10/09/2025

INFORTÚNIO ( Líria Porto )

 pé de coelho

trevo-de-quatro-folhas

guiné arruda alecrim

comigo-ninguém-pode

ferradura atrás da porta

banho de sal grosso

espada-de-são-jorge

e nada de sorte


por Adília do Rego Castro

 sufragete alcoviteira

a primeira na fila do talco

rendas & vidrilhos

dispostos na beira da banheira

estratagemas quais seriam?

um pé direito, sais de banho

a posição do corpo no espaço oval

e os dedos dedilhando em movimentos

de orquestra, allegro andante sem pausas

na pauta, lembrava o banho tcheco no bidê

levantou-se anestesiada, algum formigamento

nas partes baixas e notou algo quente

escorrendo entre as pernas com aparência

de leite derramado


 

CREPÚSCULO SOBRE A IRACEMA ( Nina Rizzi )

 sobre meus olhos, umidez.

sobre meu sexo, uma flor.

acredite, nos labirintos, umidez e uma flor.

[ancestral. negra, negra.


09/09/2025

NÁUFRAGA ( Isadora Galvão )

 de ilha em ilha

projeto meu país

das maravilhas

tal Alice insandecida

(cortem-lhe a cabeça,

mas jamais

a imaginação

nem o clitóris)

 

na minha ilha

sou ninfa, sereia, Safo

entre um desabafo

e um pileque

um Sexta-feira

a meu serviço

 

náufraga

e sôfrega

na minha ilha

(lá mando eu

qual Odisseu

na sua história

entre uma dose

de rum ou gim

ai de mim!

até que eu goze

em som e glória.)

Por Valéria Tarelho

 as meninas

dos olhos

ficaram moças

 

estão amando

 

dilatando à toa

chorando feito

criança


 

PETRICHOR ( Valéria Tarelho )

 quero amanhãs que me devorem. enjoei de hojes sem teus beijos. coleciono ontens secos. os lábios rachados dos agoras sangram em bicas. o poema chora seu sinal. vermelho. rima que nunca cicatriza. mordo as horas que há bocas nos separam. sepultam os abraços. hojes de urnas contendo cinzas.

quero amanhãs de asfalto, pedágios, velocidade máxima. amanhãs de pressas e apreços. precisão de línguas lambendo fal[h]as e silêncios. a saliva das palavras selando cada sílaba do desejo.

amanhãs tenros para nos comermos. crus. com destempero. destemidos.

à luz dos próximos milhões de sóis.

amanhãs com chuvas que desprendam nosso cheiro pelas ruas das futuras luas que levarei no ventre.



 

 

 

MILENA ( Cida Pedrosa )

 gosto quando milena fala

dos homens
que comeu durante a noite

é a única voz soante
nesta cantina de repartição

onde todos contam:
do filho drogado do preço do pão
do sapato carmim, exposto na vitrine
da rua sicrano de tal do bairro
de casa amarela
onde você pode comprar
e começar a pagar apenas em abril

sem a voz de milena
o café desce amargo

A JAULA ( Alejandra Pizarnik ) Trad.: Virna Teixeira

 Lá fora faz sol.

Não é mais que um sol
mas os homens olham-no
e depois cantam.

Eu não sei do sol.
Sei a melodia do anjo
e o sermão quente
do último vento.
Sei gritar até a aurora
quando a morte pousa nua
em minha sombra.

Choro debaixo do meu nome.
Aceno lenços na noite
e barcos sedentos de realidade
dançam comigo.
Oculto cravos
para escarnecer meus sonhos enfermos.

Lá fora faz sol.
Eu me visto de cinzas.

O DESPERTAR ( Alejandra Pizarnik ) Trad.: Carlos Machado

 Senhor

A gaiola se tornou pássaro
e voou
e meu coração está louco
porque uiva para a morte
e sorri detrás do vento
para meus delírios

Que farei com o medo
Que farei com o medo

Já não dança a luz em meu sorriso
nem as estações queimam pombas em minhas idéias
Minhas mãos ficaram nuas
e foram aonde a morte
ensina os mortos a viver

Senhor
O ar me castiga o ser
Detrás do ar existem monstros
que bebem meu sangue

É o desastre
É a hora do vazio não vazio
É o instante de pôr ferrolho nos lábios
ouvir os condenados a gritar
contemplar cada um de meus nomes
enforcados no nada

Senhor
Tenho vinte anos
Também meus olhos têm vinte anos
e contudo não dizem nada

Senhor
Consumei minha vida num instante
A última inocência explodiu
Agora é o nunca jamais ou simplesmente foi

Por que não me suicido diante do espelho
e desapareço para reaparecer no mar
onde um grande barco me esperaria
com as luzes acesas?

Por que não extraio minhas veias
e faço com elas uma escada
para fugir ao outro lado da noite?

O princípio deu à luz o fim
Tudo continuará igual
Os sorrisos gastos
O interesse interessado
As gesticulações que arremedam o amor
Tudo continuará igual

Mas meus braços insistem em abraçar o mundo
Porque ainda não lhes ensinaram
que já é demasiado tarde

Senhor
Expulsa os féretros de meu sangue

Recordo minha infância
quando eu era uma anciã
As flores morriam em minhas mãos
porque a dança selvagem da alegria lhes destruía o coração
Recordo as negras manhãs de sol
quando era criança
quer dizer ontem
quer dizer faz séculos

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
e devorou minhas esperanças

Senhor
A gaiola se tornou pássaro
Que farei com o medo

RISCO ( Eunice Arruda )

 Um poema livre

da gramática, do som
das palavras
livre
de traços

Um poema irmão
de outros poemas
que bebem a correnteza
e brilham
pedras ao sol

Um poema
sem o gosto
de minha boca
livre da marca
de dentes em seu dorso
Um poema nascido
nas esquinas nos muros
com palavras pobres
com palavras podres
e
que de tão livre

traga em si a decisão
de ser escrito ou não

UM DIA ( Eunice Arruda )

 um dia eu

morrerei
de sol, de
vida acumulada
na convulsão
das ruas

um dia eu
morrerei e
não
podia:

há poemas
escorregando de meus dedos
e um vinho não
provado

OLHOS COR DE MOSTARDA ( Líria Porto )

 à porta um sobressalto

por aquele homem eu não esperava
ao fitar-lhe os olhos percebi
vai querer ser dono
                                da minha alma

em legítima defesa eu lhe disse
a mulher que em mim procuras
não existe

nunca mais o vi
mas para assegurar-me comprei cruz
balas de prata cabeças de alho
estacas

A ESFINGE ( Myriam Fraga )

Revesti-me de mistério
Por ser frágil,
Pois bem sei que decifrar-me
É destruir-me.

No fundo, não me importa
O enigma que proponho.

Por ser mulher e pássaro
E leoa,
Tendo forjado em aço
As minhas garras,
É que se espantam
E se apavoram.

Não me exalto.
Sei que virá o dia das respostas
E profetizo-me clara e desarmada.

E por saber que a morte
E a última chave,

Adivinho-me nas vítimas que estraçalho.


 


PURAS PUTAS ( Raiça Bomfim )

 a serenidade, a brisa, o sopro

a graça, o encanto, o canto,
a calma, o doce, a pluma
o puro, a estrela, a flor
é tudo coisa que se aprende em moça;
bom pra ser prendada.
mas há algo que primeira pulsa
recolhida a esconderijos
(gênesis e culpa)
que mulher nunca sonhou ser puta?

08/09/2025

POSSESSÃO ( Ana Rüsche ) in Rasgada, Quinze & Trinta Edições, São Paulo, 2005

 Às vezes aquele corpo não era meu

— um outro me possuía todo.
A noite é lenta, escura e difícil
e aquele meu corpo rude já fora de muitos.

Ele tinha ódio desses passados,
esfaqueava fantasmas nos lençóis
num círculo em volta da cama.

Dizem que o amor era a entrega.
A ampulheta escorria,
ele iria me perder rápido como tantos outros.
A noite é lenta, escura e difícil.

XXV – VÉSPER ( Luíza Mendes Furia ) De Vênus em Escorpião; São Paulo, 2001

 Conservo o verão para que não me deixes

Este verão de folhas a se abrir nas mãos
E em ti farei habitar as correntezas
por que fluem as horas em cardumes de estrelas.

Conservo o verão para que não te percas
E a inocência das chuvas há de banhar teu rosto
E plantarei as palavras ainda úmidas e tersas
sobre os campos e os ninhos. E que floresçam.

Conservo o verão para que não me esqueças
sentada numa cadeira a contemplar as tardes
como se fossem navios ancorados na surpresa
como se fossem alaúdes que o vento tangesse.

GOSTO QUANDO ME FALAS DE TI ( J. G. de Araújo Jorge )

Gosto quando me falas de ti e vou te percorrendo

e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
[tranquilos

Gosto quando me falas de ti e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs.

Gosto quando me falas de ti quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti porque percebo que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão.

TEMA LIVRE ( Ana Paula Inácio )

 Há uma parte de ti

presa às linhas férreas
aos rios e seus afluentes
e às capitais de distrito.

Há ainda em ti
quem peça
uma redacção dirigida
como aquela no alternar das estações.
Escrevíamos: os dias ficam mais curtos
e do armário retiramos as roupas de lã.

Ou
vice-versando:
os dias prolongam-se
proporcionalmente aos decotes
inversamente à altura dos vestidos.

Mas agora já não atravessas armários
como em C. S. Lewis.
Neles só encontras espectros em redenção.

Cega de liberdade
esperas, apenas,
por uma bengala.

Do outro lado da rua
a sombra
de um cão.

DA CALMA E DO SILÊNCIO(Conceição Evaristo) “Poemas da Recordação e Outros Movimentos”. BH: Nandyala, 2008.

 Quando eu morder

a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

FAMA ( Bruna Lombardi )

Nosso caso de amor pode gerar rumores
mudar o tom do nosso humor
como o som do liquidificador
interferindo em nosso som
e nós que vivemos em contradição
um pouco de culpa, um muito de tesão
talvez temamos essa interferência
talvez isso desate o nosso laço
os dois em xeque e talvez mate
ou torne escasso...
o que nos parecia excesso
talvez vire o nosso amor do avesso
e essa intimidade acabe
please please
não conte para ninguém o que você sabe.


SEDUÇÃO ( Bruna Lombardi )

Dentro de mim mora o animal
indômito e selvagem
que talvez te faça mal

talvez uma faísca
relâmpago no olhar
depressa como um susto
me desmascare o rosto
e de repente deixe exposto
o meu pior

em mim germina
uma força perigosa
que contamina
uma paixão vulgar
que corta o ar e que
nenhum poder domina

explode em mim
uma liberdade que te fascina
sopro de vida
brilho que se descortina
luz que cintila, lantejoula
purpurina
fugaz como um desejo
talvez te mate
talvez te salve
o veneno do meu beijo.

NENHUM OBSTÁCULO ( Lília Tavares ) in Casa de Conchas; Modocromia Editora, 2022

 Sei que a manhã trará o fim dos gemidos

no jovem vigor das marés.

Encosta com loucura o teu ouvido às rochas.

Embarcada numa jangada sem mim,

tocarei um a um os sons dos búzios do vento.

Sei que nenhum obstáculo foi suficiente

para impedir este cíclico regresso à terra.

Não tardarás a alcançar a ilha verde,

próxima das nascentes onde te espero

sem corpo. De pele e de alegria me vestirás.

Da nudez dos meus pés beberás o mel.

O QUE EU GOSTO ( Julio Cortázar )

 O que eu gosto do teu corpo é o sexo.

O que eu gosto do teu sexo é a boca.
O que eu gosto da tua boca é a língua.
O que eu gosto da tua língua é a palavra.
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht


 

NA CAMA ( Ângela Ro Ro )

Atrás deste rostinho
Eu tenho um fogo angelical
Por dentro do vestido
Eu guardo um corpo infernal
Se agitando, esperando

A droga do teu beijo
Até você me envenenar
Manchar a tua boca
Até você me tatuar
E berrar que me ama

Na cama, na cama
Meu corpo voltou a se agitar na cama

Suando de desejos
Já não quero nem falar
Que o fogo não se apaga
Se você se entregar
Delirando e queimando





SÓ NOS RESTA VIVER ( Ângela Ro Ro )

 Dói em mim saber que a solidão existe

E insiste no teu coração
Dói em mim sentir que a luz que guia
O meu dia, não te guia, não

Quem dera pudesse
A dor que entristece
Fazer compreender
Os fracos de alma
Sem paz e sem calma
Ajudasse a ver

Que a vida é bela
Só nos resta viver
A vida é bela
Só nos resta viver