
Nas costas do gigante
Pela primeira vez
 Na sua vidinha
Filó estrebuchava
Revirando os oinho
Enquanto veloz veloz
O troncudão nadava.
A vila do troço
Ficou triste, vazia
Sorumbática, tétrica
Pois nunca mais se viu
Filó, a fadinha lésbica
Que à noite virava fera
E peidava e rugia
E nascia-lhe um troço
Fúcsia
Lilás
Maravilha
Bordô
Até hoje ninguém conhece
O nome daquela cô.
E nunca mais se viu
Alguém-Fantasia
Que deixava uma estrela
Em tudo que tocava
E um rombo na bunda
De quem se apaixonava.

Moral da estória, em relação à Fadinha:
Quando menos se espera, tudo reverbera.

Moral da estória, em relação ao morador
da Vila do Troço:
         Não acredite em fadinhas.
         Muito menos com cacete.
         Ou somem feito andorinhas
Ou te deixam cacoetes.

 

POEMA SOBRE O ENREDO (Maria Teresa Horta)


Enredada estou de mim
 nesta febre em que me vejo
já que enredada de ti
não se cura o meu desejo.

que nem me pus de curar
este fogo do teu corpo
nem me pus de enganar
esta sede que provoco.

pois logo desenredada
eu sei que me enredaria
neste vício de enredar
o meu espasmo em teu orgasmo
por sua vez enredado na branda rede dos dias.

20/11/2017

SENTIDOS ( Eugénia Tabosa )


Meus dedos
lentos
percorrendo
a medo
teu corpo
aberto
oferto.

Meus dedos
surpresos
soltando
o calor
o cheiro
de teu corpo
descoberto.

Meus dedos
olhos
trazendo 
imagens
mensagens
ao meu corpo
trémulo.


Esqueci
   teu nome
     teu rosto
       o quando
         e o porquê
Só existes
em meus dedos.
PROSERPINA (Evandro Moreira)
Quero perder-me em teu abraço forte,
aquecer a alma e o corpo em teu regaço
e encontrar o ígneo sonho que comporte
toda a paixão em que hoje me desfaço.

Hei de seguir-te, qual fiel consorte,
por todos os caminhos, passo a passo;
quero, custe-me embora dor e morte,
viver com fúria o nosso amor devasso.

Serei dos teus demônios mais um réu
e entre tormentos te amarei, contente,
que, onde estiveres, aí terei meu céu.

Felicidade, então, será o inferno!,
pois em teu ventre encontro a sarça ardente
onde me queimarei num gozo eterno!
ERÓTICA (Eduardo Durso)
amar-te, ter-te em segredo
lamber-te, sugar teu grelo
gravar meus dentes em tua carne
cravar-me intenso, em ti, inteiro
sensação, sentir o teu cheiro
levar-nos, leve, a paixão
levar-me, elevar-me
enlear-me em teus enlevos
ler e reler teu corpo
saborear teu enredo
arredio, rumino e rio
num rasgo, rodopio e arrepio
aí rimo teu nome com desejo
sonho, com tua saia, teu seio
e seja o que for, com teu beijo
delírio, quente, febril
imagino, morro, desvio
de tudo, meu desvario
devaneio, louco, atrevido
me entrego, para ti, me deixo
em ti, e tu, rouca
embriaga-se com meu leite
e abate-se sobre o meu leito.

SÚCUBO (Emiliano Perneta)


Desde que te amo, vê, quase infalivelmente, 
Todas as noites vens aqui. E às minhas cegas
Paixões, e ao teu furor, ninfa concupiscente,
Como um súcubo, assim, de fato, tu te entregas.

Longe que estejas, pois, tenho-te aqui presente.
Como tu vens, não sei. Eu te invoco e tu chegas.
Trazes sobre a nudez, flutuando docemente, 
Uma túnica azul, como as túnicas gregas.

E de leve, em redor do meu leito flutuas, 
Ó Demônio ideal, de uma beleza louca, 
De umas palpitações radiantemente nuas!

Até, até que enfim, em carícias felinas,
O teu busto gentil ligeiramente inclinas,
E te enrolas em mim, e me mordes a boca!

UM OLHAR ( Kátia Cerbino )


Um olhar...
tudo foi fotografado. 
Trago ainda na pele 
o rastro do teu afago. 
Meu seio, 
qual monte de feno, 
onde deitavas 
a sonhar sereno. 
Guardo nas entranhas 
tuas impressões digitais. 
Esquecê-las? Jamais. 
Nos lábios, 
o calor de uma febre terçã, 
como o derradeiro beijo 
de Camille em seu Rodin.

19/11/2017

O PESCADOR (Genaro Vencato)
Abri a ostra e encontrei a pérola
Um leve beijo com o toque da língua,
Fez ela morder o lábio e mergulhar
Arrepiada no oceano de fogo
E urna gigantesca onda de calor
Banhou seu tênue corpo salgado
o vento uivou desconcertante
Completamente alucinado
Por cima das nuvens de nácar
Comprimindo os sons
Com um aperto, um urro
E um puxão de cabelo
Fiquei tonto, totalmente inebriado
Com a beleza desta joia
De valor inestimável
Continuando minha busca
De cultivar sempre
A beleza rara
E deliciosamente pronta a ser aberta
Da sensível ostra.

AMO TRÊS GESTOS TEUS ( Giosi Lippolis ) (Tradução: José Paulo Paes)

Amo três gestos teus quando, senhor,
me incendeias do teu próprio fogo.
Te serves do meu corpo, minha boca
sorves na tua, me penetras.
És poderoso, vivo, estás feliz.
Mas depois disso cada minuto é meu.

PÉLVICAS ANGRAS ( Geraldo Pinto Rodrigues )


Pélvicas angras
aonde veleja 
meu barco ébrio 
entre suores.
Meu barco púbico 
roçando o porto 
de tuas ancas,
nos desesperos.

Se a quilha agito
qual um corcel,
nos descampados
já faço água
neste batel
desgovernado
nos teus desmandos.

Só sigo a viagem,
mais confortado,
quando fundeio 
nos teus abraços.

Enfim, assédios
de muitos frêmitos
me desintegram
nos teus penhascos!

SAUDADES ( Gilka Machado ) no livro "Velha Poesia". Editora Baptista de Souza, 1968.

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?

De quem é esta saudade,
de quem?

Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo.

E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo.

De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo

PARTICULARIDADES 2 ( Gilka Machado )

Tudo quanto é macio os meus ímpetos doma, 
e flexuosa me torna e me torna felina.
Amo do pessegueiro a pubescente poma, 
porque afagos de velo oferece e propina.

O intrínseco sabor lhe ignoro, se ela assoma, 
no rubor da sazão, sonho-a doce, divina! 
gozo-a pela maciez cariciante, de coma,
e o meu senso em mantê-la incólume se obstina.

Toco-a, palpo-a, acarinho o seu carnal contorno, 
saboreio-a num beijo, evitando um ressábio, 
como num lento olhar te osculo o lábio morno.

E que prazer o meu! que prazer insensato!
– pela vista comer-te o pêssego do lábio, 
e o pêssego comer apenas pelo tato. 

VII ( Gilka Machado ) in "Estados da alma: poesias". Revista dos Tribunaes, 1917.


Na plena solidão de um amplo descampado, 
penso em ti e que tu pensas em mim suponho; 
tenho toda afeição de um arbusto isolado, 
abstrato o olhar, entregue à delícia de um sonho.

O vento, sob o céu de brumas carregado, 
passa, ora langoroso, ora forte, medonho! 
e tanto penso em ti, ó meu ausente amado! 
que te sinto no vento e a ele, feliz, me exponho.

Com carícias brutais e com carícias mansas, 
cuido que tu me vens, julgo-me toda nua. 
– sou árvore a oscilar, meus cabelos são franças.

E não podes saber do meu gozo violento, 
quando me fico assim, neste ermo, toda nua, 
completa-te exposta à volúpia do vento!