15/12/2024

LEMBRETE ( Ana Martins Marques ) in Risque Esta Palavra

 Lembrar que

enquanto andamos
por estas ruas banais
sob um céu inestrelado
templos brancos como ossos
repousam entre oliveiras
quase igualmente antigas

uma mulher desfaz
sobre a nudez noturna
sua trança pesada

um pequeno lama
cabeceia de sono

e há leões e laranjas
falcões e hangares
anêmonas e zinco

um bando de antílopes
atravessa um pedaço de terra
como este
deixando-o depois
vazio de sinais

em silêncio um homem prepara
menos comida do que ontem

um a um
partem os barcos
de passeio

chove intensamente
sobre teleféricos

uma mulher vê
a cidade acender-se
à medida que anoitece
e para acalmar-se
conta as janelas
iluminadas

arrumam-se armários
roupas de pessoas mortas
envelhecem também
os automóveis
e as máquinas agrícolas

com uma rede veloz
recolhem-se do mar
peixes luminosos
que então serão deixados
afogando-se
na areia

alguém conhece
pela primeira vez
a enguia, o sexo, a escrita

pensar que devemos estar
à altura
disso

LEVE ( Fernanda Gonzalez )

 Ah, menina, se eu pudesse te pegar no colo…

encheria teu cangote de cheiro,
e te faria rir até soltar tua gargalhada gostosa.
Te tiraria um pouco de ti,
para lembrar-te quem realmente és.

Deixaria o pesado um pouco de lado.
Dar conta de tudo não deve ser nosso legado.

Lembraria que tem dia de concha,
e dia de limonada.
Dia de noite, e de claridade.

Que aceitar a bonança, sem culpa, dá sentido à tempestade.
E que o mundo continua mundo depois que a gente parte.

Que colo às vezes é voz ou vídeo.
Que a massagem mais relaxante é a que recebemos dentro do ouvido.

E que a felicidade é dar valor a tudo,
e ao mesmo tempo, a nada.
Como o leve voar da borboleta.

AMÁLGAMA ( Bruna Lombardi )

 Homem de terra, de argila e de farinha

de raízes no solo e muitas fontes
o mesmo sol que te satura me mora nas entranhas
o mesmo fio que te liga à terra me fez de presa.
A mesma carne, a tua, é fraca em mim
em mim que já sou feita de tuas ânsias
de tuas névoas, de teu suor e teu conflito.
O mesmo cheiro de tuas partes em minhas mãos resiste
ao vento de poeira. Às estações e ao isolamento.

Já não sou tua, é certo. Talvez eu nunca fosse,
talvez tivesse sido, talvez um dia eu seja.
Talvez te habite em sonhos recônditos
talvez nem te dês conta.
Talvez já nem percebas. Talvez ainda não saibas.
É tão vasto o sortilégio. Tão infinitas
as marcas de teus pés no meu passado
de tuas mãos pelo meu corpo.

Homem de pedaços. De sulcos cavados na pedra.
Talvez eu seja o rio que te corre por cima
são águas minhas as que te corroem
e te deixam em sedimentos,
são seixos teus que carrego no meu leito,
são partes tuas as que me dão forma.
É barro teu o que me turva.

Homem de asas. Companheiro,
é através de teus sentidos o meu contato.
A minha noite tem a tua cumplicidade.
A tua serpente possui o meu veneno.
O mesmo sangue. É inútil que te afastes.

PARA MACHUCAR UM POUCO ( Flora Figueiredo )

 Vou buscar a poesia onde ela estiver,

fazê-la deitar subjugada,
tênue,
passiva,
mansa,
mulher.
Quero-a solta e lasciva,
aberta e deflorada,
para fazer dela o que eu quiser.
Hei de dominá-la totalmente,
levá-la a gozar até a embriaguez.
Feita minha serva e dependente,
vou ofertá-la ao seu deleite.
Por favor, aceite.
Quero que ela o faça chorar outra vez.

FLORES DE DESEJOS ( Roseana Murray )

 No pulso amarraria

flores para marcar
o tempo da beleza,
o tempo de um suspiro,
o tempo do amor.

De flor em flor
chegamos ao país
da delicadeza,
onde as palvras
são coloridas
e soam como sinos
suaves,
como musgo e veludo.
Então podemos construir
o mais secreto jardim.

Como se fossem
tapetes voadores,
flores roxas
me carregam
em sua seda,
levam minha sede
de beleza
até a nascente
das cores.
Então mergulho,
de olhos abertos.

CORPO E AMOR ( Roseana Murray )

 Para te desvestir

arrumo a cama
o camarim
as fantasias
os delírios
as miragens
arrumo rosas
e tulipas
e a ondulação
da areia no deserto
transformo
o deserto em jardim

Para te desvestir
e te vestir de mim
arrumo os espelhos


Seu corpo
me dá notícias
de mim
quando me perco
sua pele me lembra
quem sou
quem já fui
um dia

Seu corpo
tão docemente
atlas
mapa
farol
concha
e ninho
me adivinha


Onde no corpo
a nascente
das lágrimas?

Como um bailarino
que dançasse sobre
o fio de linha
do horizonte
assim o corpo
se equilibra
entre
uma emoção e outra

HOJE TAMBÉM OS CARROS DANÇAM ( Filipa Leal )

 Hoje, também os carros dançam. As casas movem-se levemente. E eu – que

mudei de casa e de roupa, de cidade e de cama, de palavras. Eu, que mudei
de música e de carro, de saudade, de quarto. Eu – que mudei de computador
e de rua, de eternidade e de paisagem, de abraço e de clima. Eu – que mudei
de língua e de lágrimas, de deus e de caderno, de crenças e de céu. Eu – que
mudei de lume, que mudei de medos. Eu – que mudei de planos, de lençóis,
de secretária. Eu – que mudei de óculos e de rumo, de amigos, de champô,
de rituais e de supermercado. Eu – que mudei de tudo que em quase nada
mudou, mudei de dentro de mim para dentro de ti, meu amor.

A DIVISÃO DO FRANGO ( Filipa Leal )

 Alguns ficaram com as minhas partes

piores. Isto é como a divisão do frango
em família numerosa. Faltam coxas para todos.
Isto é como a aprendizagem da generosidade:
o peito ou o pescoço ou as asas. Lá em casa,
fazíamos de conta que preferíamos outra coisa
e dávamos as partes melhores aos irmãos.
Sei que eu e os meus irmãos tivemos sempre
uns dos outros as partes melhores.
Parece-me justo e valioso. Parece-me informação
digna de CV ou de Wikipédia. Isto devia dar empregos.
Isto devia ser o primeiro dado de uma biografia:
"dava a parte melhor do frango aos seus irmãos".

E depois apaixonamo-nos. Complica-se a divisão do frango
quando há coxas para todos: para dois.
Difícil haver tanta coxa. Difícil não ser preciso dividir.
Difícil ver cada vez menos os irmãos, que provariam à mesa
sermos nós ainda a criança generosa. E que se houvesse
menos frango ou mais gente, ofereceríamos a parte melhor.

Alguns ficaram com as minhas partes piores.
Os que não amei, não gostavam de me ver comer frango.
Comiam ossos e deram cabo de mim. Ainda me telefonam.
Os que amei iam comigo à churrasqueira, pediam molho picante
à parte (sempre tive medo de perder o ar) e batatas fritas na hora.
Um dia, nunca mais me quiseram ver.

Apenas pelos meus irmãos soube dividir-me.
Apenas eles ficaram para lá da refeição.

Não quero com isto justificar-me. Entendo.
Parti bem o frango mas parti sempre mal.

Só que às vezes lamento ninguém ter esperado
que eu crescesse. É natural.
Em tempo de aviários, ninguém espera isso de um frango.

10/12/2024

A MÁRIO DE ANDRADE AUSENTE ( Manuel Bandeira )

 Anunciaram que você morreu.

Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá
(Pela força persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais.
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra.
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue,
Alguém perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.
Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que ele não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora a sua falta.


HEI-DE PARIR DAS ENTRANHAS ORGASMOS DE LOUCURA (Célia Moura)

 Sei que hei-de parir das entranhas

orgasmos de loucura
no teu peito,
amado,
sal, tangos pelo soalho esculpido a pedra do soalho
então, eleva-me em teus braços,
beija-me as palavras
que só meus olhos te dirão,
e em meus mamilos consagra essa tua tesão,
porque eu partirei.

Vou no voo das sete em pedaços.

Deixa que permaneça o jardim,
o meu mais negro olhar,
pois nele encontrarás germinação,
e quem sabe papoila
no teu coração.

ISSO MEU AMOR, DEVAGAR ( Célia Moura )

 Isso meu amor, devagar,

Lentamente quanto uma serpente rasteja
Até à presa,
Estende teus braços até mim.

A floresta não arderá, nem o sol se despirá
Até que a Tribo te incense
E eu te beije tão ternamente,
Tão apaixonamente até morder teu sangue
E banir todas as açucenas do meu ventre
Outrora teu jardim.

Isso meu amor, vai com o vento
Leva todos os pedaços.
Ele sim te purificará no incessante fogo
Só ele terá misericórdia de ti.

Eu parti enquanto bebia licor
Com aloé vera nos olhos
Cravos vermelhos espetados
Entre o crânio a a medula
Com meu ramo de noiva
Encalhado no coração.

Vai!
Enlouquece nas orgias
Até saboreares toda a dor, toda a loucura animal
Que se esvai até à santidade ou até à morte
E sente o pó debaixo do teu ventre de serpente.

CÉLIA MOURA, in “No Hálito de Afrodite.”

 Que eu seja para sempre tua,

Fazendo e desfazendo
Indo e vindo como as marés!

Que sejas tu meu colo
De mariposa louca
Onde possa arder esta lava
Que me consome alvoradas
E toda a nossa casa uma fogueira
Dessa paixão onde ouso morder
Tua boca
Em vez da poesia

Seja eu tua mulher e tua menina,
Teu demónio e tua estrela cadente
Rebolando-me em teu corpo peregrino!

Seja eu mais que uma amante,
Amiga
Cumplicidade nas asas do condor

E quando eu, candelabro em estilhaços
Entoar minha lúcida loucura,
Que venhas e me amparando me faças sorrir
Uma e outra vez
Rodopiando Amor comigo pelo chão do soalho
Pendurando-me flores nos cabelos
Até me despertares,
Porque eu sou a maré que ansiamos
E o tempo é a cópula
De nos possuirmos
Sem passado ou futuro.

08/12/2024

POEMA DA CURVA ( Oscar Niemeyer )

 Não é o ângulo reto que me atrai,

Nem a linha reta, dura, inflexível criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro no curso sinuoso dos nossos rios,
nas nuvens do céu,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
O universo curvo de Einstein.

06/12/2024

AS NOTÍCIAS (Carlos Drummond de Andrade)

 E lá se foi aquela extraordinária

Eunice Weaver: cada preventório
para filhos de lázaros proclama,
pelo Brasil inteiro, o seu supremo
dom de servir à vida das crianças.
Já na Gamboa umedecidos lenços
despedem-se… Ficou de Dona Eunice
uma lição de amor, cheia de graça.

Mas andemos. Que tal esses ornatos
de rua, a celebrar os velhos ritos?
Eu acho que o Natal ronda por fora
dos signos natalinos: sua rara
contextura de sonho e de esperança
num Deus garoto abriga-se no esconso
particular da alma; esse, o presépio
mais real, mais tocante; esse, o cardápio
da ceia imaterial, sem mesa posta
e sem badalação, sem jingle e cesta.
Chartres no Russell, toda iluminada?
Tenho a Glória do Outeiro, estou com tudo.

Só me faltam, nas férias dos meninos,
dois elefantes, vastos ou pequenos.
Quando virão? Exige-se vacina,
identidade, visto de aduana,
título de eleitor em Bombaim
e prova de que são bichos de bem.
Oi, meus elefantinhos ofertados
por Indira (?), tão logo repelidos
para a jângal natal: ficai por lá,
que saudoso de vós me quedo aqui.
Não vos desejo pouso na Ilha Grande,
pois muito mais a gosto ficais onde
a um paquiderme não se exige tanto
papelório que a um bípede põe tonto.

A papoula sangrenta, a flor dos hippies,
antes tão alva? A mão pega do lápis,
anotando massacres. Sharon Tate,
My Lai, nosso "Esquadrão." Matar é um ato
de prazer, como uma extensão do sexo,
um novo haxixe, um fascinante tóxico?
Matar em grosso; nunca um só, apenas.
Aos cinco, aos mil: esporte de bacanos.
Então, por que temer, pergunto, a gripe
A-2 Hong-Kong, no seu doido galope?
O vírus isolar, em honra à vida,
para depois fazê-la espedaçada?
O mundo é dos carrascos? Deus é fábula
esmaecida no pó de um incunábulo?
Ou vamos aprender a ser humanos
— ao menos aprendizes pequeninos?

A FESTA DE ZIRALDO ( Carlos Drummond de Andrade )

 Vou à festa de Ziraldo,

vou levando Jeremias.
Ziraldo vai me mostrando
o tom de Flicts da Lua.
Jeremias, meu compadre,
meu anjo da guarda de óculos,
dá uma de milagreiro
fazendo que a supermãe
largue o súper, se tornando
mãe comum, ao natural.
A festa vai esquentando
dentro e fora da piscina.
Jeremias e Ziraldo
ao soar a concertina
já se tornam Jerizaldo
e Ziralmias, no caos?
Entra a Rainha, entra o Príncipe
da Grã-Britânia ou Caxias,
entra toda a macacada
com sentido na cerveja,
no hot-dog e no restante
que se pega ou se fareja,
mas Ziraldo, ziraldando,
e Jeremias, quebrando
o galho de toda gente,
me mostram que a melhor festa,
de todas a mais bacana,
inserida no contexto,
está nos livros-mandinga,
nos cartoons, bonecos, bolas
incomparáveis de um certo
mineiro de Caratinga.

ATRIZ ( Carlos Drummond de Andrade )

 A morte emendou a gramática.

Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
Professorinha pobre de Pirassununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta, de Albee
Margarida Gauthier e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um nos mitos cênicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morrem mil Cacildas em Cacilda.
(Foto:  a atriz Cacilda  Becker)

AS CONTRADIÇÕES DO CORPO ( Carlos Drummond de Andrade )

Meu corpo não é meu corpo,

é ilusão de outro ser.
Sabe a arte de esconder-me
e é de tal modo sagaz
que a mim de mim ele oculta.

Meu corpo, não meu agente,
meu envelope selado,
meu revólver de assustar,
tornou-se meu carcereiro,
me sabe mais que me sei.

Meu corpo apaga a lembrança
que eu tinha de minha mente.
Inocula-me seu patos,
me ataca, fere e condena
por crimes não cometidos.

O seu ardil mais diabólico
está em fazer-se doente.
Joga-me o peso dos males
que ele tece a cada instante
e me passa em revulsão.

Meu corpo inventou a dor
a fim de torná-la interna,
integrante do meu id,
ofuscadora da luz
que aí tentava espalhar-se.

Outras vezes se diverte
sem que eu saiba ou que deseje,
e nesse prazer maligno,
que suas células impregna,
do meu mutismo escarnece.

Meu corpo ordena que eu saia
em busca do que não quero,
e me nega, ao se afirmar
como senhor do meu Eu
convertido em cão servil.

Meu prazer mais refinado,
não sou eu quem vai senti-lo.
É ele, por mim, rapace,
e dá mastigados restos
à minha fome absoluta.

Se tento dele afastar-me,
por abstração ignorá-lo,
volta a mim, com todo o peso
de sua carne poluída,
seu tédio, seu desconforto.

Quero romper com meu corpo,
quero enfrentá-lo, acusá-lo,
por abolir minha essência,
mas ele sequer me escuta
e vai pelo rumo oposto.

Já premido por seu pulso
de inquebrantável rigor,
não sou mais quem dantes era:
com volúpia dirigida,
saio a bailar com meu corpo.

ROSA ROSAE (Carlos Drummond de Andrade)

 Rosa

e todas as rimas
Rosa
e os perfumes todos
Rosa
no florindo espelho
Rosa
na brancura branca
Rosa
no carmim da hora
Rosa
no brinco e pulseira
Rosa
no deslumbramento
Rosa
no distanciamento
Rosa
no que não foi escrito
Rosa
no que deixou de ser dito
Rosa
pétala a pétala
despetalirosada

QUERO ( Carlos Drummond de Andrade )

 Quero que todos os dias do ano

todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
dementes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de ama-me,
que nunca me amaste antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

01/12/2024

E DEUS FEZ-ME MULHER ( Gioconda Belli ) (Trad.: Nuno Júdice)

 E deus fez-me mulher,

de cabelo comprido,
olhos,
nariz e boca de mulher.
Com curvas
e dobras
suaves
funduras
e cavou-me por dentro,
fez-me uma fábrica de seres humanos.
Teceu delicadamente os meus nervos
e pesou com cuidado
o número das minhas hormonas.
Compôs o meu sangue
e injectou-me com ele
para que irrigasse
todo o meu corpo;
nasceram assim as ideias,
os sonhos,
o instinto
Tudo o que criou suavemente
com golpes de suspiros
e furos de amor,
as mil e uma coisa que me fazem mulher todos os dias
pelas quais me levanto orgulhosa
todas as manhãs
e bendigo o meu sexo.