13/10/2024

POEMA DE AMOR ( Ana Martins Marques ) in Da Arte das Armadilhas

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UMA BOSSA ( Lorena Martins )

 o meu amor me deixou

imune à gripe
aos flertes e às flores
que murcham nas escadarias

o meu amor me deixou boquiaberta
suada como se vestisse
mil invernos

o meu amor não me deixou
na foto do ano que esquecemos
o meu amor segurou-me o braço
e como um pássaro
veio comigo e com a mesma fuga
dos olhares

o meu amor anda num feitiço
que só de acordar
eu perco todos os ponteiros
nua e coberta de ontem
eu posso vê-lo partir

pelo ruído da noite.


24:04 ( Lorena Martins )

 ando assim

a buscar os pássaros em meio a tanto barulho
a chorar pinturas de Boldini
a lembrar-me de ti.

ando assim
ao vento
deixando seu abano soar suave
a rir de minhas saias
a fazer-me dançar os pés

ando assim
sincera e sonora
sentindo o ventre pulsar
embalado a poesias
agarrado pelos dedos
silenciado às pinceladas

escrevo-te assim
subitamente
deixando com que as palavras me tomem
descompassadas
a transbordar

escrevo-te assim
como quem corta o espelho
com a unha do verso.

13:12 ( Lorena Martins )

 ando louca de paixão

a arrastar meu olhar pelas pernas dos homens
para que então minhas volúpias se abram
debaixo das toalhas
úmidas
para que então as coxas enervem-se
a enredar as saias
e debaixo dos meus olhos
revele-se ele todo
envergonhado
e nu

(o pensamento, luxurioso, arranca as roupas)

ando às cachoeiras
sorrindo às escondidas
os lábios descasando-se a ruborecer a língua
a lamber como quem pinta vermelhos toscos
nas estranhezas do torso
a rasgar-se sob as pálpebras noturnas
deixando a uva vulva volver-se

veludo molhado.


NULA PARTE ( Lorena Martins )

 nula parte

é meu ar apoiando-se na janela:
os olhos calados de sol
e o rosto queimando
à boca entreaberta.

(uma folha demora a cair sobre mim)

entre os versos à porta
talhados à ponta de chave
desabo singela
e música.

é meu o olhar que se abre na fresta do banho
é tua a ausência que escorre
inunda os pés
deságua silêncios.

(queria mesmo a cama das tuas pernas)

não há mais chão para o cansaço
sou pluma e cinzas flutuando pela casa
a encarar a porta
a cegar à janela

a chorar nua.

na soleira do quarto
abandono a cabeça entre as mãos
até sentir o cheiro da minha pele

vazio.




VEJA SÓ ( Lorena Martins )

 veja só

é como se eu tirasse os sapatos
estendesse minha perna sobre a mesa
e
antes de rasgar o vestido
dedilhasse teu rosto.

desfiz o passo
dei meia volta
caí no teu colo
balancei humores
ritmei os colares
e me abandonei.

é como se eu sentisse
ao soar o corpo
tu me olhares a seguir:

eu não te encaro.

diante do espelho
carrego a água
mais palpável do que eu.

COMO UM MÁGICO ESCONDIDO ( Lorena Martins )

 I

como um mágico escondido
atrás dos livros
meu amor me olha com gosto
de lágrima

do fim de tarde vazio
restam as pernas cruzadas
sobre o vaso e as flores
enroscadas
pétala a pétala na pele
do meu amor que me fita
triste
a mão macia apoiada
no ventre de um verso.

II

espero por teus olhos,
meu demorado amor,
detendo-se sobre o meu colo
com sua saliva
o cheiro áspero e eterno
da sua saliva.

A BELEZA ( António Botto ) in As Canções de António Botto

 A beleza

Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza
Não é mais do que o desejo
Fremente
Que nos sacode…
– O resto, é literatura.

QUANTO ME QUERES? ( António Botto )

 Quanto, quanto me queres? — perguntaste

Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida.

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar.

Não perguntes, não sei — não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.

BEIJEMO-NOS APENAS ( António Botto )

 Não. Beijemo-nos, apenas,

Nesta agonia da tarde.

Guarda –
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro.

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos. – És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!,
– Que mais precisamos nós?

PREPARO ( Bruna Lombardi )

 Me preparo para ser o que sou

e me preparo lenta
como lentamente se preparam
poções, venenos, a gestação.

Lentamente como se detona uma explosão,
como voam os estilhaços pelo espaço.

Me preparo para ser o que sou
com a lentidão de um voo
e me preparo sem pressa.

Tudo o que virá agora começa
lento como o uivo dos lobos,
o derramar da lava dos vulcões.

Lenta como a vingança de famílias
que atravessa gerações.

Lenta como a luz veloz,
o gosto do alcaçuz, a voz
de alguém que chama.

Lenta como a bala de revólver
que se projeta e atinge.

Lenta como a flecha
que se arremessa no alvo
e acerta o ponto exato.

Como o tato do homem que me toca
lentamente e toca e toca
e toca essa música
que há anos me acompanha.

Me preparo para ser o que sou
Simples e tamanha.

O AMOR DA SEREIA ( Aleilton Fonseca )

Eu amo tanto essa mulher morena
e linda que surge nas ondas do mar.
E ela vem – e de longe me acena –
do reino das águas de Yemanjá.

Eu lhe ofertei uma rosa vermelha
para saber se ela ainda me quer.
– Sereia morena, olhar de esguelha,
tu não queres ser minha mulher?

Ela veio, beijou a rosa e me sorriu,
mas só me deu um punhado de areia.
Depois mergulhou, num gesto sutil,
atrás da pedra que a maré margeia.

Uma luz surgiu nas ondas, a meu lado,
– e eram cores e sombras da lua cheia.
Eu senti correr no rosto o calor salgado,
dois versos de meus olhos sobre a areia.

Eu supliquei: vem a mim, mulher amada,
vem receber esta joia rara, perante o mar:
é meu coração que palpita em disparada,

e só existe em meu corpo para te amar. 



07/10/2024

CORAÇÃO - trecho ( Caio Fernando Abreu )

 Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos.


05/10/2024

DO JARDIM ( Anne Sexton )

Vem, meu amado.
olha os lírios.
Temos tão pouca fé.
Falamos demais.
Joga fora teu punhado de palavras
e vem comigo observar
os lírios se abrindo em campo tão vasto,
ali crescendo como iates,
guiando devagarinho as pétalas
sem enfermeiras nem relógios.
Olhemos a paisagem:
uma casa cujos salões enlameados
são adornados por nuvens brancas.
Oh, joga fora tuas palavras, as boas
e as ruins. Cospe
tuas palavras como pedras!
Vem cá! Vem cá! 
Vem comer minhas frutas deliciosas. 



CATAVENTO ( Flora Figueiredo )

A cada esquina,
há um cheiro de verão
que me entontece,
afaga,
contamina.
já não sei mais a direção.
Que sorte a minha perder o Norte!
Se os meus pontos cardeais
fossem definidos,
não caberia esse amor tão proibido,
que sofre, goza muito e pede mais.


EPIDERME ( Flora Figueiredo )

Você não precisa ser tão doce
nem me azeitar tanto,
nem me embebedar dos cantos das
sereias.
Você não precisa fazer coisas
adoravelmente feias
para me subjugar.
Deixe apenas a pele falar com veemência,
que dela me alimento,
com devoção e dependência,
que nela me visto
e arrisco viver subcutânea.
Núcleo,
barro,
cerne,
massa.
Colada ao plasma,
a cada célula que se destaque e se desfaça,
assim como uma liga,
feito visgo,
feito viga.
Você não precisa se empenhar
para me fazer render subordinada,
se sua pele me mantém amalgamada
como se nascera talvez do seu olhar.
Você não precisa mesmo fazer nada.
Basta estar.


LEGADO ( Mariana Botelho ) in O Silêncio Tange O Sino

navegar o centímetro do gesto
no mar infinito do verbo

é teu o que te for dado:
o olhar cansado preso à teia,
o medo já domado da fera,
o beijo.

tudo o mais
entrega

eu te quis em meio a essas violentas
portas enquanto
o amor se confundia em
minhas pernas se perdia
entre as frestas

inundava meus vãos

GAROTAS E GAROTOS ( Ana Lucia Ometto ) in Bolhas de Sabão

Joga a água no rosto
Esquece o tapa na cara
Bota o queixo para cima
Relaxa um pouco na brisa
Afrouxa o que está apertado
Joga fora se dá agonia
Esquece a porta trancada
Abre a sua, menina!
Retira a mágoa do corpo
Penteia o cabelo que é bom
Ou deixa à revelia
Faz as unhas, tigresa
Escova os dentes
Passa batom
E beija
Fica de bem com você
Olha para o espelho, menina!
Revive a grande magia
Lembra-se do vinho que é bom
Pega a taça escondida
Brinda com um amigo
A poeira do dia
Estoura pipoca, Maria!
Abraça sua companhia
Escuta o que ele te fala
Um passeio não custa nada
Se entregue nesta folia
Não perca o bonde do bem
Não perde a gana que tem
Equilibra na fé
Vai surfando nas esquinas
Não perde o movimento nas curvas
Que a vida é bela, menina!

O BEIJO ( Ana Martins Marques ) in O Livro das Semelhanças

Ao me beijar
esqueceu uma palavra em minha boca

Devo guardá-la
embaixo da língua?
engoli-la como um comprimido
a seco?
mordê-la até sentir
seu gosto de fruta
estrangeira, especiaria, álcool
duvidoso?
devolvê-la
num beijo
a ele?
a outro?

É pequena e dura
mais salgada que doce
e amarga um pouco
no fim

DÁ-ME ESSA MÃO ( Gabriela Mistral )

Dá-me essa mão e dançaremos;
dá-me essa mão e amar-me-ás.
Como uma só flor nós seremos,
como uma flor e nada mais.

O mesmo verso cantaremos
e ao mesmo ritmo dançarás.
Como uma espiga ondularemos,
como uma espiga e nada mais.

Chamas-me Rosa e eu Esperança;
mas o teu nome esquecerás,
Porque seremos uma dança
sobre a colina e nada mais.
( Tradução de Fernando Pinto do Amaral )


04/10/2024

MAIS BEIJOS ( Judith Teixeira )

 Devagar...

outro beijo ou ainda.
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor
deixa que se alongue mais
este momento breve!
que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!

ESPIGA ( João Morgado )

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03/10/2024

ENCONTRO ( Natália Correia )

Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se Deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se Deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor


AS ROSAS CHORAM ( Isabel Morais Ribeiro Fonseca )

 Quando as rosas choram

As lágrimas transformam
As palavras em silêncio
Os sonhos ficam quietos
As pétalas perfumam o ambiente
E os amantes vivem momentos
Loucos de euforia apaixonante
Numa linguagem que só elas percebem
E quando as rosas choram
Os beijos são carícias perfumadas
E os abraços são desejos em volúpia



NÃO VOU PÔR-TE FLORES DE LARANJEIRA... ( Joaquim Pessoa ) in 125 poemas - Antologia Poética - Litexa, 3º Ed., 1989)

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo
nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente
como se todo o tempo fosse nosso
como se todo o tempo fosse pouco
como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.
Despir as tuas ancas.
Apunhalar de amor o teu ventre.

ELEGIA COM UMA VARIAÇÃO ROMÂNTICA ( Nuno Júdice )

As mulheres loucas arrumam os quartos, fazem
as camas desfeitas, empilham camisas e calças,
abotoam os cintos do infinito, prendem os laços
da sombra. Com os seus olhos cegos, enfiam
agulhas no buraco da vida, cosem as feridas
do amor que não tiveram, cantam devagar
a canção da idade fria. Dispo essas mulheres
no meu poema; espalho as suas roupas pelas cadeiras
do quarto; abro a cama onde as deito; rasgo
os pontos que acabaram de coser. O seu sexo -
seco pelos ventos de uma inquietação nocturna
- humedece-me os dedos. Desfolho os dias de março
enquanto desfloro os seus lábios. Por vezes,
as mulheres loucas abrem a porta da varanda,
respiram o perfume das trepadeiras brancas
da primavera, desmaiam com o sol.


02/10/2024

DESCOBERTA ( Carlos Drummond de Andrade )

O dente morde a fruta envenenada
a fruta morde o dente envenenado
o veneno morde a fruta e morde o dente
o dente, se mordendo, já descobre
a polpa deliciosíssima do nada.