12/08/2025

VÊNUS ( Gabriela Lages Veloso )

 Folheando uma revista,

Deparo com um rosto, uma história.

Uma mulher impecável,

A beleza personificada.

Mas, ao observar atentamente

Sua face, vejo apenas uma forma,

Um esboço de vida.


Folheando o grande livro da história,

Deparo com uma luta ancestral

Pelo pomo da discórdia.


Muitos sóis e luas se passaram,

E a pergunta permanece:

Quem é a mais bela?


Com o passar das estações,

Em um giro pelo globo,

As formas mudaram,

Sempre mais apertadas,

Inalcançáveis

E cruéis.


Talvez, em um futuro distante,

Alguém compreenda que

A beleza é um espelho de muitas faces.

OLHA - ME MEU AMOR ( Isabel Morais Ribeiro Fonseca )

Olha por mim meu amor

Afasta-me de todas as mágoas
Com os teus beijos
Apaga todas as minhas lágrimas
Que correm pelo meu rosto
Ninguém me ama, como tu
Ninguém encanta-me, como tu
Nem me vê, como só tu me vês
Por isso amor envolve-me nos teus braços
Deixa-me descansar, adormecer no teu peito
Que os meus olhos durmam nos teus
Que eu sonhe sempre, com o teu corpo a queimar-me
Por dentro, é tudo o que quero de ti meu mor
Gostava que te deitasses; sempre ao meu lado
Que despisses os teus segredos; no meu regaço
Para que não escondesses, todos os teus medos
Enlouquecermos os dois nas noites quentes e inesperadas


11/08/2025

ANIVERSÁRIO ( Álvaro de Campos )

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,

O que fui de coração e parentesco,

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino.

O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui.

A que distância!

(Nem o acho)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes.

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa.

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim.

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui.

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos.

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


10/08/2025

DAS PAIXÕES ( Ademir Antonio Bacca )

 A nudez do teu corpo

é ideia que vaga solta
no campo da fantasia,
abre portas,
ressuscita sonhos
e incendeia
as minhas emoções.

SINTA O GOLE QUENTE DO CAFÉ...(Bárbara Eugênia)

 Sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar

Sinta o gole quente do café que eu fiz pra ti tomar

Te tomar de alegria todo dia
Antes da manhã chegar
Te tomar o tempo livre
Que delícia
Nos teus braços te ficar

Sinta o gosto tão gostoso do namoro
Sina no morro da paixão

Chão não existe quando ama
Nuvem desce
A gente voa
Estrelas

Se essa rua
Se essa rua
Fosse minha
Eu mandava ladrilhar

Todos os dias assim
Todos os dias assim
Daqui pra frente
Todos os nossos
Dias serão mais felizes.

FAÇAMOS UM TRATO ESTA NOITE ( Angel Hazel )

 Façamos um trato esta noite não sejamos tão realistas.

Você geme e suspira, eu ouço
enquanto minha boca te explora como louco
flutuando em luas surrealistas.
Façamos um trato esta noite efêmera é esta carne que nos lacra.
O tempo pára enquanto te despes.
O mundo desaba quando te vestes.
Ama-me antes que o pudor te rasgue como faca.
Façamos um trato esta noite as lágrimas são cristais do coração.
Eu sinto o fel em teus lábios maculados.
Vejo o abismo de teus olhos mascarados
que se escondem atrás de tormentos vãos
Façamos um trato esta noite não adianta fugir da própria vida
Ainda temes a flor pelos espinhos.
Ainda crês que terminaremos sozinhos.
E o amor é não mais que uma mentira.
Façamos um trato esta noite prometo te convencer na quietude
que o amor ideal é ao desfolhar dos dias
a felicidade nublando nosso ódio
e ter consigo sempre esta virtude.

OUTROS SONHOS ( Chico Buarque de Holanda )

 Sonhei que o fogo gelou

Sonhei que a neve fervia
Sonhei que ela corava
Quando me via
Sonhei que ao meio-dia
Havia intenso luar
E o povo se embevecia
Se empetecava João
Se impiriquitava Maria
Doentes do coração
Dançavam na enfermaria
E a beleza não fenecia

Belo e sereno era o som
Que lá no morro se ouvia
Eu sei que o sonho era bom
Porque ela sorria
Até quando chovia
Guris inertes no chão
Falavam de astronomia
E me jurava o diabo
Que Deus existia
De mão em mão o ladrão
Relógios distribuía
E a polícia já não batia
De noite raiava o sol
Que todo mundo aplaudia
Maconha só se comprava
Na tabacaria
Drogas na drogaria
Um passarinho espanhol
Cantava esta melodia
E com sotaque esta letra
De sua autoria
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
E por sonhar o impossível, ai
Sonhei que tu me querias

Soñé que el fuego heló
Soñé que la nieve ardia
Y por soñar lo impossible, ay, ay
Soñe que tu me querias.


DIZ ( Isabel Machado )

 Sim pode falar

fale de paixão
fale de tesão
fale do teu jeito
que não é maldito
fale sussurrando tudo
ao meu ouvido
como um zumbido
de prazer

Diga diga que está apaixonado
diga que és o meu amado
desde outra vida
e que nada será violado
além da paixão
e que sempre haverá o cuidado
de nos pertencer
proteção

Diz  que desejas o meu último sorriso
diz tudo aquilo que eu preciso
diga o que quer
e o que não quer
teu coração
é tudo permitido
êxtase de emoção.

MISS MEXE GAL ( Jorge Ben Jor )

 Miss, miss, miss

Miss Gal, Gal, Gal
Mexe, mexe, mexe
Mexe Gal, Gal, Gal

Cigana, mulher
Morena baiana
Legal, legal, baiana
Morena, mulher
Cigana miss Gal

O mar maravilhoso
Banha seu corpo delgado
O Sol esplendoroso
Deixa seu corpo doirado

Miss Gal, miss, miss

Cigana, mulher
Morena baiana
Legal, legal, baiana
Morena mulher
Cigana miss Gal

Miss, miss, miss
Miss Gal, Gal, Gal
Mexe, mexe, mexe
Mexe Gal, Gal, Gal


 


ENTRE LENÇÓIS ( Djalma Filho )

 Envoltos pela névoa de linho os amantes se olham indescobertos

Envoltos por sins e temores os amantes se tocam cautelosamente
Envoltos por olhos ardentes os amantes se desejam misteriosamente
Envoltos no quarto fechado há um não sobrar de espaço para dois
As palavras sussurram delicadamente prazeres inconfessáveis e não ditos Mãos espalmadas em busca de espaço desafiando as leis da física Pernas, ora trançadas ora retesadas querendo quebrar todos os limites Bocas em beijos, em cada milímetro engolindo toda a possível resistência
Entre lençóis, os amantes se esquecem eternamente do tempo 
Para que tempo se, entre lençóis, eles vivem tão intensamente?
E bem cá entre nós – Para quê mais os lençóis?

ERÓTICA É ÓTICA (Janete, Rosa dos Ventos)

Duas da madrugada,

as palavras ficaram ressoando,
erótica, erótica
Deve haver um erro,
sem ar,
quente, abafado,
derreteu-se algo em mim,
e ficou: é ótica!

É isso.
Visão.
Noite quente,
calor, fornalha,
corpo quente,
fogo

Acendo a luz,
fecho a porta,
lembro do fado:
“de quem eu gosto,
nem às paredes confesso”;
o anúncio da TV, chama a atenção:
– me liga, vai Liga!
Erótica
Sim, visão

Começo a me despir
lentamente,
solto os cabelos,
eles se espalham
e cobrem as protuberâncias
de minhas curvas

Acaricio lentamente meu corpo,
descendo suavemente as mãos,
a carne é firme,
sinto as pernas trêmulas,
olho no espelho,
gosto do que vejo,
sou uma mulher bonita,
sensual,
firme, gostosa, macia,
lembro outra vez:
“liga, vai Liga”

O telefone está perto,
companheiro único,
preto,
frio,
mudo,
estático

Ainda espero.
Continuo descendo as mãos
com suavidade,
sinto falta de carinhos,
olho a imagem,
é ótica

As pessoas não se olham,
não conhecem seu corpo,
não olham a si mesmas,
não se amam,
não se desejam,
não se tocam

“Eu me amo Eu me amo
“Tinha uma música assim,
seriam loucos?
Coisa de jovens?
Rock?
Não.
Amar a si mesmo
é o ponto de partida,
se não nos amarmos,
não amaremos a mais ninguém!

Eu amo a muitos
Em cada um, eu amo alguma coisa;
a voz,
o gosto,
o cheiro,
o pensamento,
o olhar,
as ideias,
o desafio,
o perigo,
o desejo,
o sexo

Mas estou só,
absolutamente só,
eu, comigo!

Erótica?
Talvez nos pensamentos,
nas rimas,
na inspiração,
só na ponta dos dedos,
digitando freneticamente,
nada mais…
Na verdade, só é ótica!

Visão de uma realidade virtual
visão de um sonho
que embalo no seio
como um filho que suga
meu leite,
aquela deliciosa sensação
de ser sugada,
amada,
comida, esmagada!

Lembranças
Gostos, cheiros, fatos,
o passado

Hoje já é o passado de amanhã,
então, só tem eu aqui;
preciso me amar!
Se não me amar,
se não houver um tico de narcisismo,
chegará a depressão,
mulher mal amada,
mulher vencida!

Penso
Que desperdício!
O tempo vai correndo,
eu grito,
meu grito não tem eco,
os ventos espalham as pétalas da Rosa,
e o tempo continua veloz,
implacável!

Preciso,
sinto que preciso,
dividir, somar,
esse corpo com alguém,
preciso sentir outras mãos
que não as minhas,
tocando minha pele macia,
buscando meus caminhos,
palavras quase inaudíveis
arrancando meus gemidos,
sugando meu sangue

Jogo os cabelos para trás,
acabei de escová-los,
coloquei a roupa de dormir,
deixo minha imagem
reflexa no espelho,
sou capaz de ver o brilho
das estrelas cintilando nos meus olhos,
na minha pele,
desnudo meu pescoço
mas nenhum vampiro
entra pelas vidraças

Silêncio total,
só a brisa da noite
e os raios da lua
banham meu corpo quase nu,
chega um misto de prazer e sono…

Começo a dormir e
viajo dentro de mim mesma

O que encontro?
Minha sombra vagando
pelos espaços vazios dos caminhos,
solidão…

É ótica.
Nada mais.
Não existe nada,
além da imaginação!

O devaneio adormece
em meus braços,
viajo nos sonhos
e encontro meu príncipe,
ele vem da floresta encantada,
cavalga em minha direção,
me joga meio sem jeito
no dorso do seu garanhão,
o galope é forte,
e, no embalo da ilusão,
adormeço, só,
completamente só!

Quando os raios de sol
entram e me aquecem pela manhã
a cada aurora,
volto à rotina…
Ali adormeceu a poesia
e, agora, acordou a realidade

Um dia como outro qualquer,
a rotina,
a vida,
a esperança,
a solidão,
a mesma ótica Erótica!

CANTO DE NUDEZ ( Paulo Mont’Alverne )

 Dá-me tua nudez,

Tua nudez úmida
Outorgada em pêlos e dobras,
Nas dobras desfeitas
De dez e mil lençóis

Dá-me tua nudez,
Tua nudez traçada,
Declarada em gotas e curvas,
Nas vidas desfeitas
Por uma ou tantas canções.

Dá-me tua nudez,
Tua nudez rasgada,
Marcada em veias e carnes,
Nos pactos esquecidos
De todas e outras juras.

Dá-me tua nudez,
Tua nudez faminta,
Destrancada de almas e corpos,
Nos sonhos destruídos
De meus e teus desejos.

by Joyce Mansour ( tradução: Floriano Martins)

 Gosto de tuas meias porque elas reafirmam tuas pernas.

Gosto do espartilho que sustenta teu corpo trêmulo
Tuas rugas o balanço de teus seios teu aspecto faminto
Tua velhice sobre meu corpo tenso
Tua vergonha diante dos meus olhos que viram tudo
Teus vestidos e o cheiro de teu corpo apodrecido.
Tudo isso finalmente me vinga
Dos homens que não me queriam.

CANTO DA TERRA ( Carlos Marighella )


A terra tem tudo
e plantando é que dá.
E plantaram e plantaram
ou já estava plantado.
A Floresta Amazônica,
o rio e os peixes
e o balacubau.
A caatinga existia
com a braúna,
o mandacaru
e o gravatá cariango.
As coxilhas do Sul,
o maciço do Atlântico,
a Serra do Mar,
os pinheiros erguidos,
o rio Amazonas,
o rio São Francisco,
o rio Paraná.
Canaviais assobiando,
cortina verde estendida
sobre imensa extensão.
E plantaram café
e cacau e borracha.
E plantaram erva-mate.
Com o escravo e o imigrante
tudo se fez.
Comidas meu santo,
a mulata, a morena
e até a loura surgiu.
A índia já havia,
a gringa veio depois.
Quem atrapalhou
foi gente de fora
que não trabalhou.
Eu canto a terra.
Todos sabem que outra
mais garrida não há.
"Teus risonhos, lindos campos tem mais flores"
Bom! Lírios já houve,
mas agora é que não.
Eu canto a terra,
eu canto o povo.
Cantam os poetas
e cantando vão.


E QUANDO O VENTO NOS DEIXAR ( Carlos Campos )

 E quando o vento nos deixar 

saciados de esperança 

Quando o luar 

acordar manhã 

Eis-nos de dia a partilhar 

a carícia do sol. 


08/08/2025

AS AYABÁS ( Gilberto Gil & Caetano Veloso )

Nenhum outro som no ar
Pra que todo mundo ouça
Eu agora vou cantar
Para todas as moças
Eu agora vou bater
Para todas as moças
Eu agora vou dançar
Para todas as moças
Para todas ayabás
Para todas elas

Iansã comanda os ventos
E a força dos elementos
Na ponta do seu florim
É uma menina bonita
Quando o céu se precipita
Sempre o princípio e o fim

Obá
Não tem homem que enfrente
Obá
A guerreira mais valente
Obá
Não sei se me deixo mudo
Obá
Numa mão, rédeas, escudo
Obá
Não sei se canto ou se não
Obá
A espada na outra mão
Obá
Não sei se canto ou se calo
Obá
De pé sobre o seu cavalo

Euá, Euá
É uma moça cismada que se esconde na mata
E não tem medo de nada
Euá, Euá
Não tem medo de nada
O chão, os bichos, as folhas, o céu
Euá, Euá
Virgem da mata virgem
Da mata virgem, dos lábios de mel

Oxum
Oxum
Doce mãe dessa gente morena
Oxum
Oxum
Água dourada, lagoa serena
Oxum
Oxum
Beleza da força da beleza da força da beleza
Oxum
Oxum



 


06/08/2025

DO DESEJO ( Hilda Hilst )

 Quem és? Pergunto ao desejo.

Respondeu: lava. Depois pó, Depois nada.


VER - TE. TOCAR - TE ( Hilda Hilst, in "Do Desejo", 1992 )

 Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.

Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.