09/03/2023

PROVOCAÇÃO ( Yara Fers )


Hoje
eu quero adentrar
na vagina úmida
da palavra sexo.

Quero que bocas,
seios, pênis
signifiquem
exatamente o que são.
Lambê-las todas.

Hoje
não meto metáforas,
metonímias, eufemismos.
Ainda que haja
de leve
uma metalíngua,
esta poesia
apenas penetra
o literal.

Hoje
vou chupar a palavra pênis
em cada letra, pingo e gota,
até ela ficar bem feliz.

Só hoje,
nada de sutileza.
A poesia
vai dizer safadezas
em seu ouvido.
Escrever será um prazer.

E no clímax,
no ápice da palavra clítoris,
a poesia vai gozar.

E você vai gostar.

PICANTE ( Yara Fernandes Souza ) in Sádica Sílaba, Editora Patuá, 2021.


Beijo
tua pétala:
tulipa púrpura.

Toco
tua penugem:
tapete de pelos púbicos.

Publico
tuas impudicas taras
inter-caladas.

Perfuro
tuas pupilas.

Páprica:
meu poema
em tua papila.

A DEMORA ( Mia Couto ) in " Idades Cidades Divindades"

 O amor nos condena:

demoras
mesmo quando chegas antes.
Porque não é no tempo que eu te espero.
.
Espero-te antes de haver vida
e és tu quem faz nascer os dias.
.
Quando chegas
já não sou senão saudade
e as flores
tombam-me dos braços
para dar cor ao chão em que te ergues.
.
Perdido o lugar
em que te aguardo,
só me resta água no lábio
para aplacar a tua sede.
.
Envelhecida a palavra,
tomo a lua por minha boca
e a noite, já sem voz
se vai despindo em ti.
.
O teu vestido tomba
e é uma nuvem.
O teu corpo se deita no meu,
um rio se vai aguando até ser mar.

05/03/2023

MEU SER ( Simone Lelis )


De olhar atrevido
Sou mulher
Sou menina
Brasas de fogo
Vento de palhas
Sonho de valsa
Sou pequena
Mas grande na força do amor
Sou borboleta
Sou abelha rainha
Sou mistério
Tenho no olhar um brilho intenso
Sou uma ilha perdida
Um paraíso escondido
Tenho cheiro de relva
Sou jardim de flores
Sou proposta descente
Sou o caminho abstrato
Um enigma a desvendar
Sou devaneio
Sou romântica, boba e sincera
Sou joia cara
Sou um espelho
Sou anjo
Sou água de rio
A nascente do mar.

FOGO SOBRE FOGO ( Jorge Sousa Braga )

O meu mamilo

no teu
mamilo

Só tu
sabes sorrir
na vertical

Gotas de orvalho
ligeiramente tingidas
de batom

Nem todos os frutos vermelhos
merecem o céu
da tua boca

Mais do que uma vez
atravessei a primavera
com os olhos fechados

A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
vontade de voar

Vou ao céu
e venho-
-me

Não posso
amar
mais claro

Escrevo
com os dedos ainda longos
da carícia

Ainda agora em ti entrei
e já em todos os teus poros
me achei

Não é a rosas nem a violetas
nem a jasmim o cheiro
que me põe fora de mim

Qual é a minha
ou a tua
língua?

Não conheço outra
linguagem que não seja
a do orvalho

Na espessura do bosque
o que a minha mão procurava
era um mirtilo

Basta-me
o teu umbigo de vinho
para ficar bêbedo

Este fogo
que só com fogo
se pode apagar

AMAR VOCÊ É COISA DE MINUTOS ( Paulo Leminski )

 Amar você é coisa de minutos

A morte é menos que teu beijo
Tão bom ser teu que sou
Eu a teus pés derramado
Pouco resta do que fui
De ti depende ser bom ou ruim
Serei o que achares conveniente
Serei para ti mais que um cão
Uma sombra que te aquece
Um deus que não esquece
Um servo que não diz não
Morto teu pai serei teu irmão
Direi os versos que quiseres
Esquecerei todas as mulheres
Serei tanto e tudo e todos
Vais ter nojo de eu ser isso
E estarei a teu serviço
Enquanto durar meu corpo
Enquanto me correr nas veias
O rio vermelho que se inflama
Ao ver teu rosto feito tocha
Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha
Sim, eu estarei aqui.

URGENTEMENTE ( Eugénio de Andrade )

 É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.
é urgente destruir certas palavras.
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

DESFRUTE ( Carolina Salcides )


Eu sou o fruto do teu pecado.
Cada curva
O fruto do teu desejo.
Sou a doçura da uva
O picante, o azedo.
Sou fruto da tua imaginação
Fruto da tua loucura, da tua fúria.
Sou o fruto na mão
O deleite na boca
A languidez no teu corpo
Sou fruto fluido
Fruto maduro
Fruto proibido.
Sou a maçã rubra lá do alto
Sou fruta gula
Tentação.
Fruta carne
Nua e crua
Fruta vontade
FrutAção.

 

SEDUÇÃO ( Cainara Biondo )


Noite enluarada, neblina densa.
Transforma a paixão ardente que circula entre as veias,
Fazendo pulsar um coração em fúria;
Permitindo viajar em um mundo imaginário fantástico,
Mergulhando em um rio de fantasias apimentadas;

Mistura de sentimento e desejo;
Realidade e fantasia;
Dois corpos entrelaçados se envolvem,
Encaixa-se, completam-se
Tornando cada momento único e inesquecível,
Em meio aos abraços e beijos, o desejo flora;

Aquece, decola, sem juízo.
Declarações e promessas são ditas sem precisão
Voluntariadas da hora,
Corpos suados, mãos escorregadias afagam os corpos,
Sem direção, mas com precisão;
Em meio à loucura, surgem gemidos,

Ao pé do ouvido, causando calafrios;
Satisfação incomparável
Resultado de uma atração física e emocional
Que torna duas pessoas por segundos únicas
Dois corpos, que se permitem em ser um;
A arte da sedução vai muito além da imaginação.

ADOCICADA ( Jussara Alves )


Sedução, ingênua sedução
Transmitida num olhar
Cabreiro e resistente
Num piscar de olhos
Nem sempre intensional
Numa respiração leve
Ou ofegante
Num entreabrir de lábios
Num mordiscar dos mesmos
No retoque do batom
No salivar
Num abrir de poros
Num exalar de perfume
Numa transpiração de desejo
Secreto desejo tão percebido
No ruborizar da pele
Na contração dos músculos
Num levantar de ombros
No acariciar os cabelos
No mordiscar as unhas
No sugar dos dedos
Num cruzar de pernas
No seu descruzar
Nos pensamentos mais quentes
Secretos pensamentos
Tão percebidos.

De Wanda Ayala

Rendo-me aos teus carinhos
Aos teus beijos que me despertam o capricho
De ter-te com volúpia e prazer
De no amanhecer amar-te.


Entrego-me sem pudores
Caem os tabus e as mascaras que acompanham o dia a dia
Digo-te coisas ao ouvido, te instigo mais
A loucura e o prazer já são as únicas coisas que nos restam.

Não há o porque lembrar-se de nada
Se a chuva cai, se o sol já não brilha
O mundo explode em cores
Conquistamos o momento de êxito.

Somos agora uma única inspiração
Uma única célula a formar o universo
Nosso universo particular
Onde só é essencial o ímpeto de nossos corpos a estremecer.

COMPLETO ( Renata Fagundes )

 Um olhar

Um gemido
A libido
Um toque
Arrepio
A voz
Sedução no ouvido
Mas nada teria sentido
Se o coração
Não estivesse envolvido
Palavra que antecede
o pensamento
Sonhos que unificam
sentimentos
Desejo de carne
e de beijo
Vontade de pele
e de colo
Amor profano, insano
Sagrado e santo
Porque no instante que
a cama incedeia
A alma clareia

QUEM É ESSA MULHER? ( Daniella Flores )

Ela anda
Ela dança
Ela brinca
Ela excita
Um mulher adulta
Que brinca de ser criança.
Ela instiga
Ela rebola
Ela revitaliza
Da aula de sensualidade
Não chove e nem molha
Sabe envolver um homem de verdade.
Ela olha
Ela provoca
Ela intensamente respira
Ela morde, e logo em seguida ela assopra
À muitas, ela inspira.




BORBOLETA MULHER ( Irá Rodrigues )


A borboleta tem tudo a ver
Com as cores de um arco íris
Com as formas sensuais da mulher
Com o sorriso de uma criança
No desabrochar da esperança.

A mulher tem tudo a ver
Com o voo de uma borboleta
Com tal leveza sai da crisálida
Abre-se e ganha o mundo
Na leveza da alma alada.

Tem tudo a ver
Com o cheiro que exala
Na sensualidade da polinização
A sutileza de um beija flor
Com o poso suave
Da fêmea depois do amor.

A borboleta tem tudo a ver
Com a fragilidade da mulher
Nas acrobacias sensuais
Que só ela faz
Na dança corporal
No voo da imaginação
Na entrega de paixão.



PASSAGEM DA NOITE ( Carlos Drummond de Andrade )

É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.

E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
É noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.

Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.

De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!

26/02/2023

(Paulo Leminski - Toda Poesia)

 Eu

tão isósceles
você
ângulo
hipóteses
sobre o meu tesão
teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pises
pode ser meu coração.

22/02/2023

LEMBRA DE MIM ( Ivan Lins & Vítor Martins )


Lembra de mim
Dos beijos que escrevi
Nos muros a giz
Os mais bonitos
Continuam por lá
Documentando
Que alguém foi feliz

Lembra de mim
Nós dois nas ruas
Provocando os casais
Amando mais
Do que o amor é capaz
Perto daqui
Há tempos atrás

Lembra de mim
A gente sempre
Se casava ao luar
Depois jogava
Os nossos corpos no mar
Tão naufragados
E exaustos de amar



19/02/2023

AS PALAVRAS ( Rosa Lobato De Faria )

De manhã são de terra
as palavras que trago sobre a língua.
Sabem a trigo
ao sangue dos morangos
ao caule das papoilas.
Dizem coisas morenas e germinam.
São de terra. As palavras.
À tarde são de vento
e flutuam na seda das bandeiras
e deslizam na solidão das águias
e adejam no limiar dos plátanos.
Desabridas desatam véus e medos
e porque são de vento
constroem catedrais e tecem barcos.
Fazem bater janelas do lado do poente
por onde espreita
a ponta de marfim da lua nova.
Depois são música nos teus cabelos de harpa
E desfloram lilases.
Mas à noite são água.
As palavras são água.
Procuram os teus olhos enfeitados de estrelas
e salpicam safiras e matizes
no teu corpo de fonte.
Dizem regato e cantam.
São cântaros no poial da entrada
onde bebem as tuas mãos vagabundas.
Beijo a beijo
pus pérolas de chuva nos teus ombros.
E as palavras escorrem sendo água
na cachoeira azul-escura da noite.
Embalam sendo lago
Gestos caídos da margem
e vogam na fluidez do sono.
As palavras da noite, gota a gota
Orvalhando o silêncio
(redondo, o húmido coração do silêncio).
E devagar, na espuma do desejo
Acordam naus submersas. As palavras.
E correm sendo rio
na promessa de serem amanhã
de novo terra. E trigo.
Mas agora são mar.
Vem marear comigo.

18/02/2023

AMOR É TEU OLHAR QUE SOBE ( Armindo Trevisan )


           
Amor é teu olhar que sobe
e desce torna a subir ao ramo 

desce ao poço detém-se
na água porque a sede avança

e torna a subir em carícia 

pelo braço compraz-se
em resvalar pelo declive

do corpo em balanço 

como o movimento de um
pêndulo e assim nunca
sabes se o caminho 

para ele é ascensão
ou simplesmente espera
sobre um trilho de pedras 

mais do que uma ideia
sentimento porque

o subir e o descer crescem 

na viagem indiferentes
ao amor até que a ames
como se nunca a tivesses 

conhecido somente
fora de teu alcance.