28/07/2023

MARTELO (Ascenso Ferreira)

 Teu corpo é branquinho como a polpa do ingá maduro!

Teu seio é macio como a polpa do ingá maduro!
- E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá.
- E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá.
Por isso mesmo,
Minha Maria,
Eu, como a abelha
do aripuá
pra quem doçura
é sempre pouca,
só quero o favo
de tua boca.
Há veludos de imbaúba nessas redes de teus olhos,
que convidam, preguiçosas, a gente para o descanso,
um descanso à beira-rio como o ingazeiro nos dá!
Por isso mesmo,
Minha Maria,
de noite e dia
nessa corrida
triste de ganso,
para descanso
e gozos meus,
só quero a rede
dos olhos teus!
Só quero a rede macia dos teus olhos!
Só quero a doçura de grã-fina do teu beijo!
E na rede eu me deito,
cochilo e descanso,
tenho um sono manso
que me faz sonhar.
Sonho que és ingá
de doçura louca,
que na minha boca
vem se desmanchar,
que na minha boca
vem se desmanchar.

MULHER ANDANDO NUA PELA CASA ( Carlos D. de Andrade )

Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d'água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.

22/07/2023

FRUTO ENIGMÁTICO ( Rosí Finco )

Como fazer para do cítrico sentir o mel,

se não consigo extrair seu sêmen?
Das sementes da vida escolhi um réu.
Do sêmen do seu fruto encontrei um homem.

Fruto amargo que em reticências
Expressa o doce que não procuro
Observo suas raízes e experiências
Deparo-me com cortes através de um muro.

Um tronco de camadas ásperas
Folhas que surgem ambíguas.
Expelem com ira o néctar dos deuses!

BALADA DAS TRÊS MULHERES DO SABONETE ARAXÁ (Manuel Bandeira)

As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam.

Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá!
São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?

São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse…Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!

Se me perguntassem: queres ser estrela? queres ser rei?
queres uma ilha no Pacífico? Um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá.

07/07/2023

Hilda Hilst em "Cantares de Perda e Predileção"

 Talvez eu seja

O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

06/07/2023

ATÉ MESMO ( Anne Morrow Lindbergh )

 Aquele que amo, desejo que seja

livre:

Livre como um ramo despido
no alto de uma árvore,
alheio à luta entre os galhos
que se agitam em busca da luz.
Livre da escura mortalha,
onde tombam as sombras –
voltado para o olho dourado
do céu.
Livre como a gaivota,
sozinha num sopro de ar,
invisível,
onde
ninguém poderá tocá-la,
nenhuma voz alcançá-la,
ninguém vir
surpreendê-la.

Livre como uma folha
de grama,
em meio ao verde,
anônima,
entre inúmeras iguais,
que se espicham, se alinham,
recobrindo a terra,
felizes,
apontando o azul,
repartindo o sol,
envoltas,
ainda, uma a uma,
em frescas gotas
de orvalho.

Aquele que amo, desejo que seja
livre –
até mesmo de mim.

PAISAGEM ( David Mourão - Ferreira )

 Desejei-te pinheiro à beira-mar

para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)


DIVERSO AMOR ( Alceu Wamosy )

 Não quero o teu amor! O teu amor parece

Que feito deve ser de magnólias e luares!
Amor espiritual, casto como uma prece,
De uma pureza ideal de alvas toalhas de altares!

E o meu amor, mulher, é um amor que estremece
De desejos fatais, vagos, crepusculares…
Amor, ânsia de posse! Amor que vibra e cresce,
Ardente como o fogo e fundo como os mares!

Tu virás para mim, deslumbrada e inocente,
Com teu beijo primeiro a fremir castamente!
Nos teus lábios de flor, virgens de todo mal…

E há de fugir, ó luz, de ambas as nossas bocas
Palpitantes, febris, desvairadas e loucas,
Um arrulho de pomba e um uivo de chacal.

SE… ( Ana Pereira Do Nascimento ) in Poesia em Moçambique

 Se não podes passar sem mim um dia

Se o teu viver assim só é tristonho
Se tu sozinho não tens alegria
Se tudo para ti é enfadonho.

Se quando olhas para todos a mim vês
Se o meu olhar te aquece e ilumina
Se com o meu desprezo infeliz és,
Se um sorriso, um olhar meu te anima.

Se sonhas comigo estando acordado
Se mesmo a dormir tu tens-me a teu lado
Se mais que amor vulgar por mim já sentes

Se não te interessa a vida sem te amar
Se assim a morte te pode levar.
Então, sim; o mundo é nosso – não mentes!


É NA ALMA ( Ana Bailune ) in 15 Poemas volume I

 É só na alma,

Na branca paz da alma,
Na calma,
Ou na calda quente,
Fervente da alma,
Que desabrocham,
Ascendem,
Revelam-se.

É só no sangue,
No vermelho mais rubro,
No escuro,
Na luz viva
E ativa
Da alma,
Que eu me desaguo.

Não é o número
Dos meus passos,
Ou de minhas sílabas
Que determinam
O que me determina!
É só a alma,
Aquela parte de mim
Que está entre o ir
E o ficar,
O dizer

E o calar,
O morrer
E o viver,
O acordar
E o sonhar.

Sempre no meio,
Um pé no chão,
Outro na lua,
Um pensamento cúbico,
Outro pensamento súbito,
Uma nesga de treva
E outra nesga de luz.
E tudo vem da alma,
Esse lago que não seca,
Que não seca jamais.
É de lá que eles vem:
Os meus poemas,
E de nenhum outro lugar
Que tu ou qualquer
um queiram nomear!

HOMEM TRANSPORTANDO O CADÁVER DE UMA MULHER! ( Almada Negreiros)

 Quis-te tanto que gostei de mim!

Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

01/07/2023

CANÇÃO À AUSENTE ( Pedro Homem de Mello )

Para te amar ensaiei os meus lábios.
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos.
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio.
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!

17/06/2023

A NOITE UM BLOCO ( Alice Sant 'Anna )

 de madeira pintado de preto

fecha os olhos e tenta se aproximar
perceber seu tamanho, profundidade
se tem cheiro se é maciço
sem porta para entrar ou sair
o modo como a luz bate
suave, meia-luz, a mínima
necessária para se ver o bloco
se não fosse por ela o bloco
mal existiria, seria tudo um mesmo escuro
sem contorno entre montanha
seus pés e meio-fio, o bloco
cabe no seu quarto em cima da cama
ainda sobra algum espaço nas laterais
uma nesga de lençol, mas não
o suficiente para caber
ela também

RECORDAR É PRECISO(Conceição Evaristo), “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”.BH: Nandyala, 2008.

 O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos

A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto.
Sou eternamente náufraga,
mas os fundos oceanos não me amedrontam
e nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

HABITAT ( Carina Carvalho )

 teve uma vez que minha miopia

feriu a coragem com um golpe seco
na lombar.

desde então, para mim qualquer teia
é imensa ameaça, como esta viagem
de dois dias e oito pernas longas
que se movem uma por vez.

tomando o meu corpo.
sumindo comigo para dizer
em particular: não é aqui. teu lugar não é.

te procuro com o coração miúdo
e os olhos desistentes, fechados.
pedindo para não apontar mais
os bichos que constroem suas casas
no canto da madeira,
na casa dos outros.

pedindo, por minha vez,
– estrala minhas costas.

ABRIL ( Gianne Lorena )

 no vinil

pelo universo, Jhon, diz:
– nobody ever loved me like she does…

lembrei
da madrugada de Abril
de quando Costinha tocava Strokes
de quando avisei
que não haveria fim

fitou,
e, como se não existisse o tempo
seguiu, me beijando
e, em quatro horas
eu me vi
amando

à face de me perder
e sem querer, querendo
me perdi no erro
e nele, persisti

gritei pelas ruas
chorei, com o peito ardendo
e esse tal erro
foi o acerto
que mais me fez

sorrir


PAPEL DE SEDA ( Ana Martins Marques )

 Houve um tempo em que se usava

nos livros
papel de seda para separar
as palavras e as imagens
receavam talvez que as palavras
pudessem ser tomadas pelos desenhos
que eram
receavam talvez que os desenhos
pudessem ser entendidos como as palavras
que eram
receavam a comunhão universal
dos traços
receavam que as palavras e as imagens
não fossem vistas como rivais
que são
mas como iguais
que são
receavam o atrito entre texto
e ilustração
receavam que lêssemos tudo
os sulcos no papel e as pregas das saias
das mocinhas retratadas
as linhas da paisagem e o contorno das casas
eu receava rasgar o papel de seda
erótico como roupa íntima

SENHA E CONTRASSENHA ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

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AMOR NÃO FEITO ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

 No centro do que me lembro ficou

o amor não feito:
o que não foi rói o que foi
como a maresia

casa onde não morei país invisitado
praia inacessível avistada do alto
o que fazer do desejo
que não se gastou?

alegria não sentida amor não feito
prazer adiado sine die
palavra recolhida como um cão
vadio gesto interrompido beijo a seco

como parece banal agora
o que o barrou
compromissos decência covardia
não foi nada disso que ficou

mas precioso aceso
e perfeito
restou o desejo do amor
não feito

OLHAR DE AMOR ( Regina Lyra )

 Aquele olhar matreiro e ofegante

Trazia por trás das dunas o regaço.
Com o sorriso e o sonhar dos amantes,
Acolheram-se efusivos num abraço.

Sem precisar da palavra falada
O olhar, emudecido de carinho,
Vinha, feito passarinho,
Beijar o olhar lânguido, amado.

Naquele entardecer mágico,
Nada se via de mais grandioso
Do que aquele encontro vestal.

Todavia, o olhar de desejo e assédio
Suspirou nos sentidos desnudados:
E se amaram em uma noite profana.

ADIAMENTO ( David Mourão - Ferreira )

 Olhar-te bem nos olhos: que voragem!

Ouvir-te a voz na alma: que estridência!
É tão difícil termos a coragem
de nos vermos enfim sem complacência.

É tão difícil regressar da viagem,
e descobrir no rastro tanta ausência…
Mas os meus olhos, súbito, reagem.
À tua voz chega o silêncio e vence-a.

Nos pulsos vibra ainda o mesmo rio
que no delta dos dedos se extasia
e moroso reflui ao coração.

O gesto de acusar-te? Suspendi-o.
Mas foi só aguardando melhor dia
em que tenha lugar a execução.

18/05/2023

AS ROSAS ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

 Quando à noite desfolho e trinco as rosas

É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites tranparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

07/05/2023

VISÃO DE CLARICE LISPECTOR (Carlos Drummond De Andrade)

 Clarice,

veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.