11/05/2025

O MINUTO CERTO ( Filipa Leal )

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NOS DIAS TRISTES NÃO SE FALA DE AVES ( Filipa Leal )

 Nos dias tristes não se fala de aves

liga-se aos amigos e eles não estão
e depois pede-se lume na rua
como quem pede um coração
novinho em folha.
Nos dias tristes é inverno
e anda-se ao frio de cigarro na mão
a queimar o vento
e diz-se bom dia!
às pessoas que passam
depois de já terem passado
e de não termos reparado nisso.
Nos dias tristes fala-se sozinho
e há sempre uma ave que pousa
no cimo das coisas
em vez de nos pousar no coração
e não fala connosco.

10/05/2025

MUDANÇA DOS VENTOS ( Ivan Lins & Vítor Martins )

 Ah, vem cá, meu menino

Pinta e borda comigo
Me revista, me excita, me deixa mais bonita
Ah, vem cá, meu menino
Do jeito que imagino
Me tira essa canseira, me tira essas olheiras

De esperar tanto tempo
A mudança dos ventos
Pra me sentir com forças
Pra me sentir mais moça

Ah, vem cá, meu menino
Pinta e borda comigo
Me revista, me excita, me deixa mais bonita
Ah, vem cá, meu menino
Do jeito que imagino
Me tira essa vergonha, me mostre, me exponha

Me tire uns vinte anos
Deixa eu causar inveja
Deixa eu causar remorsos
Nos meus, nos seus, nos nossos

07/05/2025

MIMESE ( Mônica dos Santos )

 Outono cruel, frio e cinzento

eriça meus pelos, meu corpo desarma
Resquícios de Sol me trazem alento
no teu arrebol sou fera domada!

Observo entregue o Sol que atenta
lambendo a Terra, lascivo e viril
copulam ousados, em plena tormenta
são nobres amantes, são puro ardil

Cá dentro, n'alcova, dois corpos entregues
exaustos, em fausto, em plena fusão
imitam em transe a bela empreitada
do gozo fecundo que inunda o chão!

Por Lia Vieira

 Meu Zumbi

De corpo suado
De olhos meigos e doces
De boca ardente
Nenhuma paisagem se iguala
à visão que tenho de você
Explosão de raça em forma de ser
o que mais quero:
Entrelaçar nossas peles retintas
Me animar de vida,
Buscar meu céu em sua terra
Saciar minha sede de mel em seu mistério.

Tatuar-te em meu corpo
para ter a certeza de tê-lo
preso-colado-filtrado em mim
na própria pele
rasgando a epiderme
que nem laser apaga
que aos poucos me rasga
e se fixa e me marca
num uno indivisível

BENÇÃO DAS ÁGUAS ( Jamu Minka )

 Deveria ser pleno

é mínimo
cinza
úmido
no ápice de um feriado
um dia nublado

A plenitude por dentro
desejo
o que eu queria
surpresa
o sol não veio
e ganho a benção que chove

Deusa das águas, ela deixa o chuveiro
e se instala na sala de minha retina
ela e sua toalha-turbante
perfeita sereia mesmo longe d’areia

Que sorte eu aqui tão perto
no meio do dia e das águas nubladas
a sedução ao vivo
lábios
olhos
a tez
e o verdejante turbante
coquetel de cores
tesão por todos os poros
no mínimo, o máximo
domingo total
no qual mergulhei de cabeça.

DO LADO DE LÁ ( Ayana Moreira Dias )

 inoperantes versos

pendendo

dos braços

das mãos

dos dedos

da operária

 

falanges

que operam esta coisa

aqui

 

e

outras coisas

tantas

que nem pensa

que opera

enquanto faz

só faz

 

pés nos

sofás

cansados de dias

 

pernas moventes

que seguem operando

até

quando pousam

numa certa almofada

tremulam

 

exibindo

ansiedades

 

membros

pensam

sobre

o fim

do

dia.

 

qual dia?

qual fim?

qual meio?

estamos sempre no meio

 

nos presentes

pré

e

pós

operatórios

 

o braço cansa,

a nuca também

 

a forma desinforma

e

cai

em gesto seco

 

o gesto poderia ser simples,

um só:

escrever

 

do lado de lá

há desejo imenso e vário

 

enquanto pensa nos desejos,

a operária opera

 

paga contas

faz café

corrige redações

responde e-mails

renasce

caminha

rega as plantas

toma o café

varre a casa

paga sustos

faz amor

corrige atenções

responde espelhos

refaz-se

dança

rega as esperas

toma o amor

varre as preocupações

MARESIA E ANDOR ( Caroline Diniz )

 Sou toda uma metrópole litorânea.

Uma areia indesejada nos chãos de restaurante.

Ah, como eu gosto da sinfonia dos talheres nervosos.

Sinto muito e em tudo sinto.

Eu percebi a esses dias que sou sensível demais.

Se você fosse pintar um quadro, eu poderia ver:

O andor louco na areia corroído pela maresia selvagem.


CARNE DE DENTRO ( Caroline Diniz )

 desnuda-me,

ó meu

lado avesso.

carne de dentro

rui ao maior lamento:

daí afago, daí alento

pro buraco deste peito.

Flanco trêmulo

denuncia

dor latente,

que espicha

impertinente.

Urgentemente,

virai-me do lado avesso!

TEMPOS DE AMOR ( Márcio Barbosa )

 1) A boca em molhado círculo

envolvendo a pica
ou beijando com suavidade imensa
a suada virilha

2) A língua tesa enfiada
na bunda
ou buscando em dança perfeita
da buceta o salino sabor

3) Em dois tempos o desejo inunda
corpos marrons em marés de amor

EXU ( Abílio Ferreira )

 Lábios vermelhos

Muito vermelhos
Acesos e acesos e haciendo-me entrar
- vem vem me ver por dentro
E eu vou à fenda - acesso labiríntico a chamar
A brasa - chama rubra e corpo negro

O PRAZER NOSSO ( Oubi Inaê Kibuko )

 Amada minha que estais no cio; cultuado seja o vosso corpo; venha o prazer ao nosso leito; sejam saciadas nossas vontades, sem tabeliães e sem véus. Um amor pleno de poesias gozai hoje; desfrutaremos nossas querenças; um minuto sequer não percamos, discutindo leis que nos têm reprimido. Vamos copular com emoção, porque amar nunca fez mal. Axé!


EJACORAÇÃO ( Jamu Minka )

 Quando tua ausência se multiplica em dias

eu me divido em saudades
consciente ou não
e de resto sobram poemas

quando a vida devolve oficialmente tua presença
o coração dá voltas
e dispara ejaculando promessas de amor

TESÃO ( Regina Helena da Silva Amaral )

 Teu falo é um facho

Fascinante.
Eu me encrespo
Sempre.
Teu Facho é um fato
Irreversível!

05/05/2025

AS MULHERES ENVELHECEM ( Luiza Oliveira )

 as mulheres envelhecem

eu enterneço
usam saias longas e roupas fechadas
eu não ligo pra fachada
utilizo meus mistérios
me uso mulher…
com pernas longas
e o bico do seio à mostra…

Hilda Hilst, "Poemas Malditos Gozosos e Devotos", 1984

 Move-te. Desperta.

Há homens à tua procura.
Há uma mulher, que sou eu.
A Terra mora na Via-Láctea
Eu moro à beira de estradas
Não sou pequena nem alta
Sou muito pálida
Porque muito caminhei
Nas escurezas, no vício
De perseguir uns falares
teus indícios.
Move-te. Tua aliança com os homens
Teu atar-se comigo
Tem muito de quebra e dessemelhança.
Muitos de nós agonizam.
A Terra toda. Há de ser quase
Brinquedo adivinhares
Onde reside o pó, onde reside o medo.
Não te demores.
Eu tenho nome: Poeira.
Move-te se te queres vivo.

ANALOGIA ( Gilka Machado ) No livro "Mulher Nua", 1922.

Sempre que o frio chega o meu pesar sorri,
pois te adoro no Inverno e adoro o Inverno em ti

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!
que semelhança em ambos singular!

Loucura pertinaz do meu anelo:
- emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
- pelo mal de perder-te querer tê-lo

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo! 

quem me dera aquecer-te em meu Verão!