01/05/2019

EPITALÂMIO ( Vinícius de Moraes )


Esta manhã a casa madruguei.
Havia elfos alados nos gelados
Raios de sol da sala quando entrei.
Sentada na cadeira de balanço
Resplendente, uma fada balançava-se
Numa poça de luz. Minha chegada
Gigantesca assustou os gnomos mínimos
Que vertiginosamente se escoaram
Pelas frinchas dos rodapés. A estranha
Presença matinal do ser noturno
Desencadeou no cerne da matéria
O entusiasmo dos átomos. Coraram
Os móveis decapês, tremeram os vidros
Estalaram os armários de alegria.
Eram os claros cristais de luz tão frágeis
Que ao tocar um, desfez-se nos meus dedos
Em poeira translúcida, vibrando
Tremulinas e harpejos inefáveis.
Era o inverno, ainda púbere. Bebi
Sofregamente um grande copo de ar
E recitei o meu epitalâmio.
Nomes como uma flor, uma explosão
De flor, vieram da infância envolta em trevas
Penetrados de vozes. Num segundo
Pensei ver o meu próprio nascimento
Mas fugi, tive medo. Não devera
A poesia...
Tão extremo era o transe matutino
Que pareceu-me haver perdido o peso
E esquecido dos meus trinta e quatro anos
Da clássica ruptura do menisco
E das demais responsabilidades
Pus-me a correr à volta do sofá
Atrás de prima Alice, a que morreu
De consumpção e me deixava triste.
Infelizmente acrescentei em quilos
E logo me cansei; mas as asinhas
Nos calcanhares eram bimotores
A querer arrancar. Pé ante pé
Fui esconder-me atrás da geladeira
O corpo em bote, os olhos em alegria
Para esperar a entrada de Maria
A empregada da Ilha, também morta
Mas de doença de homem — que era aquela
Confusão de querer-se e malquerer-se
Aquela multiplicação de seios
Aquele desperdício de saliva
E mãos, transfixiantes, nomes feios
E massas pouco a pouco se encaixando
Em decúbito, até a grande inércia
Cheia de mar (Maria era mulata!).
Depois foi Nina, a plácida menina
Dos pulcros atos sem concupiscência
Que me surgiu. Mandava-me missivas
Cifradas que eu, terrível flibusteiro
Escondia no muro de uma casa
(Esqueci de que casa...) Mas surpresa
Foi quando vi Alba surgir da aurora
Alba, a que me deixou examiná-la
Grande obstetra, com a lente de aumento
Dos textos em latim de meu avô
Alba, a que amava as largatixas secas
Alba, a ridícula, morta de crupe.
Milagre da manhã recuperada!
A infância! Sombra, és tu? Até tu, Sombra...
Sombra, contralto, entre os paralelepípedos
Do coradouro do quintal. Oh, tu
Que me violaste, negra, sobre o linho
Muito obrigado, tenebroso Arcanjo
De ti me lembrarei! Bom dia, Linda
Como estás bela assim descalça, Linda
Vem comigo nadar! O mar é agora
A piscina de Onã, de lodo e alga...
Quantos cajus tu me roubaste, feia
Quanto silêncio em teus carinhos, Linda
Longe, nas águas...Sim! é a minha casa
É a minha casa, sim, a um grito apenas
Da praia! Alguém me chama, é a gaivota
Branca, é Marina! (A doida já chegava
Desabotoando o corpete de menina...)
Marina, como vais, jovem Marina
Deslembrada Marina... Vejo Vândala
A rústica, a operária, a compulsória
Que nos levava aos dez para os baldios
Da fábrica, e como aos bilros, hábil
Aos dez de uma só vez manipulava
Em francas gargalhadas, e dizia
De mim: Ai, que este é o mais levado!
(Pela mulher, sim, Vândala, obrigado...)

 E tu, Santa, casada, que me deste
O Coração, posto que de De Amicis
Tu que calçavas longamente as meias
Pretas que me tiraram o medo à treva
E às aranhas... some, jetatura
Masturbação, desassossego, insônia!
Mas tu, pequena Maja, sê bem-vinda:
Lembra-me tuas tranças; recitavas
Fazias ponto-à-jour, tocavas piano
Pequena Maja... Foi preciso um ano
De namoro fechado, irmão presente
Para me dares, louco, de repente
Tua mão, como um pássaro assustado.
No entanto te esqueci ao ver Altiva
Princesa absurda, cega, surda e muda
Ao meu amor, embora me adorando
De adoração tão pura. Tua cítara
Me ensinou um ódio estúpido à Elegia
De Massenet. Confesso, dispensava a cítara
Ia beber desesperado. Mas
Foi contigo, Suave, que o poeta
Apreendeu o sentido da humildade.
Estavas sempre à mão. Telefonava:
Vamos? Vinhas. Inda virias. Tinhas
Um riso triste. Foi o nada quereres
Que tão pouco te deu, tristonha ave...
Quanta melancolia! No cenário
Púrpura, surges, Pútrida, luética
Deusa amarela, circunscrita imagem...
Obrigado no entanto pelos êxtases
Aparentes; lembro-me que brilhava
Na treva antropofágica teu dente
De ouro, como um fogo em terra firme
Para o homem a nadar-te, extenuado.
Mas que não fuja ainda a enunciada
Visão... Clélia, adeus minha Clélia, adeus!
Vou partir, pobre Clélia, navegar
No verde mar... vou me ausentar de ti!
Vejo chegar alguém que me procura
Alguém à porta, alguma desgraçada
Que se perdeu, a voz no telefone
Que não sei de quem é, a com que moro
E a que morreu... Quem és, responde!
És tu a mesma em todas renovada?

Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu! Sou Eu!

CARNE (Vinícius de Moraes)

Que importa se a distância estende entre nós léguas e léguas
Que importa se existe entre nós muitas montanhas?
O mesmo céu nos cobre
E a mesma terra liga nossos pés.
No céu e na terra é tua carne que palpita
Em tudo eu sinto o teu olhar se desdobrando
Na carícia violenta do teu beijo.
Que importa a distância e que importa a montanha
Se tu és a extensão da carne
Sempre presente?

BALADA DAS DUAS MOCINHAS DE BOTAFOGO (Vinícius de Moraes)

Eram duas menininhas 
Filhas de boa família: 
Uma chamada Marina 
A outra chamada Marília. 
Os dezoito da primeira 
Eram brejeiros e finos 
Os vinte da irmã cabiam 
Numa mulher pequenina. 
Sem terem nada de feias 
Não chegavam a ser bonitas 
Mas eram meninas-moças 
De pele fresca e macia. 
O nome ilustre que tinham 
De um pai desaparecido 
Nelas deixara a evidência 
De tempos mais bem vividos. 
A mãe pertencia à classe 
Das largadas de marido 
Seus oito lustros de vida 
Davam a impressão de mais cinco. 
Sofria muito de asma 
E da desgraça das filhas 
Que, posto boas meninas 
Eram tão desprotegidas 
E por total abandono 
Davam mais do que galinhas. 


Casa de porta e janela 
Era a sua moradia 
E dentro da casa aquela 
Mãe pobre e melancolia. 
Quando à noite as menininhas 
Se aprontavam pra sair 
A loba materna uivava 
Suas torpes profecias. 
De fato deve ser triste 
Ter duas filhas assim 
Que nada tendo a ofertar 
Em troca de uma saída 
Dão tudo o que têm aos homens: 
A mão, o sexo, o ouvido 
E até mesmo, quando instadas 
Outras flores do organismo. 



Foi assim que se espalhou 
A fama das menininhas 
Através do que esse disse 
E do que aquele diria. 
Quando a um grupo de rapazes 
A noite não era madrinha 
E a caça de mulher grátis 
Resultava-lhes maninha 
Um deles qualquer lembrava 
De Marília e de Marina 
E um telefone soava 
De um constante toque cínico 
No útero de uma mãe 
E suas duas filhinhas. 
Oh, vida torva e mesquinha 
A de Marília e Marina 
Vida de porta e janela 
Sem amor e sem comida 
Vida de arroz requentado 
E média com pão dormido 
Vida de sola furada 
E cotovelo puído 
Com seios moços no corpo 
E na mente sonhos idos! 



Marília perdera o seu 
Nos dedos de um caixeirinho 
Que o que dava em coca-cola 
Cobrava em rude carinho. 
Com quatorze apenas feitos 
Marina não era mais virgem 
Abrira os prados do ventre 
A um treinador pervertido. 
Embora as lutas do sexo 
Não deixem marcas visíveis 
Tirante as flores lilases 
Do sadismo e da sevícia 
Às vezes deixam no amplexo 
Uma grande náusea íntima 
E transformam o que é de gosto 
Num desgosto incoercível. 



E era esse bem o caso 
De Marina e de Marília 
Quando sozinhas em casa 
Não tinham com quem sair. 
Ficavam olhando paradas 
As paredes carcomidas 
Mascando bolas de chicles 
Bebendo água de moringa. 
Que abismos de desconsolo 
Ante seus olhos se abriam 
Ao ouvirem a asma materna 
Silvar no quarto vizinho! 
Os monstros da solidão 
Uivavam no seu vazio 
E elas então se abraçavam 
Se beijavam e se mordiam 
Imitando coisas vistas 
Coisas vistas e vividas 
Enchendo as frondes da noite 
De pipilares tardios. 
Ah, se o sêmem de um minuto 
Fecundasse as menininhas 
E nelas crescessem ventres 
Mais do que a tristeza íntima! 
Talvez de novo o mistério 
Morasse em seus olhos findos 
E nos seus lábios inconhos 
Enflorescessem sorrisos. 
Talvez a face dos homens 
Se fizesse, de maligna 
Na doce máscara pensa 
Do seu sonho de meninas! 



Mas tal não fosse o destino 
De Marília e de Marina. 
Um dia, que a noite trouxe 
Coberto de cinzas frias 
Como sempre acontecia 
Quando achavam-se sozinhas 
No velho sofá da sala 
Brincaram-se as menininhas. 
Depois se olharam nos olhos 
Nos seus pobres olhos findos 
Marina apagou a luz 
Deram-se as mãos, foram indo 
Pela rua transversal 
Cheia de negros baldios. 
Às vezes pela calçada 
Brincavam de amarelinha 
Como faziam no tempo 
Da casa dos tempos idos. 
Diante do cemitério 
Já nada mais se diziam. 
Vinha um bonde a nove-pontos... 
Marina puxou Marília 
E diante do semovente 
Crescendo em luzes aflitas 
Num desesperado abraço 
Postaram-se as menininhas. 



Foi só um grito e o ruído 
Da freada sobre os trilhos 
E por toda parte o sangue 
De Marília e de Marina.

 



 

30/04/2019

HIMENEU (Vinícius de Moraes)


Na cama, onde a aurora deixa 
Seu mais suave palor 
Dorme ninando uma gueixa 
A dona do meu amor. 

De pijama aberto, flui 
Um seio redondo e escuro 
Que como, lasso, possui 
O segredo de ser puro. 

E de uma colcha, uma coxa 
Morena, na sombra frouxa 
Irrompe, em repouso morno 

Enquanto eu, desperto, a vê-la 
Mesmo sendo o homem dela 
Me morro de dor-de-corno.

BALADA DAS MENINAS DE BICICLETA ( Vinícius de Moraes)

Meninas de bicicleta 
Que fagueiras pedalais 
Quero ser vosso poeta! 
Ó transitórias estátuas 
Esfuziantes de azul 
Louras com peles mulatas 
Princesas da zona sul: 
As vossas jovens figuras 
Retesadas nos selins 
Me prendem, com serem puras 
Em redondilhas afins. 
Que lindas são vossas quilhas 
Quando as praias abordais! 
E as nervosas panturrilhas 
Na rotação dos pedais: 
Que douradas maravilhas! 
Bicicletai, meninada 
Aos ventos do Arpoador 
Solta a flâmula agitada 
Das cabeleiras em flor 
Uma correndo à gandaia 
Outra com jeito de séria 
Mostrando as pernas sem saia 
Feitas da mesma matéria. 
Permanecei! vós que sois 
O que o mundo não tem mais 
Juventude de maiôs 
Sobre máquinas da paz 
Enxames de namoradas 
Ao sol de Copacabana 
Centauresas transpiradas 
Que o leque do mar abana! 
A vós o canto que inflama 
Os meus trint'anos, meninas 
Velozes massas em chama 
Explodindo em vitaminas. 
Bem haja a vossa saúde 
À humanidade inquieta 
Vós cuja ardente virtude 
Preservais muito amiúde 
Com um selim de bicicleta 
Vós que levais tantas raças 
Nos corpos firmes e crus: 
Meninas, soltai as alças 
Bicicletai seios nus! 
No vosso rastro persiste 
O mesmo eterno poeta 
Um poeta - essa coisa triste 
Escravizada à beleza 
Que em vosso rastro persiste, 
Levando a sua tristeza 
No quadro da bicicleta.

A ANUNCIAÇÃO (Vinícius de Moraes)

Virgem! filha minha
De onde vens assim
Tão suja de terra
Cheirando a jasmim
A saia com mancha
De flor carmesim
E os brincos da orelha
Fazendo tlintlin?

Minha mãe querida
Venho do jardim
Onde a olhar o céu
Fui, adormeci.
Quando despertei
Cheirava a jasmim
Que um anjo esfolhava
Por cima de mim...

SONETO DE MARTA ( Vinícius de Moraes )

Teu rosto, amada minha, é tão perfeito

Tem uma luz tão cálida e divina
Que é lindo vê-lo quando se ilumina
Como se um círio ardesse no teu peito.

E é tão leve teu corpo de menina

Assim de amplos quadris e busto estreito

Que dir-se-ia uma jovem dançarina
De pele branca e fina, e olhar direito.

Deverias chamar-te Claridade

Pelo modo espontâneo, franco e aberto

Com que encheste de cor meu mundo escuro.

E sem olhar nem vida nem idade

Me deste de colher em tempo certo

Os frutos verdes deste amor maduro.

13/01/2019

MULHER QUE AMA FICA ÚMIDA ( Dois Santos dos Santos )


Mulher que ama fica úmida
faz água
tem nos olhos um brilho molhado
de lágrima perdida
intenso como vidro lavado
No fundo da mulher que ama
há ternuras líquidas
desejos derretidos em doces resistências
afetos quentes escorrendo dentro
paredes meladas
rios invisíveis
que nascem da sensação de amar
Cristalizações se dissolvem
o que era duro passa a ser macio
o que era pesado leve
o áspero suave
Num certo ponto
mulher que ama arrebenta
vaza por tudo. 
ESCALADA(Jorge de Sousa Braga)
Chamar-te colibri sussurrar-te
ao ouvido coisas ácidas e ternas
Morder-te no pescoço, nos ombros, nas nádegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas.

Selar-te as pálpebras com saliva
enquanto gritas que me odeias e me amas
as minhas mãos numa roda viva
entre as tuas nádegas e as tuas mamas.

A minha língua, a tua língua o meu
pénis, o teu clitóris, a minha língua
o teu clitóris, o meu pénis, a tua língua.

De joelhos como se implorasse
Enterra-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse.

SINTO EM MEU CORPO ( Asta Vonzodas )


Sinto em meu corpo
sua língua.
Que me arde
Como se fosse
um chicote
de
fogo.

E mesmo que
eu não queira
me induz
a jogar
o seu
jogo.

Me entorpece
os sentidos,
abafa-me
os gemidos
até provocar
o meu
gozo.

Que poder
é esse?
Que sedução
devassa,
é essa
que sinto
sempre
que você
me abraça?

Só de lhe ver
me arrepia
a pele, em
choques
térmicos.
E me rendo
pacífica
aos seus
desejos
hipotéticos.

Me excita e
me choca
a sua ousadia.
Mas sempre
mais e mais,
como num
crescendo,
embarco
na sua
fantasia.

E quando
entregue
aos nossos
devaneios
sentindo
em meu
corpo
os seus
meneios,
nada mais
importa.

Abrimos do desejo
as portas,
simplesmente
porque
você é
meu homem
e eu
sou sua
mulher.

DESEJO (Asta Vonzodas)


Vem.

Que te espero nua.
Não mais há lugar para o pudor.

Vem que te quero, nu.
Fecha-me os olhos com teus beijos,
faz-me sonhar com teus desejos.
Faça-me mulher com teu ardor.

Vem.
Que quero agora
acariciar teu corpo levemente,
beijar-te os lábios, sofregamente.
Sugar tua seiva com minha
boca quente.

Deixar-me penetrar por teu furor.
Vem.
que sou mulher,
te quero homem,
vem
deixa-me viver esta fantasia
de amor.

MAMILO ( Carlos Seabra )


frio ventoso
mamilo fura blusa
olho guloso.

VIVER CORPOS DE OUTROS ( Rosemary Barreto )

Viver corpos de outros
abrir-me
em espreguiçar de ostras
ser solta
decifrar diálogos
de golfinhos
prender calcinhas em
pontas de estrelas
me virar pelo avesso
ser o reverso do
poema
e assim
alcançar você
meu desejo
meu todo prazer!





A PALAVRA 31(Francis Whiteman)
Detectei teu sangue
Em minhas mãos suas roupas
Em minha cama o corpo
que ante o nu me oferece
Delírios de poesia tola
Como as bocas, seus lábios
Me recitam falas roucas
Com a lareira fria atiro-me morto
Para sua posse, você que me tem
Às falas loucas e te amo
por ares hábitos e ágil, moça
Frente a masmorra que te prende
Com braços paternos que te estrangulariam
mas detectei teu corpo e espírito
Ante minhas mãos
Que escrevem
Ante aos meus lábios que recitam
Ante ao meu pênis
Que admiras
Com amor
E combate ao tudo sem vícios
À minha boca que baba
Que babar na sua presença, exuberante.
E vês os barbitúricos que caminham
E detectam meu sangue
E protejo-me
E vou ao teu colo
Vasculhar o teu útero
Subindo ao centro de você
Até que chegue o medo.

BAINHA ABERTA (Astrid Cabral)

BAINHA ABERTA (Astrid Cabral)
Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.
VENENO SAGRADO(Maria do Carmo Lobato)
TU ÉS UMA PUTA,
SAUDÁVEL,
INVEJAVEL
DESEJÁVEL,
ADORÁVEL.

NÃO ÉS UMA PUTA DE BORDEL 

E A CASCAVEL QUE TE HABITA

POSSUI UM VENENO MUITO ESPECIAL,

QUE,POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, NÃO FAZ MAL

E EXTASIA OS TEUS AMANTES DE UMA FORMA TAL,

QUE ELES CONTIGO SE COMPRAZEM TAL QUAL
FERAS SOLTAS NA FLORESTA
E CONTIGO FAZEM A FESTA
DE TE QUEREREM
POR APENAS UMA NOITE DE SERESTA,
POIS O PRAZER QUE A ELES PROPICIAS
NAS TUAS NOITES DE ORGIA
OS ASSUSTA
E POR ISSO ELES FOGEM DE TI,
POIS A ELES CUSTA

A DEGUSTA DESTE PRAZER INEXORÁVEL.

ELA (Mirela S. Xavier)

Agora que a sede cala
com o suco
do beijo.

E o desejo fala
com o suco
do sexo.

O carinho
espera
a luz
do olhar.

ENQUANTO UM DEDO ESMAGA (E.M. de Melo e Castro)

enquanto um dedo esmaga
uma curva ou um aro
outros dedos distendem
os tendões que entendem

no súbito na água
a luz vértice faro
os membros que se fendem
lábios que dizem rendem

quem diz cu diz a cona
em masculino estilo
as procuradas fendas afluentes

que no homem se excluem
na fêmea se completam
delta logo de lagos mijo nilo
TE AMO(Sônia Fátima da Conceição)
A LEMBRANÇA É CONCRETA
TEU HÁLITO ROÇA-ME A FACE
O DESEJO AFASTA O RIDÍCULO
NO SUOR O VISCO DO ESPERMA
NA BOCA O GOSTO
DO FALO
INDECENTES
TUAS MÃOS TATEIAM MEU CORPO
O ORGASMO VARRE
VALORES, PECADOS
TE AMO.

26/07/2018

TEUS SEIOS (JG de Araújo Jorge)


Teus seios quando os sinto, quando os beijo
na ânsia febril de amante incontentado,
são polos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado.

E às manhãs quando acaso, entre lençois
das roupagens do leito, saltam nus,
lembram, não sei, dois lindos girassois
fugindo à sombra e procurando a luz!

Florações róseas de uma carne em flor
que se ostenta a tremer em dois botões
na primavera ardente de um amor
que vive para as nossas sensações.

Túmidos, cheios, palpitantes, como
dois bagos do teu corpo de sereia,
tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia.

Quando os tenho nas mãos.Quantas delícias!
Arrepiam-se, trêmulos , sensuais,
e ao contato nervoso das carícias
tocam-me o peito como dois punhais!

Meu lúbrico prazer sempre consolo
na carne destas ondas revoltadas,
que são como taças emborcadas
no moreno inebriante do teu colo.

INTIMIDADE (Lílian Maial)

Dividir,
recolher semelhanças ao longo do tempo,
deixar-se ficar, sem pressa,
sobre as ondas, à deriva no vento.
Juntar os pés na cama,
escovas de dentes,
planos e roupas íntimas
no banheiro.
Partilhar o melhor pedaço,
acordar nos mesmos braços,
caminhar por sobre os passos
do outro.
Colar os corpos,
tocar as partes,
fazer da rotina uma arte,
e sentir novidade no ar.
Preencher de risos o vazio,
entender o prazer,
provocar calafrio,
apenas ao ver o rosto.
Respeitar o espaço,
riscar sem compasso
o caminho do depois
de um saboroso prato
de feijão com arroz.


TOCA MINHA PELE ASSIM (Neide Archanjo) in As Marinhas. Apres. Sônia Régis. Rio de Janeiro: Salamandra, 1984.


Toca minha pele assim: 
as costas com beijos lentos 
a nuca com lábios roxos 
as coxas com mãos noturnas. 

Nada é mais suave 
que teu cabelo solto 
aberto como asa 
sobre meu corpo.