22/09/2025

ÁPICE ( Líria Porto )

 bem melhor que namorada

a melhor amiga - com quem possas

ter orgasmos


FOSCOS ( Líria Porto)

meu amor é como o sol

tem seus invernos


meu corpo - como a lua

sabe da solidão



(IM)POSSIBILIDADES ( Líria Porto )

 eu te levaria para dançar

depois faríamos amor

uma foto sorridente

e nunca mais nos veríamos

ou

eu te levaria para uma foto

faríamos amor e dançaríamos

sorridentes

ou

eu te levaria para uma foto

e faríamos amor

ou

um amor sorridente

ou

nunca mais dançaríamos

ou

nunca mais

ou


FLUIDOS ( Líria Porto ) in "Esculturas musicais 14". Zunái - revista de poesia e debates, 26.7.2013.

 tornei-me assim liquefeita

quando daquela feita
despi-me de nãos e sins

de mim então me perdi
nessa vontade inconclusa
acumulada no rim

ficou a mágoa comigo
fincada dentro do umbigo
quase criava raiz

minha tristeza de chuva
esta amargura profusa
tem olhos túmidos

sou tal e qual o dilúvio
derramo transbordo enxurro
sangro os pulsos

DESPERDÍCIO ( Líria Porto ) in Olho Nu; Patuá, São Paulo, 2017

 prima dirce vê a vida

pela fresta

ela adora futebol
e vai à missa

seu pecado foi cheirar
lança-perfume

prima dirce borda borda
mas não pinta

AS SÍLABAS ( Luiz Tatit )

 Cantiga diga lá

A dica de cantar
O dom que o canto tem
Que tem que ter se quer encantar
Só que as sílabas se embalam
Como sons que se rebelam
Que se embolam numa fila
E se acumulam numa bola
Tem sílabas contínuas:
Ia indo ao Piauí
Tem sílabas que pulam:
Vox populi
Tem sílaba que escapa
Que despenca
Rola a escada
E no caminho
Só se ouve
Aquele boi-bumbá
Tem sílaba de ar
Que sopra sai o sopro
E o som não sai
Tem sílaba com esse
Não sobe não desce
Tem sílaba legal
Consoante com vogal
Tem sílaba que leve oscila
E cai como uma luva na canção

MULHER FEMINISTA ( Lia Sena )

 insisto em ser

o que apavora
o que me cobram
não posso dar
se não cabe no que
é ser mulher.
que não me basta
ser apêndice
sou liberdade de corpo
inteiro
de corpo livre.
não quero menos
só quero pleno
só quero igual.

MULHER FEMINISTA (Luh Oliveira )

 Meu feminino selvagem

clamou-me mulher
sugou em mim
toda força e doçura
toda magia e ternura
tudo que expele vida
de meu ventre
Meu feminino selvagem
clamou-me dona
do meu corpo
da minha alma
das minhas vontades
fez-me menina,
felina, doutrina
fez-me divina,
vagina.
Fez-me feminista.

DELÍRIO ( Líria Porto )

 a minha alma gêmea ela mora em marte

e vagueia solta por entre as estrelas 
se há tempestade ou um pé de vento
vem ela pousar em meu travesseiro 
a minha alma gêmea dança tão bonito
quando é lua cheia sou eu quem vai lá
rodopiamos doidos pela via láctea 
às vezes perdemo-nos pelo infinito
nas noites escuras deixo a porta aberta
a minha alma gêmea vem aqui me ver
leva-me consigo voo em sua nave
só a minha casca fica presa à terra
a minha alma gêmea fez-me prometer
quando ela puder quando eu precisar
vai me transportar carregar meu corpo
vou morar em marte de uma vez por todas
acaso ouças risos ou vozes alegres
barulho de guizo ou de cachoeira
é minha alma gêmea a brincar comigo
a contar-me histórias sobre a lua cheia
então eu te peço  - não chores
abre a janela
publicado no livro Cadela Prateada

FÔLEGO ( Líria Porto )

 quando nasci

não tinha anjo disponível 
então um diabinho com um tridente 
espetou a minha bunda e disse - vai
cai na vida
não tens outra saída
publicado no livro Cadela Prateada

BEBEDEIRA ( Líria Porto )

 se o amor voltar eu me desvio

escondo-me num fundo de bar

fujo do cio

 

se o amor me quiser de novo

não me vai encontrar

afogo-me no copo de um bêbado

num cubo de gelo

cubro-me com chope ou uisque

eu me bebo

 

se o amor vier

não vou querê-lo

 

amor é vício


20/09/2025

MEMÓRIAS DE DULCINEIA XIV ( Graça Pires )

 Na penumbra me perco.

Surpreendida. Impaciente.
Como se uma reprimida dança
movesse o mais insólito enredo
nos meus passos.
Deito-me de bruços para cheirar,
na terra, o hálito do sonho que persigo
e o corpo cobre-se-me de ervas bravas.
Assim permaneço
até que uma lua de sangue me visite.
Graça Pires, De Uma Extensa Mancha de Sonhos

FUGA ( Graça Pires )

 Pinto na janela a tormenta

de um mar imaginado.
De costas para a lua
preparo a minha fuga.
Enrolo à volta do corpo
a primeira onda:
a derradeira âncora
para roçar na boca
o lamento verde das marés.
De Uma Extensa Mancha de Sonhos, 2008

O TEMPO QUE PASSA ( Graça Pires )

 E, no entanto, muda a direcção dos ventos. 

As mãos rondam os gestos. 
A lisura das horas segue o rumo de chronos. 
Um descuido na confluência de ruas
sem retorno arde sob os pés. 
São lugares improváveis onde se chega sem guia, 
só pela ocasionalidade de tudo, só pelo cheiro, 
só pelas lajes com arestas arredondadas. 
Um laço de ferro vem ancorar no peito as marcas 
que alarmam o tempo que passa, 
registado por relógios sem ponteiros, 
a alagar de suor hábitos antigos, 
como uma cilada ou um cutelo 
fendendo os dias tão breves. 
Com minhas mãos povoadas de acenos, 
toco a face intocável das memórias. 
E escrevo. Escrevo a síntese de íntimos silêncios 
para que não se banalize a minha voz diferida. 
Graça Pires, De Antígona Passou Por Aqui. 2012

RETRATO MARROM ( Fausto Nilo / Rodger Rogério )

 Ai meu coração sem natureza

Vê se estanca esta tristeza
Que ilumina o escuro bar
O nosso amor é um escuro bar
Suspiro azul das bocas presas

O medo em minha mão
Que faz tremer a tua mão
Traspassa o coração
Joga fumaça em meu pulmão
Silente esquina do Brasil
Nos verdes mares calma lama
Um desespero sem canção

Guarda o teu olhar de ave presa
Na toalha de uma mesa
Sem mirar a luz do sol
Não há calor na luz do sol
O fim da festa é uma certeza

Te vejo em minha vida
Como um retrato marrom
São lembranças perdidas
De um passado e tudo bom
Brilha um punhal em teu olhar
Sinto o veneno do teu beijo
Era moderno o meu batom

PERTURBADA DÁDIVA (Graça Pires, De "O improviso de Viver")

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a postagem.

LAMENTO DAS MULHERES AFEGÃS ( Graça Pires )

 Olhem para nós. Ouçam-nos.

Não somos vultos sem identidade.
Somos mulheres.
Somos mães filhas irmãs amigas.
Temos um nome.
Indefesas frente ao terror
é silencioso o lamento o arrepio.
Qualquer gesto nos pode destruir.
Ficámos sem chão.
Avistamos a montanha
mas um deserto invisível
acorrenta-nos os pés.
O céu é um abismo.
Onde estão as estrelas
os anjos o nosso deus?
Não. Não choramos.
Temos o olhar parado nos livros proibidos
na inutilidade dos dias que hão-de vir
nas palavras reprimidas
na mais indecifrável prece
tão perto da descrença.
Quem poderá salvar-nos?
( Graça Pires, in O Improviso De Viver )


TERRA ( Célia Moura, in "Terra De Lavra" )

 Trago na pele

O odor das macieiras
No entardecer da espera
Quando a semente lançada
Ao ventre da terra amanhada
Pelo arado da esperança
Me carrega no tempo
Caminhos de urze e de giesta
Neste cimento armado,
Erguido por todos os lados,
Árvores moribundas da cidade
Transbordantes viscerais de
Ânsias fétidas,
Fome.
Trago no sangue
Crianças e pássaros de todas as cores,
Mães que sorriem com seus filhotes
Ao colo,
Alguns agarrados às saias,
Trago refrescos de limão
E piruetas ao redor da fogueira
Trago tuas árduas, ternas mãos
Entre as minhas,
Meu mantimento, meu pão
E as minhas sujas do musgo
Que invento pelo Natal.

19/09/2025

AMO -TE POR SOBRANCELHAS ( Julio Cortázar )

Amo-te por sobrancelhas, por cabelo, debato-te em corredores

branquíssimos onde se jogam as fontes da luz,
Discuto-te a cada nome, arranco-te com delicadeza de cicatriz,
vou pondo no teu cabelo cinzas de relâmpago
e fitas que dormiam na chuva.

Não quero que tenhas uma forma, que sejas
precisamente o que vem por trás de tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões
quando se dissolvem no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitectura do nada,
acendendo as lâmpadas a meio do encontro.

Tudo amanhã é a ardósia onde te invento e desenho.
pronto a apagar-te, assim não és, nem tampouco
com esse cabelo liso, esse sorriso.

Procuro a tua súmula, o bordo da taça onde o vinho
é também a lua e o espelho,
procuro essa linha que faz tremer um homem
numa galeria de museu.

Além disso quero-te, e faz tempo e frio.

OS AMANTES ( Julio Cortázar )

 Quem os vê andar pela cidade

se todos estão cegos?
Eles se tomam as mãos: algo fala
entre seus dedos, línguas doces
lambem a úmida palma, correm pelas falanges,
e acima a noite está cheia de olhos.
 
São os amantes, sua ilha flutua à deriva
rumo a mortes na relva, rumo a portos
que se abrem nos lençóis.
Tudo se desordena por entre eles,
tudo encontra seu signo escamoteado;
porém eles nem mesmo sabem
que enquanto rodam em sua amarga arena
há uma pausa na criação do nada
o tigre é um jardim que brinca.
 
Amanhece nos caminhões de lixo,
começam a sair os cegos,
o ministério abre suas portas.
Os amantes cansados se fitam e se tocam
uma vez mais antes de haurir o dia.
 
Já estão vestidos, já se vão pela rua.
E só então,
quando estão mortos, quando estão vestidos,
é que a cidade os recupera hipócrita
e lhes impõe os seus deveres quotidianos.
Tradução: José Jeronymo Rivera

VIAGEM INFINITA ( Julio Cortázar )

 para quem com seu incêndio te ilumina,

cósmico caracol de azul sonoro,
branco que vibra um címbalo de ouro,
último trecho da lâmina fina.

a mão que te busca na penumbra
se detém na tépida encruzilhada
onde musgo e coral guardam a entrada
e um rio de pirilampos te alumbra,

sim, portulano, da esmeralda o fulgor,
sirte e fanal nua mesma bandeja
quando a boca navegante beija
a poça mais profunda do teu dorso,

suave canibalismo que devora
sua presa que o dança no abismo ermo,
oh, labirinto exato de si mesmo
onde o pavor das delícias mora

água para a sede de quem te viaja
enquanto a luz que junto ao leito vela
desce às tuas coxas sua úmida gazela
e por fim a trêmula flor escacha.
Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht

17/09/2025

IN NOMINE SUO ( Mafalda Mautner )

 antes

em nome do Pai

muitas orações

e flagelações

 

(castigo

pra toda nudez

imaginada no confessionário)

 

agora

em seu próprio nome

só ereções

e masturbações

 

(uma parte animal

não se enjaula)

 

POSSESSIVO ( Líria Porto )

 queria-me nua

tão completamente

que depois das vestes

arrancou-me a pele

(fiquei carne viva)

 

então me salgou

comeu uma parte

e não satisfeito

congelou o resto

(vai comer mais tarde)



 

 

UM GATO PRA APOLLINAIRE ( Nina Rizzi )

 caminha por entre os livros, agarrada aos gatos,

a mulher cheia de razão.

 

quando acorda não me faz café:

esgueira até o banheiro seus dedos de arranhar azulejos;

se ama, se beija, se cospe, se come.

 

antes e depois de mim

 

— não está disposta a nos desperdiçar.


PRO_POSIÇÃO ( Líria Porto )

 eu te proponho

um naco de realidade

e um sonho

:

és do ramo — abre tua flor

quebra meu galho

 

eu me arrasto

tu te arrastas

nós nus

 

(um sobre o outro)


腹切り ( Líria Porto )

 com o tanto na barriga

da esquerda para a direita

desabro a vida

 

a lava escorre e lava

minha honra minha adaga

 

esta é a paga



TOP SECRET ( Márcia Maia )

 os pelos que enegrecem-me

o púbis

enroscam-se carentes

de tuas mãos a desejá-los

perto


FINJO - ME ESFINGE ( Líria Porto ) in "Escritoras Suicidas". edição 36. agosto 2009.

 meia lua meu amor

é tua

 

a outra metade

guardei-a para o compadre

que me beija a boca

quando chegas tarde

da casa da outra