14/10/2025

COMIGO MESMA ( Gilka Machado ) no livro "Gilka Machado: poesia completa". Demônio Negro, 2017.

 Numa nuvem de renda,

musa, tal como a Salomé da lenda,
na forma nua
que se estenta e estua,
- sacerdotisa audaz -
para o Amor de que és presa,
rasgando véus de sonho, dançarás
nesse templo pagão da Natureza!

Dançarás por amor das coisas e dos seres,
e por amor do Amor
tua dança dirá renúncias e quereres!
faze com que desfira
tua lira
gargalhadas de gozo e lamentos de dor,
e possas em teu ritmo recompor
tudo que viste estática, surpresa,
e a imprevista beleza,
a beleza incorpórea
dos perfumes e sons indefinidos
de tudo que te andou pelos sentidos,
de tudo que conservas na memória.

Dize da Natureza em que à luz vieste,
dize dos seus painéis encantadores,
dize da pompa, do esplendor celeste
das suas noites, dos seus dias,
e animiza com teus espasmos e agonias
as expressões com que a expressando fores.

Alma de pomba, corpo de serpente,
enche de adejos
e rastejos
teu ambiente,
caiam em torno a ti pedras ou flores
de uma contemplativa multidão:
de lisonjeiros. e de malfeitores
cheias as sendas da existência estão.

Toda de risos tua boca enfeita
quando te surja um ser sincero, irmão,
e sejas sempre pura, espelhante, perfeita,
na verdade da tua imperfeição.
Musa satânica e divina
ó minha Musa sobrenatural,
em cujas emoções, igualmente, culmina
a sedução do Bem, a tentação do Mal!
em teus meneios lânguidos ou lestos
expõe ao Mundo que te espia
que assim como há na Dança a poesia dos gestos,
há nos versos a dança da Poesia.

Dança para esse gozo, o
grande gozo maternal
da Terra,
que te fez sem igual,
e, envaidecida,
em seu amor te encerra,
amando em ti a sua própria vida,
sua vida carnal
e espiritual.

Torce e destorce o ser flexuoso
ó Musa emocional!
maneja os versos de maneira tal
que eles se fiquem pelos séculos dispersos,
com os ritmos da existência universal.

E a dançar,
a dançar,
num delicioso sacrifício,
patenteia a nudez desse teu ser puníceo
ante o sereno altar
do Deus que te domina.
Que importa a injúria hostil de quem te não compreenda?
Dança, porém, não como a Salomé da lenda,
a lírica assassina:
dança de um modo vivificador;
dança de todo nua,
mas que seja a nudez da dança tua
a imortalização do teu Amor!

CONJECTURANDO (A Osório Duque Estrada) ( Gilka Machado ) in "Estados da Alma: poesias". Rio de Janeiro, 1917.

Luctar. . . mas para que?
para, em fim, cedo ou tarde, sêr vencida?
Luctar. . . mas para que?
si a vida
é o que se vê
e se sabe: uma lucta indefinida,
onde qualquer sêr
que lucte ha de perder.

Exhausta, na existência eu as armas deponho,
e, ao envez de luctar,
distraio-me a sonhar,
faço do próprio mal um motivo de sonho.

E' bem melhor soffrer a dôr definitiva,
dôr que ora se amortece, ora se aviva,
e é sempre a mesma dôr,
do que luctando, num constante abalo,
e alimentando da Esperança o anhelo,
caminhar para o Ideal, consegui-lo, alcançal-o,
e, logo após, perdel-o.

Convenci-me,
agora, de que o goso é um crime,
pelo qual nos cabe tetrica expiação.
Feliz de mim que ignoro do prazer, 
tristes dos que muito venturosos são, 
pois não sabem inda o que a soffrer
virão.

Ai dos felizes!
Ai dos felizes!
Bemdito sejas, meu pezar interno,
embora sempre me martyrises !
Bemdita a dôr que no meu ser actúa,
porque, apezar de tudo, a Dôr é bôa
para quem a ella se habitua.
A dôr antiga
é uma dôr amiga,
dóe pouco a pouco, não magoa
quasi.

Ai dos que fruem da ventura a phase,
loucos, á espera de um prazer superno!
Ai dos que vivem nos enganadores
gosos desta existência!
— A dôr inesperada é a maior dentre: as dores,
vem com toda a violência
das vinganças.

Alma de onde somente o riso escapa,
alma que da alegria não te canças,
olha que a Dôr prepara o seu -bote, a socapa !
si attingiste do goso a plenitude
é que ella bem te illude,
e se prepara e apura
— traiçoeira — te engendrando uma horrível tortura!

Viver. . . mas para que ? Ai dos que amam a vida
por lhe haverem provado até então do prazer!
torturas soffrerão quando a virem perdida,
por amarem a vida
hão de cedo morrer!

Ai do ser que accumula
o ouro das illusões 
— um thezouro prepara
para
satisfazer a Morte avara.
quantas riquezas vão para os caixões!

Ai daquelle que tem o corpo forte,
pois conservar a carne pura e san
é o mesmo que engordar a ovelha para o corte!
ai daquelle que, amanhan,
saboreado será pela gula
da Morte!

Ai dos que se suppõem vencedores
desta lucta e, embriagados de ventura,
passam alheios á Desgraça ! ...

Ai dos que gosam faustos e esplendores!
que tortura sem par,
por uma cova regelada e escura
um palácio trocar!

Veloz a vida dos felizes passa 

Ai dos ricos, que vivem sempre cheios
de vaidade e de bens roubados, bens alheios !
de que valem fazerem tanto mal,
si tudo hão de deixar pela Morte, afinal ?!

Felizes dos que vivem na miséria,
de corpo sêcco, de alma exgottada,
pois nada levam para a funeria
orgia dessa velha deletéria.

Felizes desses que não têm morada,
que não têm conforto,
não tiveram passado e não terão porvir,
que, quando a Morte, emfim, lhes fôr chegada
(ha sempre abrigo para um corpo morto!)
pouso conseguirão, em calma, hão de dormir.

Fará os felizes tem a Morte horrores,
é o inferno"com todas as torturas,
mas tem mysterios promissores
para as creaturas
que só souberam do travôr das dores.

Cada dia que passa me persuade
que bem melhor que a felicidade
é a insensibilidade;
as delicias
da vida são fictícias,
e a morte é o meio singular
de não soffrer, de não gosar.

Feliz de quem se fez soffredora submissa
e desistiu da liça,
vencedora será quando a Morte chegar
porque lhe ha de burlar
a insaciável cobiça.

Feliz de mim que, de illusões vasia,
vou me acabando, dia a dia,
Feliz de mim que não terei mais nada
para a Morte levar.
Feliz de mim que, a esfallecer, diviso
um goso doce, delicioso, manso,
pois si a morte não me for o paraiso,
ha de ao menos me sêr da tortura o descanço.
do declive da vida na jornada. 
 ( ortografia original )

ANALOGIA ( Gilka Machado ) No livro "Mulher Nua", 1922.

 "Sempre que o frio chega o meu pesar sorri,

pois te adoro no Inverno e adoro o Inverno em ti"

Amo o Inverno assim triste, assim sombrio,
lembrando alguém que já não sabe amar;
e sempre, quando o sinto e quando o espio,
julgo-te eterizado, esparso no ar.

Afoita, a alma do Inverno desafio,
para inda te querer e te pensar
para gozá-lo e gozar-te, que arrepio!
que semelhança em ambos singular!

Loucura pertinaz do meu anelo:
- emprestar-te, emprestar-lhe uma emoção,
- pelo mal de perder-te querer tê-lo

Amor! Inverno! Minha aspiração!
quem me dera resfriar-me no teu gelo!
quem me dera aquecer-te em meu Verão!

ESBOÇO (Gilka Machado), no livro "Sublimação". Typ. Baptista de Souza, 1938

 Teus lábios inquietos

pelo meu corpo
acendiam astros
e no corpo da mata
os pirilampos
de quando em quando,
insinuavam
fosforescentes carícias
e o corpo do silêncio estremecia,
chocalhava,
com os guizos
do cri-cri osculante
dos grilos que imitavam
a música de tua boca
e no corpo da noite
as estrelas cantavam
com a voz trêmula e rútila
de teus beijos

13/10/2025

BAILE ( Djavan )

 Tarde tramando a noite

Luz e trevas no ar trocando beijos
Atração de Azougue
Guiando a carruagem do desejo
Pra resultar num luar talvez

Que eu espero tão claro
Quanto o sonho de ter você comigo
Dia dos namorados
Há de te receber em meu abrigo

Ginseng, ópio, coisa de acender
Não tem poder de me ligar

Um beijo seu pode muito mais
Faz a cena mudar, acender

A cidade para o baile que é você
Minha amada, minha estrada, meu viver
A saudade vem dos mares

Densa como uma nuvem
Decidida a cobrir toda a cidade
Penso em ti, me dá medo
Não suporto um dedo de saudade
Pra te esperar eu vejo TV

Dizem que a "Nova Era"
Trará algo de bom pro mundo inteiro
No jornal da TV
Mais um homem recua por dinheiro


Sonho, odisseia, magia, lógica, poesia, dor,
Éden, unidade, alegoria, toque, amplidão, semente,
Linguagem, alimento, futuro, aura, espelho, via,
Eterno, átomo, matéria, nada, arte, tudo somos

Na insanidade exata do amor!

EM LOUVOR DA MINIBLUSA (Carlos Drummond de Andrade)

 Hoje vai a antiga musa

celebrar a nova blusa
que de Norte a Sul se usa
como graça de verão.
Graça que mostra o que esconde
a blusa comum, mas onde
um velho da era do bonde
encontrará mais mensagem
do que na bossa estival
da rola que ao natural
mostra seu colo fatal,
ou quase, pois tanto faz,
se a anatomia me ensina
a tocar a concertina
em busca ao mapa da mina
que ora muda de lugar?
Já nem sei mais o que digo
ao divisar certo umbigo:
penso em flor, cereja, figo,
penso em deixar de pensar,
e em louvar o costureiro
ou costureira — joalheiro
que expõe a qualquer soleiro
esse profundo diamante
exclusivo antes das praias
(Copas, Leblons, Marambaias
e suas areias gaias).
Salve, moda, salve, sol
de sal, de alegre inventiva,
que traz à matéria viva
a prova figurativa!
Pode a indústria de fiação
carpir-se do pouco pano
que o figurino magano
reduz a zero, cada ano.
Que importa? A melhor fazenda
o mais cetíneo tecido,
que me bota comovido
e bole em cada sentido,
ainda é a doce pele,
de original padronagem,
pois adere a cada imagem
qual sua própria tatuagem
que ninguém copiará.
Miniblusa, miniblusa,
garanto que quem te acusa
a cuca há de ter confusa.
És pano de boca? O palco
tão redondo quão seleto
que abres ao avô e ao neto
(à vista, apenas), objeto
é de puro encantamento.
No cenário em suave curva
nosso olhar jamais se turva,
falte embora rima em urva,
pois é pelúcia-piscina
onde a ilha umbilical
vale a urna de São Gral,
o Tesouro Nacional,
vale tudo… e lembra a drósera,
flor carnívora exigente
que pra devorar a gente
não cochila certamente.
Drósera? Drupa, talvez,
carnoso fruto de vida,
drusa tão bem inserida
na superfície polida
que a blusa desvesteveste.
Ai, blublu de semiblusa,
de Ipanema ou Siracusa,
que me perco na fiúza
de capturar o mistério
— Quid mulieris…? — do corpóreo.
Mas chega de latinório,
vaníloquo verbolório
e versiconversa obtusa
de tudo que a musa canta,
pois mais alto se alevanta
o sem-véu da miniblusa.

BOLERO DE SATÃ ( Paulo César Pinheiro & Guinga )

 Você penetrou como o sol da manhã

E em nós começou uma festa pagã
Você libertou em você a infernal cortesã
E em mim despertou esse amor
Atormentado e mal de Satã

Você me deixou como o fim da manhã
E em mim começou essa angústia, esse afã
Você me plantou a paixão imortal e mal sã
Que se enraizou e será meu maldito final amanhã

E agora me aperta a aflição
De chorar louco e só de manhã
É a seta do arco da noite
Sangrando-me agora
São lágrimas, sangue, veneno
Correndo no meu coração
Formando-me dentro esse pântano de solidão

10/10/2025

A ESTÁTUA ( Judith Teixeira )

 O teu corpo branco e esguio 

Prendeu todo o meu sentido
Sonho que pela noite, altas horas,
Aqueces o mármore frio
Do alvo peito entumecido

E quantas vezes pela escuridão
A arder na febre de um delírio,
Os olhos roxos como um lírio
Venho espreitar os gestos que eu sonhei

- Sinto os rumores duma convulsão,
A confessar tudo que eu cismei

Ó Vénus sensual!
Pecado mortal 
Do meu pensamento!
Tens nos seios de bicos acerados,
Num tormento,
A singular razão dos meus cuidados

ME OLHA, ENTÃO TUDO ME DIZ ( Isabella Ingra )

 e eu nem conseguia te explicar direito o meu desejo.

da loucura de sonhar em te dar em qualquer lugar, num lugar qualquer. nem era interessante explicar que o meu corpo não podia parar de querer, assim tão subitamente, tão sem querer. nem adiantava tentar dizer que todas as vezes que fiz que não quis, queria você. que a lembrança leva e traz, em pequenos flashs de câmera antiga, você decendo pela barriga, você atrás metendo, você tão perto dizendo que está todo em mim. disso eu bem sei, disso eu sigo sabendo. quer dizer, sigo ardendo de saber mesmo não sabendo como ainda continuar a dizer, meu ventre gruda em você, sem que eu perceba o movimento. me aventuro entre o beijo e o esquecimento de que há pessoas ao redor e eu quero queria em qualquer lugar.

DENTES ESTRELAS ( Isabella Ingra )

 você tem estrela nos olhos

você brilha de olhos virados

você tem estrelas nos dedos

seus dedos brilham quando

apertam a minha

você tem estrelas na língua

sua língua brilha enquanto fala

enquanto lambe

enquanto me beija

você tem estrelas.

MEMÓRIA DO VERÃO ( Isabella Ingra )

 claro que o

      clímax

é uma chama

um      chafariz

    claro que minha

    cama

sente falta da nossa

    chuva repentina de verão.

Por Isabella Ingra

 o mesmo mar

que tenho medo de entrar

cresce dentro de mim.

 

um oceano azul tão profundo

como você é profundo dentro de mim

 

te deixo entrar

eu abro minhas ondas

descanso minha ressaca

te sugo nas minhas conchas.

TODOS OS LÁBIOS DISSERAM SIM ( Isabella Ingra )

 sua presença

a fuga da minha estrada

liberdade da minha sentença

 

te deixo

lavar meu corpo

e a vontade de ser sua

lavando meu rosto

 

a sua imagem

rasgando a minha memória

entrando por todas as portas

abrindo portas profundas

 

desgastando a poltrona

e todos os lábios disseram sim

e muito antes de mim

 

te escrevo essa carta poema

como evidência de desejo

de desejo de apertar o meu corpo no seu corpo e vez em quando me pegar te olhando

além de ti

 

talvez procurando

o que há dentro de mim

sobre você

 

que me mostras de ti

vasculhando a memória

deixo a memória nua

de quando me vi nervosa

no mesmo banho que você

e o quanto quis me ajoelhar

do quanto quis ser de você.

Por Isabella Ingra

 meu líquido grosso

agora nas suas mãos

agora na sua boca


Por Isabella Ingra

 se você me pedir

eu me abro

se você me manda abrir

abro também

Por Isabella Ingra

 trepar com a memória da nossa história que foi quase agora

 

há algumas horas

 

e toda vez que lembro

ainda tremo.

Por Isabella Ingra

 chove dentro de mim.

chove.

goteja.

explode.

lateja.