05/12/2023

ODE ( José Anastácio da Cunha )

Já quasi até morria

C’os olhos nos da amada.

E ela que se sentia

Não menos abrasada:

– “Ai, caro Atfes! – dizia –

Não morras inda, espera

Que eu contigo morrer também quisera”

A ansia com que acabava

A vida, Atfes, refreia,

E, enquanto a dilatava,

Morte maior o anseia.

Os olhos não tirava

Dos do ídolo querido,

Nos quais bebia o Néctar diluído.

Quando a gentil Pastora,

Sentindo já chegada

Do doce gôsto a hora,

Com a vista perturbada

Disse, tremendo: – “Agora

Morre, que eu morro, amor”

– “E eu – disse ele – contigo”

Viram-se desta sorte

Os dois finos amantes

Mortos ambos de um tal corte;

E os golpes penetrantes

Desta casta de morte

Tanto lhe agradaram,

Que para mais morrer recuscitaram.



LEITURA ( E. M. de Melo e Castro )

é lendo que eu aprendo o que já sei

é vendo que eu entendo o que me rói

é tendo que eu vendo o que me dei

é na merda do nada que o cu dói


como não quer a coisa quero a coisa

o coiso quer a coisa quer a casa

em que penetre o coiso como poisa

no peixe a água e a ave bate a asa


e como como o cono como a cona

e quando como a cona como a cama

de pé de costas ou no bico da mama


mas é vindo que eu vou até ficar

ouvindo e vendo e lendo o mar:

como é belo o que me dás de cu pró ar!





POEMAS ERÓTICOS (E. M. de Melo e Castro)

 Dizeres de uma velha senhora

erros certos     mau perfume     ardor ardente

em minha cona todos se juntaram

os erros e os perfumes tresandaram

que um caralho pra mim não dá somente

foram precisos mil milhões de machos

para dessedentar minha tesura

que se derrete em águas e em lagos

como os não há na bíblica escritura

fodi é certo mas comi do bom

do mau e do pior que dá mais gozo

e do assim assim em qualquer tom

e agora que chega a hora do repouso

não me resigno e quero mais fanfarra

que o osso no osso ainda me dá gozo!


REDONDO CU ( E. M. de Melo e Castro )

 De redondo cu

eu cúbica te quero

como cólera química

ou paz comum

que nada tão navega

a tua nádega núbica

de redondo nenúfar

nu furioso

no volume do cu

velo o teu lume

ocioso cio de culher

nos colhões que te encosto

pelas costas

no cu que te descubro

pelo olho

no volume que rasgo

pela vela

do duro coração

na cumoção

de ter-te pelas tetas

culocada na posição

decúbita

culada

da cumunicação


POEMAS ERÓTICOS (E. M. de Melo e Castro)

 E de repente a língua se liberta

do peso que teve.

água corre na água.

o corpo livre

e abrem-se os sentidos

no orgasmo da luz

ver e não ver

ouvir e não ouvir

tocar e não tocar

cheirar e não cheirar

sabor e não sabor

tudo é saber

da mesma forma o peso

do não peso

o dar do receber

a posse do poder

como se de repente

as mãos o peito

os pés as pernas

fossem sexos unidos

ou os sextos sentidos

somados divididos

no momento de vir





 

GREEN GOD ( Eugénio de Andrade )

Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia do ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
de uma flauta que tocava.


 



02/12/2023

ME COMOVEM ( Eliane Pantoja Vaidya )

 Me comovem

tuas mãos limpas
e tua boca suja

HAI - KAI ( Alice Ruiz )

 quem ri quando goza

é poesia
até quando é prosa

ESTRELAS QUE ESCREVEM ( Ludmilla Abreu )

 Não sei ser poetisa

sem ter um céu

Sem olhar pra lua cinza

e Sol – letrar no meu papel


Não sei fazer poesias

sem namorar as estrelas

Pra ler as nuvens vazias

eu preciso escrevê-las


Só sei ser poeta

e travestir-me de Sol

Sei esquentar na tela

o que não queima o lençol


Eu só sei ser aluna

das coisas que o céu reclama

Escrevo, enquanto a Lua

Faz noite em outra cama


CANTIGA PARA NÃO MORRER ( Ferreira Gullar )

 Quando você for se embora,

moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Moça de sonho e de neve,
me leve no esquecimento,
me leve.

25/11/2023

RENDIDA AO TEU AMOR ( Natália Nuno )

Queria seguir a corrente
Das águas do teu mar
E aprisionar-me a ti únicamente
Rendida ao teu amor ficar.
E viver em ti e contigo
Desde o ressurgir ao morrer do dia
Até ao levantar das estrelas
Até que a lua sorria.

Dois corpos que se incendeiam
Que morrem no mesmo abraço
Queria ficar nessa teia
Seguir contigo teu passo.
Ser ave livre de repente
Nessa luz amanhecida
Ser tua água transparente
Ser teu poema, tua vida.

Ser a paisagem do teu olhar
O horizonte da tua memória
Ser a fuga e o aproximar
Renascer de novo na tua desmemória.
Percorrer o teu corpo, sedenta
Reacender o alento apagado
Esquecer as rugas, como quem inventa
Que o Sol entrou em nós inesperado.

Banhar as palavras em insanidade
Lançá-las do alto dos rochedos
Fazê-las brotar em fontes azuis de saudade
E rodopiá-las na febre dos meus dedos.
E eu continuo a querer!
Estar contigo até ao esquecimento
Deixar os anos decorrer
Em fantasias ébrias
Largar o pensamento.

BRISA DO MAR ( Isabel Morais Ribeiro Fonseca )

Sinto no meu corpo
Uma força que me leva até ti
Quando o vento passa e acaricia o meu rosto
Sinto que são as tuas mãos a tocar no meu corpo
Amo-te com os teus defeitos, não sou perfeita
Vieste como a brisa mar eu quero beijar-te
E levar-te ao céu sentir o teu calor
Amar-te é entregar-me de corpo e alma
Tu és fascinante é quero perder-me em ti amor
Quero beijar-te a noite toda e sem pressa
Sentir o sabor da tua boca, querer sentir
O teu corpo e o meu estremecer de prazer de amor.

 

ENTRE A PELE E A MEIA ( Paulo Sérgio Rosseto )

Quantos apelos há entre a pele e a meia
Serena seda que recobre a perna
Encanta os poros, esperta os olhos
Aveluda o tato, arrepia a penugem
Traz volúpia, seda os lábios
Navalha a carne, orvalha a alma

Tanto veneno está nesta candura rara
Que divisa a faixa, apreende à teia
Reaviva as margens, festeja as bordas
Margeia a taça, absorve a brisa
Rosa macia de pétala farta
Amordaça o senso, incandeia

Magna estrofe, carinhosa vasta
Mansa e plácida cheirosa lua
Tens a malícia sedenta exposta
Da serena vontade de mergulhar às cegas
Na onda abrupta entre o mar secreto
E a enxurrada arrítmica da vaga nua


GOSTO DAS MULHERES QUE ENVELHECEM ( Nuno Júdice )

Gosto das
mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.

DESEJO PRIMEIRO ( Sérgio Jockyman )

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
Eque se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

A HORA DA PARTIDA ( Sophia de Mello Breyner Andresen )

A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
As árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.


RETRATO ( Luís Miguel Nava )

 A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

quem, tendo-a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele, porém, não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.

21/11/2023

PEQUENO SANGUE ( Maria F. Roldão ) in Volta D'Mar, 2021

 Dou sangue ao vestido.

Abro-o com o coração desabotoado
e enfio-me na primeira trégua do linho.
 
Desço o vestido pela cabeça, ombros,
abro-o nas ancas onde fica a levitar
com a pele das fibras e beijar a pele.
 
Fotografo o vestido
e tu transforma-lo em fumo de catarse
e oferece-lo aos deuses do silêncio.
 
Desenhas uma casa com
o meu corpo. Dispo-me.
 
Engomas o sangue que despi.