24/03/2025

BEIJOS ( Gabriela Mistral ) ( tradução de Carlos Campos )

 Há beijos que por si sós pronunciam

a sentença de amor condenatória,
há beijos que se dão com o olhar
há beijos que se dão com a memória.
Há beijos silenciosos, beijos nobres
há beijos enigmáticos, sentidos
há beijos que só são dados pelas almas
há beijos verdadeiros, porque proibidos.
Há beijos que calcinam e que ferem,
há beijos que arrebatam os sentidos,
há beijos misteriosos que sugerem
mil sonhos errantes e perdidos.
Há beijos problemáticos que escondem
um segredo que nunca decifraram,
há beijos que engendram a tragédia
de quantos botões de rosa desfolharam.
Há beijos perfumados, beijos tíbios
que palpitam nos íntimos desvelos,
há beijos que nos lábios deixam pegadas
como um campo de sol entre dois gelos.
Há beijos que parecem açucenas
de tão sublimes, ingénuos, de tão puros,
há beijos de traição e cobardia,
há beijos malditos e perjuros.
Judas beija Jesus e deixa impressa
em seu rosto divino a felonia,
enquanto Madalena com seus beijos
deixa força e piedade na agonia.
Desde então nos beijos centelham
o amor, a traição e as dores,
e nas bodas humanas se assemelham
à brisa que passa pelas flores.
Há beijos que provocam desvario
de amorosa paixão ardente e louca,
bem os conheces, são os beijos a fio
que eu inventei para a tua boca.
Beijos de chama que em rasto impresso
sulcos de um amor vedado levaram,
beijos de tempestade, selvagens beijos
que só os nossos lábios provaram.
Recordas o primeiro? Indefinível;
cobriu o teu rosto até corar
e nos espasmos de emoção terrível,
encheu-se de lágrimas o teu olhar.
Recordas-te de uma tarde, do louco instante
em que te vi com zelo e pensamentos sábios,
te abracei o beijo vibrante,
e que viste depois? Sangue nos meus lábios.
Ensinei-te a beijar: os frios beijos
são de impassível coração de roca,
eu ensinei-te a beijar com os beijos
que eu inventei para a tua boca

23/03/2025

CAVALO À SOLTA ( José Carlos Ary dos Santos )

 Minha laranja amarga e doce

meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.
Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.
Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.
Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.
Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.
Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

22/03/2025

CADERNO DE APONTAMENTOS - XXVI ( Manoel de Barros )de CONCERTO A CÉU ABERTO PARA SOLOS DE AVE, 1991]

 Depois que atravessarem o muro e a tarde os caracóis cessarão.

Às vezes cessam ao meio.
Cessam de repente, porque lhes acaba por dentro a gosma com que sagram os seus caminhos.
Vêm os meninos e os arrancam da parede ocos.
E com formigas por dentro passeando em seus restos de carne.
Essas formigas são indóceis de ocos.
Ah, como serão ardentes nos caracóis os desejos de voar!

P.S.: Caracol é uma solidão que anda na parede.

21/03/2025

O TEJO É MAIS BELO QUE O RIO QUE CORRE ... (Alberto Caeiro)

 O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,

 

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

 

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

 

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

 

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

NUM DIA EXCESSIVAMENTE NÍTIDO ( Alberto Caeiro )

 Num dia excessivamente nítido,

Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito

Para nele não trabalhar nada,

Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,

O que talvez seja o Grande Segredo,

Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

 

Vi que não há Natureza,

Que Natureza não existe,

Que há montes, vales, planícies,

Que há árvores, flores, ervas,

Que há rios e pedras,

Mas que não há um todo a que isso pertença,

Que um conjunto real e verdadeiro

É uma doença das nossas ideias.

 

A Natureza é partes sem um todo.

Isto e talvez o tal mistério de que falam.

 

Foi isto o que sem pensar nem parar,

Acertei que devia ser a verdade

Que todos andam a achar e que não acham,

E que só eu, porque a não fui achar, achei.


ACORDO DE NOITE SUBITAMENTE ( Alberto Caeiro )

 Acordo de noite subitamente,

E o meu relógio ocupa a noite toda.

Não sinto a Natureza lá fora.

O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.

Lá fora há um sossego como se nada existisse.

Só o relógio prossegue o seu ruído.

E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu

Quase que me perco a pensar o que isto significa,

Mas volto-me, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,

Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa

Enchendo com a sua pequenez a noite enorme

É a curiosa sensação de encher a noite enorme

Com a sua pequenez

E esta sensação é curiosa porque só para mim é que ele enche a noite

Com a sua pequenez

HÁ METAFÍSICA BASTANTE EM NÃO PENSAR ... ( Alberto Caeiro )

 Há metafísica bastante em não pensar em nada.

 

O que penso eu do Mundo?

Sei lá o que penso do Mundo!

Se eu adoecesse pensaria nisso.

 

Que ideia tenho eu das coisas?

Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?

Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma

E sobre a criação do Mundo?

Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos

E não pensar. É correr as cortinas

Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

 

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!

O único mistério é haver quem pense no mistério.

Quem está ao sol e fecha os olhos,

Começa a não saber o que é o Sol

E a pensar muitas coisas cheias de calor.

Mas abre os olhos e vê o Sol,

E já não pode pensar em nada,

Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos

De todos os filósofos e de todos os poetas.

A luz do Sol não sabe o que faz

E por isso não erra e é comum e boa.

 

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores

A de serem verdes e copadas e de terem ramos

E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,

A nós, que não sabemos dar por elas.

Mas que melhor metafísica que a delas,

Que é a de não saber para que vivem

Nem saber que o não sabem?

 

«Constituição íntima das coisas»...

«Sentido íntimo do Universo»...

Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.

É incrível que se possa pensar em coisas dessas.

É como pensar em razões e fins

Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores

Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

 

Pensar no sentido íntimo das coisas

É acrescentado, como pensar na saúde

Ou levar um copo à água das fontes.

 

O único sentido íntimo das coisas

É elas não terem sentido íntimo nenhum.

 

Não acredito em Deus porque nunca o vi.

Se ele quisesse que eu acreditasse nele,

Sem dúvida que viria falar comigo

E entraria pela minha porta dentro

Dizendo-me, Aqui estou!

 

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos

De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,

Não compreende quem fala delas

Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

 

Mas se Deus é as flores e as árvores

E os montes e sol e o luar,

Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,

E a minha vida é toda uma oração e uma missa,

E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

 

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;

Porque, se ele se fez, para eu o ver,

Sol e luar e flores e árvores e montes,

Se ele me aparece como sendo árvores e montes

E luar e sol e flores,

É que ele quer que eu o conheça

Como árvores e montes e flores e luar e sol.

 

E por isso eu obedeço-lhe,

(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),

Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,

Como quem abre os olhos e vê,

E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,

E amo-o sem pensar nele,

E penso-o vendo e ouvindo,

E ando com ele a toda a hora.

O MEU OLHAR É NÍTIDO COMO UM GIRASSOL( Alberto Caeiro )

 O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo

 

Creio no Mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem o que é amar

 

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar


SE EU FOSSE O TEU POEMA ( Cláudia Moura )

 Ah se eu fosse poema

Haveria de te degustar amada minha
Inteira tal como um trago de aguardente bem velhinha,
Sugar teus poros como aquele que se excita
Na prostituta mais imunda torneando a estrada
Como se torneasse teus mamilos
E ainda que viessem ninfas e
Orquídeas pelo meu sexo acima
Que me importaria!
Que teu corpo fervilhasse sevilhanas
Pelo dorso das colinas
Enquanto em ti esfinge amada
Saboreasse a doçura do mel.
Ah meu amor, se eu fosse poema
Não haveria fome,
Tua camisa de algodão seria puro cetim
Jamais chorarias pelas crianças que não consegues enlaçar
Enquanto me renderia ao campo de papoilas
Que trazes no olhar.
Sabes mulher,
Se eu fosse poema, o teu poema
Inaugurava-te para sempre êxtase
Meu leito de rio.

20/03/2025

SOU ( Carol Ortiz )

Sou!
Enquanto a noite não dorme, o papel devora minhas angústias
Gosto de mergulhar
Profundamente 
nas pessoas
Sou intensa
Sou febril
Sou leal 
Sou o que sou
Não gosto de jogos
Não faço rodeios
Não sigo regras
Não minto
Não tenho amarras
O tédio
o mesmo
o raso
o fraco 
não cabem na minha vida
Sou um pouquinho de doçura 
Mas não sou pra qualquer um
Minhas asas já quebraram
E, meu amor, 
Você tem minha marca
Cravada na alma
Minha intensidade feminina
Transbordou em você
Não adianta correr
Existo na sua essência


MEU GOZO ( Cléia Fialho )

 Não sei por que disfarçar

não sei pra que esconder
está estampado no olhar
expressado com prazer
meu corpo está sentindo
as pernas a tremer
pelo orgasmo invadindo
minha boca está a gemer
e juntando isto tudo
nem tenho como mentir
o meu gozo já desnudo
se faz por esparzir

A MENINA - SATÉLITE ( Camila Duarte )

 Lábios metálicos, 

Olhos dourados, 
venda de prata.

Sangue verde
nos dedos molhados.

Na torrente 
Das lágrimas de diamante, 
Um punhal de terra e água 
Atravessando o peito;

Uma labareda azul no ventre 
E um farrapo em cada pulso. 

Unhas pixeladas, desfazendo um
Malmequer:

Vagueia pela eternidade, sentada 
Na ponta de uma lua qualquer.

17/03/2025

SOBRE A CAMA ( Marina Colasanti )

 Disjecta membra diz

o meu amado
batendo com a palma no lençol
e rimos amplos os dois
como crianças
e tudo é pena ao ar
e amor ao vento
desmembrados os membros
sobre a cama
aberto o corpo ao tempo
de brincar.

O PERIGO É QUANDO ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 No ano de mil quinhentos e quarenta e dois

cento e cinquenta licantropos
foram vistos
uivando em alcateia
na escura praça escura de Constantinopla.

O perigo
quando um licantropo sai
em noites de lua cheia
não é seu cheiro entranhado em cada sombra
não é seu andar furtivo junto aos muros
nem sua presença nas ruas
com outros lobos.
O perigo é quando o licantropo
volta para casa.

Que não abra a mulher à primeira batida.
Do alto da janela
o veria junto à porta
hirsuto pelo e dentes
lobo inteiro
pronto a saltar-lhe em cima
e devorá-la.

Que não abra a mulher à segunda batida.
Pelas frinchas veria
que no corpo do homem
ainda pousa
a nefanda cabeça.

À terceira batida
abrir pode a mulher.
Frente à porta
sem lembrar que foi lobo
só seu marido espera
pronto a entrar na sua cama
e possuí-la.

no fero licantropo
que invisível o habita
começa
o perigo.

ABERTA FRINCHA ( Marina Colasanti ) in Fino Sangue, 2005

 Há tempos não abraço meu amado

com essa alma aberta
mais que os braços.
O corpo dele é tão parelho ao meu
que às vezes quando o envolvo
nos meus braços
é como se em meus braços
me abraçasse.
Mas hoje
uma frincha no espelho
me revela
que a pele dele não é minha pele
que suas coxas e peito são só dele.
E os corpos
tão alheios por instantes
por serem mais alheios
mais se querem.

POR UMA LUZ ( Marina Colasanti ) in Gargantas Abertas, 1998

 O que foi que te fez

Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?

COM A DOÇURA DE BOTTICELLI ( Marina Colasanti )

 Um tronco ao lado

de outro tronco
negras colunas
floresta
e o cavalo branco
e a branca mulher
nua
correndo à frente
e o cavalo branco
e a clara carne
em desespero
e o cavalo branco
e o lago ao longe
além dos troncos
do cavalo branco
e no branco dorso montado
o cavaleiro de espada em riste
espada a afundar
no meio das costas
das costas pálidas
das delicadas costas
da mulher em fuga
cujos despojos
caberão aos cães.

PIETÁ ( Marina Colasanti )

 Foi com os dedos

com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo. 
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.

Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.

SANGUE DE MÊNSTRUO ( Marina Colasanti )

 Paixão se escreve

em folha vermelha
de papel de seda
selada com lacre.

Paixão te escrevo
em língua de fogo
pena de flamingo
flor de gravatá.

Minha tinta é sumo
de morango e amora
suco de cereja.
Mas no fim do escrito
só sangue me assina
sangue de mênstruo
fúria de assassina.