29/07/2023

SEI O GOSTO ( Cláudia Marczak )

 Sei o gosto do seu beijo,

Seu cheiro me guia
Na escuridão da noite.
Onde está você agora
Que seu espírito engoliu meu coração ?
Por que não o encontro,
Amanhecendo ao meu lado,
Quando meu corpo chora seu abraço…
Não tente me entender,
Apenas me toque,
Deixa seu suor inundar
Minha pele com seu prazer
Beija-me
Possua-me
Que na minha solidão
Já não cabe o tamanho da sua ausência,
Pois quando vi seus olhos
Repletos de luz
O breu da minha tristeza
Iluminou-se de festa
E fez da minha estrada
Um rio de águas mornas
Desaguando no seu mar.
Deixe-me gritar seu nome
Deixe-me sangrar seu coração
Deixe-me lamber em seus lábios
Toda a dor que eles tem
E beber sua saliva de fel.
Não deixe meus olhos se fecharem,
Pois eles possuem os sonhos frágeis
De quem ama demais.

LADAINHA HORIZONTAL ( David Mourão - Ferreira )

 Como se fossem jangadas

desmanteladas,
vogam no mar da memória
as camas da minha vida 
Tanta cama! Tanta história!
Tanta cama numa vida!
Grabatos, leitos, divãs,
a tarimba do quartel;
e no frio das manhãs
lívidas camas de hotel 
Ei-las vogando as jangadas
desmanteladas,
todas cobertas de escamas
e do sal do mar da vida 
Tanta cama! Tantas camas!
Tanta cama numa vida!
Já os lençóis amarrados
tocam no centro da Terra
(que o reino dos desesperados
fica no centro da Terra!)
e os cobertores empilhados
são monte que não se alcança!
Só as tábuas das jangadas
desmanteladas
boiam no mar da lembrança
e no remorso da vida 
Homem sou. Já fui criança.
Tanta cama numa vida!
Nem vão ao fundo as de ferro,
nem ao céu as de dossel
Lembro-vos, camas de ferro
de internato e de bordel,
gaiolas da adolescência,
ginásios do amor venal!
Barras fixas. Imprudência.
Sem rede, o salto mortal
pra fora da adolescência 
E confundem-se as jangadas
desmanteladas
no mar da reminiscência 
Onde estás, ó minha vida?
Sono. Volúpia. Doença.
Tanta cama numa vida!
E recordo-vos, tão vagas,
vós que viestes depois,
ó camas transfiguradas
das furtivas ligações!
Camas dos fins-de-semana,
beliches da beira-mar 
Oh! que arrojadas gincanas
sobre os altos espaldares!
E as camas das noites brancas,
tão brancas!, tão tumulares!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Ó fragílimas jangadas,
desmanteladas!
E nelas há quem se arrisque
sobre as pétalas da vida!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Tanta cama numa vida!
E o amor? Tálamo, templo,
conjugação conjugal
O amor: tálamo, templo
– ilha num mar tropical.
Mas ao redor, insistentes,
bramam as ondas do mar,
do mar da memória ardente,
eternamente a bramar 
Já no frio dos lençóis
há prelúdios da mortalha;
e, nas camas, sugestões
fúnebres, torvas, pesadas
– Sede, por fim, ó jangadas
desmanteladas,
a ponte do esquecimento
prà outra margem da Vida!
Sede flecha, monumento,
ponte aérea sobre o Tempo,
redentora madrugada!
Se o não fordes, sereis nada,
jangadas
desmanteladas,
todas roídas de escamas
da margem de cá da Vida 
Pobres camas! Tristes camas!
Tanta cama numa vida!


 

 


 

 

E POR VEZES ( David Mourão-Ferreira )

 E por vezes as noites duram meses E por

vezes os meses oceanos E por vezes os
braços que apertamos nunca mais são os
mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses o
que a noite nos fez em muitos anos E por
vezes fingimos que lembramos E por
vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos só o
sarro das noites não dos meses lá no
fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah e por vezes
num segundo se evolam tantos anos

RESPIRA NÃO FALES ( David Mourão - Ferreira )

 Entre as duas nádegas 

o pávido sulco
tem aroma de áfricas 
e de uvas de outubro

Dirias que fora 
um silvo de morte 
a penetrar toda
a nocturna flora
até hoje intacta
que ainda aí tinhas

Respira Não fales
Murmura Não grites

Que travo de amoras
Que túnel escuro
Que paz no que sofres 
por mais uns minutos

o pescoço vergas submissa e frágil
tal o de uma égua que vai beber água
mas encontra a lua 

E junto da cama
a rosa viúva
com lágrimas brancas
já pede a meus dedos 
sacudido apoio
para a viuvez
em que a deixo hoje

Muito mais a norte 
os queixumes calas
E nem gemes
Gozas enquanto te invade
o suco da vara vertido no sulco

Vê como foi fácil
Respira mais fundo

SOBRE MIM CAVALGAS... ( David Mourão-Ferreira )

 Sobre mim cavalgas 

cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados
ondulas, avanças, 
retesas os braços,
comprimes as ancas.

Depois para a frente 
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres 
ocorre entretanto,
e o próprio galope
em que vais lançada 
Que lua te empolga 
Que sol te embriaga

Lua e sol tu és 
enquanto cavalgas 
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo 

Centauresa alada 
com os seios soltos 
como feitos de água.

Queria bebê-los 
quando mais te dobras 
Os cabelos esses 
sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua:
A de nos teus olhos 
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu.

CURTAS ( David Mourão-Ferreira )

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser a pele da minha pele?

Cintilação de luas
assim que te desnudas
às escuras

Diante do teu ventre
como não dizer "sempre"
novamente.

Ó lâmina e bainha
de outra espada ainda
Tua língua

Ruge. Reprende. Arrasa
Desde que sempre o faças
com as asas

Vem dos arcanos de outro tempo
ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente
que só na cama as almas ganham


ILHA ( David Mourão - Ferreira )

Deitada és uma ilha E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante eu morro
da vida que me dás todos os dias

28/07/2023

IMAGEM ( Dante Milano )

 Uma coisa branca,

Eis o meu desejo.

Uma coisa branca
De carne, de luz,

Talvez uma pedra,
Talvez uma testa,

Uma coisa branca,
Doce e profunda,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

Uma coisa branca,
Eis o meu desejo.

Que eu quero beijar,
Que eu quero abraçar,

Uma coisa branca
Para me encostar

E afundar o rosto.
Talvez um seio,

Talvez um ventre,
Talvez um braço,

Onde repousar.
Eis o meu desejo,

Uma coisa branca
Bem junto de mim,

Para me sumir,
Para me esquecer,

Nesta noite funda,
Fria e sem Deus.

MARTELO (Ascenso Ferreira)

 Teu corpo é branquinho como a polpa do ingá maduro!

Teu seio é macio como a polpa do ingá maduro!
- E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá.
- E há doçura de grã-fina no teu beijo, que é todo ingá.
Por isso mesmo,
Minha Maria,
Eu, como a abelha
do aripuá
pra quem doçura
é sempre pouca,
só quero o favo
de tua boca.
Há veludos de imbaúba nessas redes de teus olhos,
que convidam, preguiçosas, a gente para o descanso,
um descanso à beira-rio como o ingazeiro nos dá!
Por isso mesmo,
Minha Maria,
de noite e dia
nessa corrida
triste de ganso,
para descanso
e gozos meus,
só quero a rede
dos olhos teus!
Só quero a rede macia dos teus olhos!
Só quero a doçura de grã-fina do teu beijo!
E na rede eu me deito,
cochilo e descanso,
tenho um sono manso
que me faz sonhar.
Sonho que és ingá
de doçura louca,
que na minha boca
vem se desmanchar,
que na minha boca
vem se desmanchar.

MULHER ANDANDO NUA PELA CASA ( Carlos D. de Andrade )

Mulher andando nua pela casa
envolve a gente de tamanha paz.
Não é nudez datada, provocante.
É um andar vestida de nudez,
inocência de irmã e copo d'água.

O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.

Pêlos que fascinavam não perturbam.
Seios, nádegas (tácito armistício)
repousam de guerra. Também eu repouso.

22/07/2023

FRUTO ENIGMÁTICO ( Rosí Finco )

Como fazer para do cítrico sentir o mel,

se não consigo extrair seu sêmen?
Das sementes da vida escolhi um réu.
Do sêmen do seu fruto encontrei um homem.

Fruto amargo que em reticências
Expressa o doce que não procuro
Observo suas raízes e experiências
Deparo-me com cortes através de um muro.

Um tronco de camadas ásperas
Folhas que surgem ambíguas.
Expelem com ira o néctar dos deuses!

BALADA DAS TRÊS MULHERES DO SABONETE ARAXÁ (Manuel Bandeira)

As três mulheres do sabonete Araxá me invocam, me bouleversam, me hipnotizam.

Oh, as três mulheres do sabonete Araxá às 4 horas da tarde!
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá!

Que outros, não eu, a pedra cortem
Para brutais vos adorarem,
Ó brancaranas azedas,
Mulatas cor da lua vem saindo cor de prata
Ou celestes africanas:
Que eu vivo, padeço e morro só pelas três mulheres do sabonete Araxá!
São amigas, são irmãs, são amantes as três mulheres do sabonete Araxá?

São prostitutas, são declamadoras, são acrobatas?
São as três Marias?

Meu Deus, serão as três Marias?

A mais nua é doirada borboleta.
Se a segunda casasse, eu ficava safado da vida, dava pra beber e nunca mais telefonava.
Mas se a terceira morresse…Oh, então, nunca mais a minha vida outrora teria sido um festim!

Se me perguntassem: queres ser estrela? queres ser rei?
queres uma ilha no Pacífico? Um bangalô em Copacabana?
Eu responderia: Não quero nada disso, tetrarca. Eu só quero as três mulheres do sabonete Araxá:
O meu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá.

07/07/2023

Hilda Hilst em "Cantares de Perda e Predileção"

 Talvez eu seja

O sonho de mim mesma.
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra.
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja.
E ínfima, tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

06/07/2023

ATÉ MESMO ( Anne Morrow Lindbergh )

 Aquele que amo, desejo que seja

livre:

Livre como um ramo despido
no alto de uma árvore,
alheio à luta entre os galhos
que se agitam em busca da luz.
Livre da escura mortalha,
onde tombam as sombras –
voltado para o olho dourado
do céu.
Livre como a gaivota,
sozinha num sopro de ar,
invisível,
onde
ninguém poderá tocá-la,
nenhuma voz alcançá-la,
ninguém vir
surpreendê-la.

Livre como uma folha
de grama,
em meio ao verde,
anônima,
entre inúmeras iguais,
que se espicham, se alinham,
recobrindo a terra,
felizes,
apontando o azul,
repartindo o sol,
envoltas,
ainda, uma a uma,
em frescas gotas
de orvalho.

Aquele que amo, desejo que seja
livre –
até mesmo de mim.

PAISAGEM ( David Mourão - Ferreira )

 Desejei-te pinheiro à beira-mar

para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)


DIVERSO AMOR ( Alceu Wamosy )

 Não quero o teu amor! O teu amor parece

Que feito deve ser de magnólias e luares!
Amor espiritual, casto como uma prece,
De uma pureza ideal de alvas toalhas de altares!

E o meu amor, mulher, é um amor que estremece
De desejos fatais, vagos, crepusculares…
Amor, ânsia de posse! Amor que vibra e cresce,
Ardente como o fogo e fundo como os mares!

Tu virás para mim, deslumbrada e inocente,
Com teu beijo primeiro a fremir castamente!
Nos teus lábios de flor, virgens de todo mal…

E há de fugir, ó luz, de ambas as nossas bocas
Palpitantes, febris, desvairadas e loucas,
Um arrulho de pomba e um uivo de chacal.

SE… ( Ana Pereira Do Nascimento ) in Poesia em Moçambique

 Se não podes passar sem mim um dia

Se o teu viver assim só é tristonho
Se tu sozinho não tens alegria
Se tudo para ti é enfadonho.

Se quando olhas para todos a mim vês
Se o meu olhar te aquece e ilumina
Se com o meu desprezo infeliz és,
Se um sorriso, um olhar meu te anima.

Se sonhas comigo estando acordado
Se mesmo a dormir tu tens-me a teu lado
Se mais que amor vulgar por mim já sentes

Se não te interessa a vida sem te amar
Se assim a morte te pode levar.
Então, sim; o mundo é nosso – não mentes!


É NA ALMA ( Ana Bailune ) in 15 Poemas volume I

 É só na alma,

Na branca paz da alma,
Na calma,
Ou na calda quente,
Fervente da alma,
Que desabrocham,
Ascendem,
Revelam-se.

É só no sangue,
No vermelho mais rubro,
No escuro,
Na luz viva
E ativa
Da alma,
Que eu me desaguo.

Não é o número
Dos meus passos,
Ou de minhas sílabas
Que determinam
O que me determina!
É só a alma,
Aquela parte de mim
Que está entre o ir
E o ficar,
O dizer

E o calar,
O morrer
E o viver,
O acordar
E o sonhar.

Sempre no meio,
Um pé no chão,
Outro na lua,
Um pensamento cúbico,
Outro pensamento súbito,
Uma nesga de treva
E outra nesga de luz.
E tudo vem da alma,
Esse lago que não seca,
Que não seca jamais.
É de lá que eles vem:
Os meus poemas,
E de nenhum outro lugar
Que tu ou qualquer
um queiram nomear!

HOMEM TRANSPORTANDO O CADÁVER DE UMA MULHER! ( Almada Negreiros)

 Quis-te tanto que gostei de mim!

Tu eras a que não serás sem mim!
Vivias de eu viver em ti
e mataste a vida que te dei
por não seres como eu te queria.
Eu vivia em ti o que em ti eu via.
E aquela que não será sem mim
tu viste-a como eu
e talvez para ti também
a única mulher que eu vi!

01/07/2023

CANÇÃO À AUSENTE ( Pedro Homem de Mello )

Para te amar ensaiei os meus lábios.
Deixei de pronunciar palavras duras.
Para te amar ensaiei os meus lábios!

Para tocar-te ensaiei os meus dedos.
Banhei-os na água límpida das fontes.
Para tocar-te ensaiei os meus dedos!

Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!
Pus-me a escutar as vozes do silêncio.
Para te ouvir ensaiei meus ouvidos!

E a vida foi passando, foi passando...
E, à força de esperar a tua vinda,
De cada braço fiz mudo cipreste.

A vida foi passando, foi passando...
E nunca mais vieste!