22/10/2025

POEMA 32 ( Júlia Coelho )

 O seu olhar cruza com as minhas entrelinhas,

sendo um inexplicável encontro de amor.
É como quem se aproxima extasiado
e lê o meio entretido
sem pressa para chegar
no final.

PEDAÇOS DE MULHER ( Miriam Alves )

 Sou eu

que no leito abraço
mordisco seu corpo
com lascivo ardor

Sou eu
cansada inquieta
lanço-me a cama
mordo nos lábios
o gosto da ausência,
sou eu essa mulher

A noite
no eito da ruas procuro,
vejo-me agachada nas esquinas
chicoteada por uma ausência.
Desfaleço
faço-me em pedaços

Mulher
sou eu esta mulher
rolando feito confete
na palma de sua mão

Mulher - retalhos
a carne das costas secando
no fundo do quintal
presa no estendal do seu esquecimento.

Mulher revolta
agito-me contra os prendedores
que seguram-me neste varal
Eu mulher
arranco a viseira da dor
enganosa.

TÁBUA DAS MARÉS ( Antonio Martinelli )

na vazante,

seu corpo se resumia em sal
[havia gesto]
na cheia,
seu corpo transbordava água
[e havia dança]

na vazante,
meu corpo desenhava no vazio
[havia rito]
na cheia,
meu corpo transitava o seu
[e havia luta]

entre, espaço : tempo, 
era presente e já não era 
[mas havia ritmo]

preamar, amar, baixa mar,
amar.
[e havia rima?]

e você ainda me dizia 
não saber [sobre o domínio] da lua 
em nossos corpos,

eu, tampouco, [sobre o amor].