22/07/2024

XVII ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

 Amanheço com o teu beijo de sol

Enquanto é a lua
que ainda esplende nos meus olhos
fechados
esbraseados pelo ardor da tua voz.
O amarelo-purpúreo-alaranjado
das palavras
aquece, súbito, meu ouvido
— poço de silêncio num profundo azul.

E aos poucos cada poro se transforma
da mais mínima estrela
em translúcida rosa.

Entardeço em saudades espraiadas
— pólen que o vento esparge na cidade
para semear pontos de luz por toda parte.

IV ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

Para teu corpo

teu porto
ansioso por navios
me faço água

suave, me deito
em tua terra
e corro pelos vãos
das tuas pedras

Ágil, ardente
de vento me faço
e quero
inaugurar o fogo
em tuas trevas

II ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

 Nada te peço, porém

aqui tens o que desejas

Uma lâmina de luz sobre o espelho
a lua no parapeito
a argamassa da noite
a aquarela do dia:
desenhos do sol na parede
o fogo subindo na tarde
a música a fazer uma teia
no telhado do silêncio

Eis a minha casa.

Nada te peço, porém
aqui tens o que desejas

A moringa sobre a mesa
Maçãs na cesta de palha
Vinho no copo de prata
Este pão, este alimento

Minha boca feito fruta
delibando a tua fala
E meu corpo feito potro
feito moço, feito doce,
feito poço e labirinto.

SE SEU SEXO ( Marize Castro )

 Se seu sexo grisalho me convida a morrer

eu aceito, abro-me: ninho e pântano

seus olhos me comem, abandono cidades
   — circulo o antigo átrio —

em cada pedra, um gozo com sua âncora
em cada alvorada, a fé mais primitiva

eternidades existem?

perguntam velhas moças dentro de carrosséis
imortalizadas no mais alto céu

BAILES SUBMERSOS 2. SOLO COM CHAMPAGNE ( Raiça Bomfim )

 Hoje eu sou aquela que voltou

do continente
a que caminha na praia remota
em plena madrugada
o vento patinando seu cachecol
a fina moça das areias

Hoje sou aquela do sapato perdido
na onda arrematada
a que traga a última réstia da lua
desnuda-se com toda a classe
e deita-se no mar
pra estudar a língua dos peixes

NA SUPERFÍCIE ( Marina Rabelo )

 na superfície

do nosso encontro
ficaram teus medos.
teus dedos covardes
apontando todas as armas,
o arame farpado da desilusão
traçando longos voos de volta.
os riscos caíram rasos
sobre nossos pés.
aquele velho c'est la vie
enquanto eu só queria, baby,
meu corpo deslizando sobre o teu
e o cheiro do talvez, quem sabe.

DUO (Rosa Ramos )

 O trágico

funâmbulo
com seu
tentáculo
insólito
vai trôpego
ao encontro
da moça
sonâmbula.
Sua nádega
balança
na corda
nem firme
nem bamba
a linha
dinâmica.
Das faces
as pálpebras
caem
no etéreo
instante.
Caem
unânimes
os dedos
de plasma.
Joelhos
desmontam.
Dois pés
falseiam
diante
da moça
fantasma.
O trágico
funâmbulo
desmaia.
Desaba
no vácuo
de amor
que a moça
inventa
com passos
de pânico.

DESDE O CHÃO ( Eugénio de Andrade )

 A pele porosa do silêncio

agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também, a boca procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.

Palavras... Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras —
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estreme, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.

MODO DE AMAR ( Astrid Cabral ) in Coração à Solta  2ª ed. - Prefácio de Alexei Bueno; Kade, Maricá - RJ, 2021

Amor como tremor de terra

Por Natália Klussmann

 A relva

Úmida de orvalho
Enverga cada lâmina
(pequenas línguas em um deleite absoluto)
Até que se desprenda o gozo
Da noite,
Do sereno,
Da madrugada.
E nós, insones,
Insaciáveis,
Repousamos nossa nudez
No orgasmo da natureza.

EXERCÍCIO FÍSICO ( Laryssa Carreiro )

 sinto umas paradas que parece que

esquenta a gente de dentro pra fora
escorre pelas pernas, feito cash
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ chu
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ei
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ ra
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ arrepia os pelos

seca a gar gan ta

molha a calcinha

tem sabor ácido
de suor com erva-daninha

evapora a realidade

traz sorte e prosperidade

faz bem pra ansiedade

REEDUCAR - SE (João Melo )

 sem competição

dentro de casa

fora de casa

buscar um empate
o melhor resultado

um aprendizado
de cheiros, permissões

me estuda
e me chupa
e me lambe
e me fode, enfim

suor, sussurros
exercícios exauridos

e tudo te devolvo
na ponta do lápis
na ponta da língua
o gozo

juntos, sem pressa
a procurar
todos os líquidos
todos os lábios
todas as letras
da igualdade

NA PONTA DA LÍNGUA ( Janaína Steiger )

 na ponta da língua

o poema preferido
um verso famoso
a última música chiclete que explodiu

na ponta da língua
poucos contatos de emergência
datas de aniversário
duas ou três cifras de violão

na ponta da língua
uma receita bem simples
a fórmula de bháskara
tabuada alfabeto e olhe lá

na ponta da língua
o relevo da pele
todas as linhas do corpo dela
desenhadas pelo grafite

da ponta da minha língua

REVOLUÇÃO ( Janaína Steiger )

 8 mil terminações nervosas ali

70% das mulheres sem conseguir chegar lá

é revolucionário mas não devia
fazer uma mulher gozar

SONETO DE ANUNCIAÇÃO ( BF )

 Despida do seu manto virginal,

Maria deita-se mole na baia.

Os dedos procurando o grelo santo
sob a renda pasmosa da calcinha.

Entre as curvas altas de suas coxas,
Maria embala o sêmen que a deseja.
Perfume de milagre anunciado,
o Anjo, em felação, missa corteja:

“Escute o cuspe amargo na alcova
que fecunda o Corpo-Sangue salvador,
e faça dele o Filho da Nova Era.”

Maria, olhos no céu, boca seca,
geme e se engasga com o fervor
de quem ama o sacramento da Matéria.

LISTA DE PREFERÊNCIAS ( Bertold Brecht )

 Alegrias, as desmedidas.

Dores, as não curtidas.

Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexequíveis.

Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.

Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.

Domicílios, os passageiros.
Adeuses, os bem ligeiros.

Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.

Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.

Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.

Cores, o rubro.
Meses, outubro.

Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.

Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

A MULHER DE LOT ( Wislawa Szymborska )Tradução de Regina Przybycien

Dizem que olhei para trás curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.
Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração – amarrando a tira da sandália.
Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.
Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.
Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.
Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia.
Nossas duas filhas já sumiam para lá do cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.
Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.
No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.
Já não eram bons nem maus –simplesmente tudo o que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.
Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.
Ou foi só quando um vento me bateu,
despenteou o meu cabelo e levantou meu vestido.
Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma vez, outra vez.
Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.
Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.
Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.
Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.
Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.
Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.
Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.
É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.
 

À BELEZA ( Miguel Torga )

 Não tens corpo, nem pátria, nem família, 

Nem te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos, 
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz, uma harmonia, 
Uma linha sem traço...

Mas sem corpo, sem pátria e sem família, 
Tudo repousa em paz no teu regaço!

Ana Miranda, In Prece A Uma Aldeia Perdida

 No tempo em que eu tinha quintal

Foi quando eu era menina
Tinha pai e um desespero
De desbravar este mundo
Mas ele me desbravou
E mansa do coração
Mas brusca na atitude
Na aptidão messalina
Vivendo meus pesadelos
Numa pena e num tinteiro
Ferindo por ser ferida
Perdendo por ser perdida
E encontrada depois
Na barra do meu vestido
Na juventude das coxas
Na inocência esquecida
Nas roxas saias de Deus
Ah quantas vezes fui rude
Ah tantas vezes fui má
Tudo passa tudo passa
Não passa o que eu desejar
A menina tão afoita
A menina tão aflita
Às turras com o destino
Como fosse condenada
A um nunca desistir
Flor de uma obsessão
Flor da paixão ardente

BEBER TODA A TERNURA ( Mia Couto ) in 'Raiz de Orvalho'

 Não ter morada

habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

UM NAVIO ( Angela Melim )

 A solidão é um navio.

Só o que me move é a pá da solidão
o leme.
Se não gozo
suspiro
cristas suspensas
pedras de sal
fiapos de mar
— a maior boca
a mais
voraz.
Mas no seu fundo longínquo
âncora
os leitos de areia e seus lençóis limpíssimos
os peixes cegos
a paz.

NESTA NOITE, NESTE MUNDO ( Alejandra Pizarnik )

 Nesta noite neste mundo

as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que queremos dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não é o da re-surreição
de algo parecido com negação
do meu horizonte de maldoror com o seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(todo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se esconde
a pedra da loucura
corredores escuros
eu os percorri a todos
oh fica um pouco mais conosco!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem sacou uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais conosco!

as degenerações das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os comi e me engasguei
não posso mais de não poder mais

palavras dissimuladas
tudo se desliza
para a negra liquefação

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais desnecessário
                que não sirva nem para
                 ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras

nesta noite neste mundo

O AMOR NÃO É TUDO.... ( Edna St. Vincent Millay )

 O amor não é tudo: não é comida nem bebida

Nem sonho, nem um teto para proteger sua cabeça da chuva;
Não é um mastro flutuante para os homens que se afundam
E boiam  e  afundam, boiam e afundam de novo;
O amor não pode encher de ar o pulmão ferido
Nem limpar o sangue ou colar o osso quebrado;
No entanto, neste momento em que te falo
Muitos homens estão perto da morte apenas por falta de amor.
Poderia ser que num momento difícil,
Presa à dor e implorando para ser libertada
Ou levada por uma necessidade superior à minha vontade,
Eu tivesse que vender teu amor por um pouco de paz,
Ou trocar a memória desta noite por comida.
Poderia ser. Mas acho que não o faria.