Numa nuvem de renda,
"O único jeito de suportar a existência é mergulhar na literatura como numa orgia perpétua". ( Gustave Flaubert )
14/10/2025
COMIGO MESMA ( Gilka Machado ) no livro "Gilka Machado: poesia completa". Demônio Negro, 2017.
CONJECTURANDO (A Osório Duque Estrada) ( Gilka Machado ) in "Estados da Alma: poesias". Rio de Janeiro, 1917.
para, em fim, cedo ou tarde, sêr vencida?
Luctar. . . mas para que?
si a vida
é o que se vê
e se sabe: uma lucta indefinida,
onde qualquer sêr
que lucte ha de perder.
Exhausta, na existência eu as armas deponho,
e, ao envez de luctar,
distraio-me a sonhar,
faço do próprio mal um motivo de sonho.
E' bem melhor soffrer a dôr definitiva,
dôr que ora se amortece, ora se aviva,
e é sempre a mesma dôr,
do que luctando, num constante abalo,
e alimentando da Esperança o anhelo,
caminhar para o Ideal, consegui-lo, alcançal-o,
e, logo após, perdel-o.
Convenci-me,
agora, de que o goso é um crime,
pelo qual nos cabe tetrica expiação.
Feliz de mim que ignoro do prazer,
tristes dos que muito venturosos são,
pois não sabem inda o que a soffrer
virão.
Ai dos felizes!
Ai dos felizes!
Bemdito sejas, meu pezar interno,
embora sempre me martyrises !
Bemdita a dôr que no meu ser actúa,
porque, apezar de tudo, a Dôr é bôa
para quem a ella se habitua.
A dôr antiga
é uma dôr amiga,
dóe pouco a pouco, não magoa
quasi.
Ai dos que fruem da ventura a phase,
loucos, á espera de um prazer superno!
Ai dos que vivem nos enganadores
gosos desta existência!
— A dôr inesperada é a maior dentre: as dores,
vem com toda a violência
das vinganças.
Alma de onde somente o riso escapa,
alma que da alegria não te canças,
olha que a Dôr prepara o seu -bote, a socapa !
si attingiste do goso a plenitude
é que ella bem te illude,
e se prepara e apura
— traiçoeira — te engendrando uma horrível tortura!
Viver. . . mas para que ? Ai dos que amam a vida
por lhe haverem provado até então do prazer!
torturas soffrerão quando a virem perdida,
por amarem a vida
hão de cedo morrer!
Ai do ser que accumula
o ouro das illusões
— um thezouro prepara
para
satisfazer a Morte avara.
quantas riquezas vão para os caixões!
Ai daquelle que tem o corpo forte,
pois conservar a carne pura e san
é o mesmo que engordar a ovelha para o corte!
ai daquelle que, amanhan,
saboreado será pela gula
da Morte!
Ai dos que se suppõem vencedores
desta lucta e, embriagados de ventura,
passam alheios á Desgraça ! ...
Ai dos que gosam faustos e esplendores!
que tortura sem par,
por uma cova regelada e escura
um palácio trocar!
Veloz a vida dos felizes passa
Ai dos ricos, que vivem sempre cheios
de vaidade e de bens roubados, bens alheios !
de que valem fazerem tanto mal,
si tudo hão de deixar pela Morte, afinal ?!
Felizes dos que vivem na miséria,
de corpo sêcco, de alma exgottada,
pois nada levam para a funeria
orgia dessa velha deletéria.
Felizes desses que não têm morada,
que não têm conforto,
não tiveram passado e não terão porvir,
que, quando a Morte, emfim, lhes fôr chegada
(ha sempre abrigo para um corpo morto!)
pouso conseguirão, em calma, hão de dormir.
Fará os felizes tem a Morte horrores,
é o inferno"com todas as torturas,
mas tem mysterios promissores
para as creaturas
que só souberam do travôr das dores.
Cada dia que passa me persuade
que bem melhor que a felicidade
é a insensibilidade;
as delicias
da vida são fictícias,
e a morte é o meio singular
de não soffrer, de não gosar.
Feliz de quem se fez soffredora submissa
e desistiu da liça,
vencedora será quando a Morte chegar
porque lhe ha de burlar
a insaciável cobiça.
Feliz de mim que, de illusões vasia,
vou me acabando, dia a dia,
Feliz de mim que não terei mais nada
para a Morte levar.
Feliz de mim que, a esfallecer, diviso
um goso doce, delicioso, manso,
pois si a morte não me for o paraiso,
ha de ao menos me sêr da tortura o descanço.
do declive da vida na jornada.
ANALOGIA ( Gilka Machado ) No livro "Mulher Nua", 1922.
"Sempre que o frio chega o meu pesar sorri,
ESBOÇO (Gilka Machado), no livro "Sublimação". Typ. Baptista de Souza, 1938
Teus lábios inquietos
13/10/2025
BAILE ( Djavan )
Tarde tramando a noite
EM LOUVOR DA MINIBLUSA (Carlos Drummond de Andrade)
Hoje vai a antiga musa
BOLERO DE SATÃ ( Paulo César Pinheiro & Guinga )
Você penetrou como o sol da manhã
10/10/2025
A ESTÁTUA ( Judith Teixeira )
O teu corpo branco e esguio
ME OLHA, ENTÃO TUDO ME DIZ ( Isabella Ingra )
e eu nem conseguia te explicar direito o meu desejo.
da loucura de sonhar em te dar em qualquer lugar, num lugar qualquer. nem era interessante explicar que o meu corpo não podia parar de querer, assim tão subitamente, tão sem querer. nem adiantava tentar dizer que todas as vezes que fiz que não quis, queria você. que a lembrança leva e traz, em pequenos flashs de câmera antiga, você decendo pela barriga, você atrás metendo, você tão perto dizendo que está todo em mim. disso eu bem sei, disso eu sigo sabendo. quer dizer, sigo ardendo de saber mesmo não sabendo como ainda continuar a dizer, meu ventre gruda em você, sem que eu perceba o movimento. me aventuro entre o beijo e o esquecimento de que há pessoas ao redor e eu quero queria em qualquer lugar.
DENTES ESTRELAS ( Isabella Ingra )
você tem estrela nos olhos
você brilha de olhos virados
você tem estrelas nos dedos
seus dedos brilham quando
apertam a minha
você tem estrelas na língua
sua língua brilha enquanto fala
enquanto lambe
enquanto me beija
você tem estrelas.
MEMÓRIA DO VERÃO ( Isabella Ingra )
claro que o
clímax
é uma chama
um chafariz
claro que minha
cama
sente falta da nossa
chuva repentina de verão.
Por Isabella Ingra
o mesmo mar
que tenho medo de entrar
cresce dentro de mim.
um oceano azul tão profundo
como você é profundo dentro de mim
te deixo entrar
eu abro minhas ondas
descanso minha ressaca
te sugo nas minhas conchas.
TODOS OS LÁBIOS DISSERAM SIM ( Isabella Ingra )
sua presença
a fuga da minha estrada
liberdade da minha sentença
te deixo
lavar meu corpo
e a vontade de ser sua
lavando meu rosto
a sua imagem
rasgando a minha memória
entrando por todas as portas
abrindo portas profundas
desgastando a poltrona
e todos os lábios disseram sim
e muito antes de mim
te escrevo essa carta poema
como evidência de desejo
de desejo de apertar o meu corpo no seu corpo e vez em quando me pegar te olhando
além de ti
talvez procurando
o que há dentro de mim
sobre você
que me mostras de ti
vasculhando a memória
deixo a memória nua
de quando me vi nervosa
no mesmo banho que você
e o quanto quis me ajoelhar
do quanto quis ser de você.
Por Isabella Ingra
trepar com a memória da nossa história que foi quase agora
há algumas horas
e toda vez que lembro
ainda tremo.














