09/10/2025

ATRAÇÃO (Líria Porto)

são joão tão bonito
naquela bandeira
e eu tão aflita
entrei na fogueira

a vida era boa
tirei tal aproveito
subi no seu colo
deitei no seu leito

queria um beijo
primeiro da fila
dos seus olhos verdes
bebi clorofila

agora meu santo
não sei de mais nada
paixão é veneno
caixão e mortalha


AMOR AO PRIMEIRO ECLIPSE ( Líria Porto)

 entre mim e o sol

parou um ovni

piscou o farol

 

pensei comigo

não tenho íntimos

no paraíso

 

desceu um verde

beijou-me a boca

falou julieta

 

tremi-me inteira

mordi-lhe a orelha

gemi r-o-m-e-u

 

e desvesti-me

ORIGAMI (Valéria Tarelho)

 numa tarde qualquer

o amei

fui o papel espelho

que ele vincou

 

[virou para cá

volveu para lá

usou de mágicos dedos]

 

enquanto fui

só amor para dar

[e medo]

ele apenas brincou

de me dobrar


MITO, LÓGICO (Valéria Tarelho)

 prometeu

céus e mundos

deu-me a lua

sem disfarces

jurou alianças

em anéis de saturno

 

dei-lhe tudo

solo teto

frente fundos

vista paradisíaca

 

um dia foi ali

no rabo de um cometa

buscar outro souvenir

 

fiquei a ver ovnis

DELÍRIO DE REDE ( Sônia Viana )

 na infância escutei

quem cai na rede é peixe

nem todos, pensei

na juventude me embalava na rede

pra fabricar sonhos

cresci fazendo redes de amigos

aprendi fazer network

importante rede pros negócios

os índios só dormem na rede

os nordestinos amam a rede

na sociedade do espetáculo

todos se exibem na rede

as imagens se eternizam na rede cibernética

pra Vinicius o amor é eterno enquanto dura

meu avô tecia rede de pesca

comia camarão cru

FLOR EXTEMPORÂNEA ( Nanda Prietto )

Adolescida em maio,

Eu queria ser rosa,

Uma princesa rosa.

Mas Rimbaud me privou,

Me salvou

De ser uma ninfeta em voo.

  

II

Julho foi morto

Por um agosto

A me seduzir

Com buquês de ipês

Só para curar meu cio

Com os seus cachorros loucos

Que estavam a solta.

  

III

Outubro ainda chove

Os restos de setembro, agosto.

E agora que o espelho me vê

Um pouco Rimbaud,

Um pouco Adélia,

Os ipês de outrora

(amarelos, brancos, roxos),

Ainda há pouco mortos,

Florescem rosa,

Me deixam um pouco

Mais princesa,

Embora ainda muito peçonhenta.


A MÃO ( Wislawa Szymborska )

 Vinte e sete ossos,

trinta e cinco músculos,
cerca de duas mil células nervosas
em cada uma das pontas dos cinco dedos.
É quanto basta
para escrever Mein Kampf
ou A Casinha do Ursinho Puff.


 

08/10/2025

PEDRA DE ANIL ( Emília Souza )

 eu vou levar essa dor pra lavar no rio

vou passar anil e botar pra quarar

vou estender em cima da pedra

vou deixar alvejando

e ir me banhar

POLÍTICA ( Emília Souza )

 a mulher é política

 

ainda que não se filie a nenhum partido

que tenha sido ensinada a se afastar da política

ela apenas o é

 

é político levantar os olhos acima do chão

andar de mamilo duro

sob o fino tecido da liberdade

 

pra além do voto

há política no pulsar da vulva

na cutícula desfeita

na marcha de cara lavada

 

não se engane mulher

 

pra nós

que sangramos

não morrer é um ato político

TODAS AS ÁGUAS ( Emília Souza )

 eu vim da água

e com água fui recebida

oxum banhou meu corpo

em água doce

iemanjá minha face

em água salgada

carrego em mim

a água que anuncia

o gozo

a dor

o nascimento

a água que abre caminhos

extrapola as margens

ignora as barreiras

a água que não pode ser contida

se represada morre

e morta só rebenta o que mata

a água que corre

sob a pele e sobre a pele

vida e febre manifestadas

a água que sacia

inebria

envenena

o desabar dos céus

o choro do firmamento

a água desejada

promessa dada

maldizida

a água límpida de rio sereno

enxurrada barrenta

em dias de tempestade

a água benta

mãe violenta

arrastando raízes

apodrecendo galhos

que outrora nutriu

água leve

vapor de sol

em pedaço de vidro esquecido

fervura de caldeirão

em fogueira santa

água morna

sobre o corpo cansado

lava incendiando o mar

água em gelo

escorrendo em arrepios

ferida purulenta

empapando as gazes

água de nascente

infiltração em casa de encosta

chuva de verão

goteira em morada velha

água pesada esmagando

o peito nas profundezas

eu sou todas as águas

NUDEZ ( Emília Souza )

 sinto falta das nossas conversas

sobre política arte traumas

ainda despidos

 

naquela época

fazíamos bastante isso

ficarmos nus diante do outro

SABÁ ( Emília Souza ) De "Vem Segura a Minha Mão"; Patuá, 2023

 vem

segura a minha mão
temos um sabá esta noite
mas deixemos em paz
as árvores e florestas
empilhemos sobre as pedras das praças
bem no meio das cidades
corpos de abusadores
ateemos fogo
dancemos em volta da fogueira
brindemos a morte
não há pecado ou feiura em desejá-la
comemorá-la
não há pecado no alívio
que só a morte deles
concede às mulheres
à carne podre que queima
não restará oportunidade
de contaminar a terra
e quando o dia raiar
ao menos algumas de nós
estaremos mais seguras

07/10/2025

MÃE ( Caetano Veloso )

 Palavras, calas, nada fiz

Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, Rio
Ninguém me tem amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
e nunca chego a ti

CARPE DIEM ( Walt Whitman )

 Aproveita o dia!

Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.

Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.

Não te deixes vencer pelo desalento.

Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.

Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.

Não deixes de crer que as palavras e as poesias, sim, podem mudar o mundo.

Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.

Somos seres humanos cheios de paixão.

A vida é deserto e oásis.

Ela nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.

Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.

Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.

Não caias no pior dos erros: o silêncio.

A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas.

Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoes tuas crenças.

Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.

Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda adiante.

Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.

Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.

Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.

Não permitas que a vida se passe sem teres vivido!

06/10/2025

BEIJO PARTIDO ( Toninho Horta )

 Sabe, eu não faço fé nessa minha loucura

E digo
Eu não gosto de quem me arruína em pedaços
E Deus é quem sabe de ti
E eu não mereço um beijo partido

Hoje não passa de um dia perdido no tempo
E fico longe de tudo que sei
Não se fala mais nisso, eu sei
Eu serei pra você o que não me importa saber

Hoje não passa de um vaso quebrado no peito
E grito
Olha o beijo partido
Onde estará a rainha que a lucidez escondeu? Escondeu

Hoje não passa de um vaso quebrado no peito
E grito
Olha o beijo partido
Onde estará a rainha que a lucidez escondeu? Escondeu

PORQUE ERA ELA, PORQUE ERA EU ( Chico Buarque de Holanda )

 Eu não sabia explicar nós dois

Ela mais eu
Porque eu e ela
Não conhecia poemas
Nem muitas palavras belas
Mas ela foi me levando pela mão
Íamos todos os dois
Assim ao léu
Ríamos, chorávamos sem razão
Hoje lembrando-me dela
Me vendo nos olhos dela
Sei que o que tinha de ser se deu
Porque era ela
Porque era eu

DIFERENTEMENTE ( Caetano Veloso )

 Acho que ouvi numa canção de Madonna

"When you look at me, I don't know who I am"
E desentendi
Pois comigo, é você quem me olhando, detona
A explosão de eu saber
Quem eu sou
Eu nunca imaginei que nesse mundo alguma vez alguém soubesse quem é
Mas se você me vê, seus olhos são mais do que meus
Pois amo
E você ama
Então o indizível se divisa
E a luz de tantos céus inunda a mente
E, no entanto, diferentemente de Osama e Condoleezza, eu não acredito em Deus

05/10/2025

A UMA LAVADEIRA ( Gilka Machado ) Mulher Nua (1922)

 Minha vizinha lavadeira,

mal nasce o sol, põe-se a cantar,
canta a manhã, a tarde inteira,
mais me parece uma rendeira
uivosos sons desfiando no ar.

De suas mãos o alvor é tanto
que, às vezes tenho a convicção
de que, talvez por um encanto
alvo se torne tudo quanto
os dedos seus tocando vão.

Quando ela vai ao coradouro
finas cambraias estender,
olhos azuis, cabelo louro,
tudo em seu corpo canta em coro
pela alegria de viver.

Se a lua sobre os silenciados
campos do luar abre os lençóis,
não mais, então, lhe ouço os trinados,
mas cuido ver, por sobre os prados,
dormir, sonhar a sua voz.

Debalde o espírito perscruta
de onde lhe vem esse poder
de sem possuir força bruta,
assim tornar clara, impoluta
roupa que às mãos lhe venha ter.

Não poderei, por mais que queira,
dado me fosse e dos desvãos
da minha dor tirara inteira
esta alma, ó linda lavadeira,
para o crisol de tuas mãos.

Ao teu labor, que assim perdura,
tenho este anseio singular:
pudesses tu, leda criatura,
lavar minha alma da amargura
e pô-la ao sol para secar.